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Enric Marti/AP

A história que os Rolling Stones acabaram de escrever

Mais do que um concerto, a inédita presença dos ingleses em Cuba faz justiça aos roqueiros mais velhos e apresenta aos mais jovens a indescritível sensação de se gritar com liberdade

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Julio Maria - Enviado especial a Havana,
O Estado de S. Paulo

26 Março 2016 | 16h09

Nem os Rolling Stones pareciam acreditar. Cuba, o país que proibiu qualquer forma de 'diversionismo imperialista roqueiro' por mais de duas décadas, os recebia com uma euforia popular assustadora, digna das revoluções. Algo que parecia sempre além dos fenômenos que os perseguem pelo mundo em seus mais de 50 anos de carreira. A devoção incondicional dos argentinos, a redenção definitiva da rebeldia inglesa, a vibração via smartphones dos brasileiros, a veneração represada nos estertores dos japoneses. O que se passou na Ciudad Deportiva de Havana na noite de sexta-feira não foi apenas o que podia ser visto – algo que já seria História.

Uma grande parcela do público era formado por fãs mais velhos que se esfolaram por 50 ou 60 anos para terem qualquer notícia dos passos de seus ídolos em uma Ilha em que não havia nem discos nem toca-discos e que o rock and roll era considerado o inimigo maior da revolução castrista. Se os Beatles engravatados traziam vírus subversivos altamente contagiosos, imagine sua antítese, o perversionismo social dos Rolling Stones. A segunda massa, jovens na média dos 15 a 25 anos, viviam ali, naquele dia, pela primeira vez, a experiência libertadora do grito por uma verdade em que acreditavam, um ato que finalmente não poderia ser reprimido pelos agentes dos comitês da revolução presentes em cada quarteirão de Havana. Uma sensação de força quando se grita o mesmo que uma multidão a partir do momento em que seus heróis, um dia tão distantes, aparecem à sua frente tocando 'Jumping Jack Flash'.

Humberto Garcia, 56 anos, imóvel, olhava para os telões chorando como criança. Estava ao lado de seu filho Elvis, 23 anos, que o abraçava por saber o quanto havia custado cada lágrima daquelas. Não era apenas a primeira vez em que viam os Stones, que os cubanos chamam o tempo todo de 'Rolling, Rolling'. Era a primeira vez que viam um show de rock nestas proporções, feito por um dos heróis dos anos 60. As músicas eram recebidas como medalhas. 'Honky Tonky Woman', 'Gimme Shelter', 'Midnight Rambler', 'You Can't Always Get What You Want', 'Out Of Control', 'Start Me Up', 'Sympathy For The Devil'. Quando foi apresentado por Mick Jagger, Keith Richards foi até a beira do palco, passou a mão nos olhos e disse algo com um sorriso nervoso: “Eu não acredito, nós estamos aqui. Isso é incrível”.

A carga de energia simbólica batia no palco e voltava para a plateia. Os Stones, como se sentissem a responsabilidade do gigante muito maior em que haviam se transformado naquela noite, faziam solos longos, esticavam canções e inventavam improvisos como não fizeram em outros shows da mesma turnê latina 'Olé'. Mick Jagger chamava o público a cantar e retornava com refrões mesmo depois do final de algumas canções. 'Satisfaction', a última de um set list que não incluiu nenhum bis, bateu e voltou com uma violência emocional que inspirou o grupo a querer vivê-la para sempre. Solos, improvisos, mais refrões. É provável que jamais tenham tocado uma versão maior.

A estrutura local do primeiro concerto de rock democrático para um público esperado de 500 mil pessoas dá sinais de fragilidade o tempo todo. Os organizadores não imaginaram, por exemplo, que uma pessoa que chega às 14h para esperar por um show que começa às 20h30 pode ter vontade de ir a um banheiro. Eles colocaram, apenas em uma rua fora do parque, uma única e inacreditável cabine de ferro, sem vaso sanitário. A fila chegou a três horas. A revista na entrada era feita por militares de verde e policiais militarizados de preto, além de várias outras graduações de agentes que cuidavam da segurança dentro e fora da Ciudad Deportiva. 

Curioso como um dos países mais controladores do mundo tem uma política de revista tão permissiva. Sinal de que não imaginam, porque nunca o fizeram, a bomba que armam quando se juntam tantas pessoas. Tirando drogas e artefatos explosivos, tudo pode para a segurança cubana. Paus de selfie, sombrinhas pontiagudas, bandeiras com cabos de madeira, marmitas, violões, bebidas em garrafas plásticas, run em garrafas de vidro. Apesar do descontrole em massa que os Stones regiam no bumbo de Charlie Watts, não houve incidentes piores e nada, além das garrafas de plástico arremessadas sobre algumas cabeças premiadas, foi jogado no palco. Uma grande área vip também pareceu estranha à ideia igualitária do socialismo. Um show de graça com área vip em um país declarado socialista deve ser inédito.

Mick Jagger falou em espanhol bem pronunciado sobre a comida cubana, dos 'frijoles' e da banana frita, e contou que foi bailar rumba na Casa de la Música, que de fato estava fechada apenas para recebê-lo na noite anterior. Seu grupo abriu mão do cachê acima dos US$ 3 milhões de dólares para realizar o sonho cubano, tocando no único show de graça que fez na turnê mundial. Nas apresentações do México, por exemplo, as entradas custavam US$ 500, um delírio que o jovem cubano que entra no mercado de trabalho ganhando 10 dólares por mês jamais pagaria. A única contrapartida foi a liberação do governo para a gravação de um DVD registrando a passagem do grupo pela Ilha, seus bastidores, e a histórica reação da plateia. Assim que o show terminou, o repórter quis falar com Humberto Garcia, o fã que havia esperado os Rolling Stones por 50 anos: “Quer falar agora sobre o que aconteceu aqui?” Ele abaixou a cabeça e seguiu caminhando pelas ruas de Havana, calado, por uns 30 minutos. Chegamos à sua casa, ele tomou um banho e foi dormir, pela primeira vez, sem dizer boa noite.

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