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Cultura

Guilherme de Almeida

Unesp edita antologia de críticas de Guilherme de Almeida publicadas no 'Estado'

Intelectual foi um dos organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S.Paulo

11 Março 2016 | 20h28

Ele foi um dos mais destacados intelectuais de seu tempo. Guilherme de Almeida foi um dos organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922, ajudou a fundar a importante revista Klaxon, foi coroado príncipe dos poetas brasileiros. Seu poema A Carta Que Eu Sei de Cor fez história ao ser declamado na Universidade de Coimbra, em 1930, num evento de divulgação da moderníssima poesia brasileira. “E tu me escreves – ‘Meu amor, minha saudade!/ Há tanto tempo não te vejo; há quasi um dia;/ estou tão longe, do outro lado da cidade...’”

Tudo isso você talvez já soubesse, mas há ainda uma faceta pouco conhecida das múltiplas aptidões culturais de Guilherme de Almeida. No Brasil dos anos 1920, ele foi não apenas um dos primeiros a escrever sobre cinema, mas também a pensar a nova mídia que despontava. Guilherme de Almeida manteve uma coluna – Cinematographos – no jornal O Estado de S.Paulo, que também foi pioneiro no pensamento crítico do cinema no País. Um livro faz agora o resgate do grande homem de cinema. Num extenso volume de quase 700 páginas – Cinematographos: Antologia da Crítica Cinematográfica –, Donny Correia e Marcelo Tápia fizeram uma seleção, por ano, de suas críticas publicadas entre 1926 e 42. O lançamento será neste sábado, 12.

Num texto datado de sábado, 13 de novembro de 1926, ele escreve – “Há quem negue seja o cinema uma arte. Por quê? – Porque ele é novo demais, é ainda muito de nossos dias para que o possamos julgar desassombradamente.” O texto seguinte, Rei Morto Rei Posto, de quinta-feira, 18 de novembro, mostra que Guilherme de Almeida tomava seus riscos. Ele disseca os efeitos da morte de Rodolfo Valentino e as tentativas da incipiente indústria (cinematográfica) que se estabelecia na Califórnia de substituí-lo, criando outros mitos. Já intuía a fratura permanente do cinema entre arte e indústria. No ano seguinte, o primeiro texto selecionado – terça-feira, 4 de janeiro de 1927 –, Cinema = Cinema, constata que vivíamos, no alvorecer do século 20, uma era de especializações. “A Enciclopédia esfarelou-se carcomida por traças, o homem dos sete instrumentos estourou de apoplexia, o médico dr. A. só trata de lumbago ou de água na rótula; o advogado dr. B. só se ocupa de “outorga uxória”; o engenheiro dr. C. só entende de freios de locomotivas. Nas artes, idem. Um pintor é só um pintor. Um poeta é um poeta.”

É nesse quadro que, segundo ele, o cinema, a mais moderna das artes, se especializa também e Guilherme de Almeida ‘teoriza’ sobre o cinema = cinema. Estabelece regras – 1.º que os assuntos dos filmes se limitem às realidades rápidas de hoje, isto é, que se condene para sempre o supérfluo teatral; 2.º que os cenários sejam exatos, isto é, representem sinteticamente apenas o que devem representar, sem orientalismos, latinismos e outras exuberâncias inúteis; 3.º que se expulsem das salas de exibição as orquestras, principalmente as que pretendem ‘interpretar’ os filmes; 4.º que se reduzam ao mínimo (a zero, se possível) os letreiros: bordões inúteis, recursos abomináveis de uma arte MUDA, e que só servem de pretexto para ridículas literatices que, não raro, comprometem o filme, etc.

Não sendo um incoerente, Guilherme de Almeida selecionava seus ‘artistas’. Amava Charles Chaplin. Diz que Carlitos é de todos povos, pertence à humanidade. S.M. Eisenstein? A admiração pelo criador de O Encouraçado Potemkin torna-se (quase) devoção e ele transforma as iniciais, S.M., de Serguei Marie, em ‘Sua Majestade” Eisenstein. Num texto de 21 de setembro de 1941, A Experiência Cidadão Kane, percebe que a obra-prima de Orson Welles é um ensaio que vai mudar o cinema e lamenta a debandada do público. Em sua fascinação, chega a poetar em prol do cinema. “Na grande sala escura, só teus olhos existem para os meus:/ olhos cor de romance e de aventura, longos como um adeus.” E o importante é que, formulando um pensamento crítico pioneiro sobre cinema, Guilherme de Almeida também leva o leitor por uma viagem pela Cinelândia da ‘Pauliceia’. Evoca salas perdidas no tempo. Bandeirantes, Art Palácio. No domingo, 5 de fevereiro de 1927, adverte que amanhã “o República vai exibir A Última Gargalhada (de Murnau) – um trabalho extraordinário da UFA, com Emil Jannings – filme que marca o início de uma nova era na técnica cinematográfica: a da reintegração do cinema em si mesmo, isto é, da verdadeira arte muda. Em contraposição a este filme, para que o público coteje as duas artes – a tedesca e a yankee –, o Sant’Anna fará passar na sua tela uma grandiosa produção da First National, O Novo Mandamento com essa branca e doce Blanche Sweet e, mais, com Ben Lyon, Holbrook Blinn e George Cooper”.

CINEMATOGRAPHOS: ANTOLOGIA DA CRÍTICA CINEMATOGRÁFICA - GUILHERME DE ALMEIDA 

Org.: Donny Correia e Marcelo Tápia 

Editora: Unesp (679 págs., R$ 95)

Lançamento: Casa Guilherme de Almeida - Anexo (R. Cardoso de Almeida, 1.943, 3673-1883. Sáb. (12), 15h 

Autor assinou também coluna sobre aniversários 

A colaboração do poeta Guilherme de Almeida com o Estado se inicia bem antes de 1927, quando estreou sua coluna sobre cinema, e não se restringe somente a ela. Foi na redação do Estado que, em setembro de 1916, foi apresentado pela primeira vez ao público seu primeiro livro de soneto, Nós. 

No mesmo ano, o poeta passa a editar o Carnet do Estado, seção dedicada à divulgação de aniversários, casamentos, festas e outros fatos da sociedade paulista e de quem estivesse por aqui. O Carnet do Estado, publicado desde 1896 e limitado ao registro de fatos, sofreu uma radical mudança em 1928 quando o poeta injetou sua prosa e passou a ser chamada de Sociedade. 

Assinado por ‘Guy’, Guilherme de Almeida, além de crônicas, abordava diversos assuntos da época. Num dos primeiros textos, intitulado Masculinismo (20 de junho de 1928), o poeta ironiza a possibilidade de, em “paizes dominados pelo feminismo”, o surgimento de um movimento contrário assustado “diante desse surto de idéas avançadas a quererem vêr numa excessiva liberdade dos jovens e dos casados serios perigos para a moralidade social e para a estabilidade da familia”. 

Tanto a seção Sociedade quanto a de cinema seguem ininterruptas até dezembro de 1942. Em 1943, Guilherme de Almeida assume a direção da Folha da Manhã e da Folha da Noite, e posteriormente funda o Jornal de São Paulo. Mas ,em 1957, volta ao Estado assinando a coluna Eco Ao Longo dos Passos. Num tom mais intimista e memorial, o autor mistura poesia, crônicas e contos. A coluna foi publicada até 1961.

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