Epitácio Pessoa/AE
Epitácio Pessoa/AE

A crise do rap, que também perde espaço em shows

Música que há 30 anos representava milhares de jovens da periferia, o rap vive numa encruzilhada

17 Julho 2010 | 06h00

Julio Maria

 

SÃO PAULO - A música que sai alta de uma casinha no miolo do Capão Redondo só tem refrão. Os meninos do campo de terra à frente não estão incomodados e dizem que aquilo ali é funk, o novo som da região. "O funk tá dominando", diz o garoto que se identifica como Rodriguinho, 15 anos. Ao falar por sua região, é como se falasse por uma cidade. O Capão tem 215 mil habitantes dos quais apenas 9% chegam a uma faculdade e 16% leem algum jornal ou revista. É também a área de Mano Brown, líder do principal grupo de rap do País, os Racionais MCs. Se o funk chega chegando, como se diz no meio, também é porque alguma coisa acontece com aquilo que foi por quase três décadas a música oficial dos bairros da periferia, o rap.

 

Os garotos do rap em geral não gostam do que chamam de alienação funkeira. Dizem que fazer funk é fácil, difícil é rimar com conteúdo. Os funkeiros, por sua vez, não alimentam ódio pelos rappers. Estão mais preocupados com aquela garota de shortinho ali na beira do palco. E um contingente populoso de jovens, tanto os que fazem quanto os que ouvem os sons da periferia, assistem a uma virada silenciosa na música que os representa. Se o funk começa a recrutar seu exército teen (leia abaixo), o rap encolhe e é obrigado a repensar suas posições.

 

Um show na Virada Cultural de 2007 deixou as coisas mais difíceis para o gênero. Durante uma apresentação dos Racionais na Praça da Sé, homens da Polícia Militar entraram em confronto com o público. A PM disse que foi provocada, os rappers também. A Virada daquele ano acabou marcada por cenas de batalha. Não houve mortos, mas o rap pagaria a conta em longas prestações. O gênero não ocupa mais palcos exclusivos em eventos públicos desde então e o que era só estigma virou monstro. "Antes disso rap já era o gênero mais estigmatizado do País", diz o MC e produtor Rodrigo Brandão. "A gente sente um boicote", fala o rapper Afro-X.

 

Lamento. O choro não é em vão. José Mauro Gnaspini, responsável pela Virada Cultural e por outros eventos ligados à Prefeitura, conta que a contratação de shows de rap por parte da Secretaria Municipal de Cultura foi de fato trocada por outras manifestações, como o grafite e espetáculos com dançarinos de hip hop. Suas lembranças de 2007 são em tom de lamento. "As chances do público de rap são raras e esses jovens precisavam de um show grande como aquele." Ele conta que tentou reverter o saldo negativo criando um novo palco na Virada de 2008, mas o que viu foi mais segregação. "A polícia veio com revista corporal, cachorros, detector de metais. Eu queria fazer um desagravo mas, sem querer, segregamos mais."

 

A crise do rap conta com outro agravante. Uma parte do público, sempre mais disposta a pichar muros do que curtir o som, tem disparado contra o próprio pé. O episódio mais recente foi durante o renomado festival Indie Hip Hop, no Sesc Santo André, em dezembro de 2009, quando paredes e banheiros da unidade foram depredados. Saldo da farra: o festival realizado ali por 10 anos e que trazia grupos internacionais a preços populares acaba de ser cancelado, segundo o responsável pelo evento, Rodrigo Brandão. "É oficial, não faremos mais o festival." O Sesc, procurado pela reportagem, não se pronunciou. "É o caso de gente de dentro (do rap) que dificulta o trabalho de quem quer levantar essa estrutura. A coisa se tornou indefensável." O efeito-cascata fecha portas em outras unidades, que já pensam duas vezes antes de trazer suas atrações.

 

O clima com os policiais também não é dos melhores. Os rappers acusam a PM de aumentar a truculência, algo como uma forma de responder às provocações colocadas em letras como Otários Fardados, dos Racionais. A plateia sente tratamento diferenciado, como as revistas corporais feitas apenas na área do rap durante a Virada de 2008.

 

A Polícia Militar enviou uma nota à redação em que de fato revela cautela quando o assunto é rap: "Infelizmente há histórico de sérios problemas de comprometimento da ordem pública em shows públicos de rap, provocados por algumas pessoas, trazendo grandes prejuízos à sociedade e à incolumidade pública. Por esse motivo, há sim um componente extra no planejamento operacional de policiamento desses eventos." O texto segue falando, em tom raro, do clima entre rappers e policiais: "São comuns provocações aos policiais escalados nesses shows, mas isso não é um problema para o emprego do policiamento (...) Essa postura dos policiais em não considerar provocações é algo treinado desde os cursos de formação." E termina com uma espécie de alerta. "A apologia ao crime não pode ser desconsiderada. Caso uma pessoa ou grupo de pessoas passem a exaltar ou praticar ações ilegais durante o evento, o efetivo de serviço é obrigado a adotar providências com a prisão em flagrante dos envolvidos." E é aí que o show pode virar um campo de batalha.

 

'Temos de fazer R$ 1 mil virar R$ 2 mil', diz Preto Will, do Versão Popular. Foto: Epitácio Pessoa/AE

 

Dureza. Uma ala do rap não acredita que o discurso antissistema, que já dura quase três décadas, tenha de mudar para que a música retome seu espaço, por mais que muitos jovens estejam migrando para o funk em busca de descontração (leia abaixo). "Temos que protestar sempre, ainda tem muita criança dormindo com os ratos", diz PX, do NSN. Em entrevista ao Jornal da Tarde, em 2006, Mano Brown resumiu o sentido da violência nas letras das canções. "E como você vai narrar uma história de desigualdade social? Como o papa?"

 

Na visão de outros integrantes do movimento, esta pode ser também a hora da virada. "O mundo mudou e nós também temos de mudar. Agora sou pai de família. Tivemos de virar homens de negócio. Não adianta só cantar, temos de ter a visão empresarial", diz o rapper Nego Chic. Seu amigo Preto Will, do Versão Popular, fala de estratégias. "Temos de fazer R$ 1 mil virar R$ 2 mil e ganhar com o rap. Se a gente gastava R$ 800 para gravar uma música, gastamos hoje R$ 250 depois que aprendemos a produzir."

 

O rap pode virar empresa também quando o assunto é moda. A exemplo de outras marcas surgidas de núcleos rappers, como 1daSul e Fundão, os integrantes do NSN fazem dinheiro com a grife que criaram, a Guerreiro Nato. Os próprios rappers compram os tecidos, desenham as peças e as costuram, tudo dentro de um padrão de moda que, sabem, será vendido rapidamente entre seus parceiros. Uma camisa sai por R$ 30. Um agasalho completo, R$ 80.

 

O rapper Kamau, 34 anos, há 13 no rap, vê que a migração de festas com rap dos bairros mais afastados para regiões como Centro e Jardins pode ser outra alternativa. "É um outro público que frequenta ali, mas não deixamos de fazer o rap que sempre fizemos", diz. E desponta assim um novo dilema para os rappers que procuram a saída perfeita: enternecer sem perder a dureza. Diz Afro-X: "Não achamos mais que somos donos da verdade, mas se abrirmos muita concessão, logo vai ter rapper rebolando por aí."

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