AMANDA PEROBELLI/ESTADAO
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Verissimo diz o que o leitor quer falar, mas não consegue

Autor tem pleno domínio da intuição cômica ao coletar material dos detritos do falar cotidiano e das picuinhas dos comportamentos

Elias Thomé Saliba, Especial para O Estado de S. Paulo

24 Setembro 2016 | 05h00

Luis Fernando Verissimo não é apenas o cronista mais popular do Brasil. É também o campeão dos textos apócrifos na internet e uma das maiores vítimas das atribuições indevidas neste milagroso universo da multiplicação dos pães que é a web. Parece trivial, mas isto já diz muito a respeito da sua extensa e variada produção, a qual, apesar de ganhar a perenidade do livro, nasceu colada à destinação imediata e efêmera da crônica e ao envelhecimento precoce das pautas cotidianas. Verissimo ultrapassa o transitório não apenas porque suas crônicas se transformam em livros, mas porque estabeleceu desde o início um pacto humorístico com o leitor. Mais do que qualquer outro, o público que se torna parte do pacto humorístico é aquele que percorre o noticiário sério do jornal ou da revista e torna-se capaz de entender as alusões, ironias e paródias de Verissimo e de seu humor fortemente conectado com os eventos noticiados e, por isso, compreensível apenas naquelas situações. 

Há décadas, esgotamos a paciência em estabelecer um pacto no cenário político nacional, mas parece, afinal, que o único pacto que funciona nessas plagas é o humorístico: é preciso alguém que diga para o leitor o que ele pressente, quer dizer, mas não consegue se expressar. No limite, o leitor apropria-se indevidamente do nome do humorista para postar aquilo que o faz rir. Verissimo tem o pleno domínio desta intuição cômica, coletando-a dos detritos do falar cotidiano, das picuinhas dos comportamentos de homens e mulheres, da confusão de vozes sociais no País. Confusão de vozes que ele soube tão bem multiplicar em seus inúmeros personagens: a Velhinha de Taubaté, a última no País a acreditar nos governos; o Analista de Bagé, que mistura freudismo com cafajestismo, e até mesmo as cobrinhas (nem sempre) anônimas desenhadas nas tiras: Queromeu, o corrupião corrupto, as lesmas Flexa e Shirley ou Durex, o adesista. Qual escritor sério descreveria um padre completamente surdo que obriga os fiéis a confissões gritadas na igreja diante da escandalizada plateia de beatas? Ou então, um brasileiro comum que recebe, por e-mail, uma proposta do diabo para trocar sua alma por um único desejo – e, após hesitar entre uma gostosona e a vitória do Internacional no campeonato, acaba pedindo a transformação do Brasil num país escandinavo? 

Quem se atreveria a pintar um Gregor Samsa tupiniquim, que desperta transformado em Kafka e consegue cavar uma pensão da Previdência Social por abalo psíquico? Entre tantos exemplos, de achados cômicos e citações literárias em modo rebaixadíssimo, a listagem seria infinita. Mesmo quando escreve livros tidos como sérios, como Os Espiões ou Borges e os Orangotangos Eternos, Verissimo não resiste à tentação de interpolar efeitos cômicos, invertendo todos os cânones da ficção policial. Dele, quase que se poderia dizer o que Umberto Eco escreveu sobre Achille Campanile: “é um escritor apesar de ser humorista”. Quase. Porque, parodiando Eco, arriscaríamos dizer que, apenas quando não faz rir, é que Verissimo não é um grande escritor. 

Atribuir indevidamente aforismos ou piadas a Verissimo na web é sintomático porque faz parte do mesmo pacto humorístico. O leitor diverte-se porque sente uma íntima afinidade – é quase como se ele mesmo contasse aquilo, ou pelo menos pensasse, mas não quisesse revelar publicamente. Afinal, ele não precisa, pois tem o humorista para expressar o que ele quer, mas não pode. E não pode não apenas porque não está no centro do picadeiro, lugar natural da galhofa nacional, mas porque fora dela predomina o ordinário da vida. “Neste país, o sujeito que faz rir é um benfeitor. E, se não temos um vampiro – estejam certos –, é a piada que torna inviável qualquer Drácula brasileiro”, escreveu Nelson Rodrigues. O paradoxo do pacto continua agindo porque é justo um escritor de humor que consegue algum distanciamento crítico, que salva o leitor da sua impotência em mudar aquele estado de coisas ou incita a sua capacidade de indignar-se na direção – não da escuridão ou do silêncio ressentido da nossa ética emocional –, mas daquele sorriso divertido que é o riso da libertação. Afinal, a função do humor, do melhor humor – já o disse Saul Steinberg – “é desnudar o homem para em seguida perdoá-lo”. 

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ELIAS THOMÉ SALIBA É PROFESSOR DA USP, AUTOR DO LIVRO RAÍZES DO RISO E COORDENADOR DO BLOG HTTPS://HUMORHISTORIA.WORDPRESS.COM/

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