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'A dor de se viver no mundo sem David Bowie... Um mundo pior'

Camaleão do rock passou a fazer parte de nossas vidas

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Thedy Corrêa,
ESPECIAL PARA O ESTADO

12 Janeiro 2016 | 04h00

No final dos anos 1980 o Brasil tinha o rock dominando as paradas - algo inimaginável hoje - e o Nenhum de Nós havia lançado seu primeiro disco com a canção Camila Camila. Aposta da gravadora, a música demorou a alcançar o sucesso, tanto que entramos em estúdio para a gravação do segundo, sob a ameaça de que o primeiro não havia estourado e, portanto, era nossa última chance.

Uma banda verde precisava preencher o set list para ter um show de boa duração. Nossas escolhas recaíram sobre nossos maiores ídolos. Psycho Killer, do Talking Heads, e alguma de David Bowie. Ele era obrigatório para nós. Nos ensaios, testamos várias para ver qual se adaptaria melhor. China Girl, Ashes to Ashes, Lady Stardust, Life on Mars, Rebel Rebel... Optamos pela dramaticidade da melodia de Starman. 

Foi um trabalho árduo de artesania da letra: o resgate do icônico Major Tom, as citações à rotina dos astronautas, alusões às drogas, recortes de outras canções de Bowie (“Quero um machado para quebrar o gelo” vem diretamente de Ashes to Ashes). Nos arranjos, mais citações. A base de violão característica do clima folk de The Man who sold the world e Hunky Dory e o violino que nos remetia a Hurricane, de Dylan - influência confessa de Bowie.

Depois disso veio a longa espera pela liberação da Inglaterra. O próprio Bowie quis saber do que tratava a letra e uma tradução em inglês foi enviada. A burocracia atrasava a finalização, mas não havia volta. E então Bowie, pessoalmente, autorizou - informação que confirmei em conversa com a encarregada da liberação, em Londres.

Uma letra pra lá de hermética. Um arranjo recheado de referências, a segunda música do lado B, tudo traduzia a pouca fé que tínhamos no sucesso da empreitada. Engano. Foi a música mais tocada no país em 1989!

Fomos alvo de amor e ódio. O amor dos que a levaram ao sucesso e o ódio dos críticos e ‘colegas’ que nos acusavam de ter assassinado a canção de Bowie. Ele mesmo não pensou assim. No primeiro show que fez em São Paulo, evocou nossa versão, convidando as pessoas a cantarem em português se assim quisessem. 

David Bowie passou a fazer parte de nossas vidas. No meu caso, sua influência foi determinante para que eu me descobrisse vocalista e o caminho a seguir na maneira de interpretar. Suas várias fases me conduziram em diferentes momentos. Quando as coisas ficavam incertas, era para ele que minhas atenções se voltavam. Ele era meu norte e meu farol. Uma importância de mesma intensidade da dor que tomou conta de meu peito ao saber que ele partiu. Dor e vazio de ter de viver em mundo sem Bowie. Com certeza, um mundo pior.

 

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