Ayman Oghanna/The New York Times
Ayman Oghanna/The New York Times

‘Uma Sensação Estranha’, livro do turco Orhan Pamuk, retrata o humanismo dos seres mais humildes

Em entrevista ao Estado, o escritor fala sobre o seu novo romance, ambientado em Istambul

Entrevista com

Orhan Pamuk

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

01 Abril 2017 | 03h00

A adoração do escritor Orhan Pamuk por Istambul, a metrópole de sua Turquia, já se tornou notória. Em seu mais recente romance, por exemplo, Uma Sensação Estranha, lançado agora pela Companhia das Letras, Pamuk escreve, logo nas primeiras linhas, que Istambul é a capital do mundo. O livro, na verdade, tem a cidade como um protagonista onipresente ao acompanhar a trajetória de Mevlut, vendedor ambulante que passeia pelas ruas com potes de iogurte, arroz, ervilha e boza, típica bebida turca, feita com trigo fermentado.

O romance acompanha a trajetória de Mevlut desde os anos 1960 até chegar aos dias atuais, período em que Istambul sofre mudanças radicais, com a chegada de imigrantes e um rápido desenvolvimento. Ao atingir a meia-idade, Mevlut observa o retrato de uma sociedade em busca dos benefícios da modernização. 

Vencedor do Nobel de Literatura de 2006, Pamuk une a memória pessoal com pesquisas que fez com moradores na cidade para construir livro documental, uma declaração de amor à glória e à decadência de Istambul. Para ele, a experiência, essa negociação consciente entre o eu e o mundo, é uma característica irredutível da vida, e não há experiência mais intensa do que a arte. Ele se apaixonara por Istambul desde o início, quando a cidade se parecia com uma grande dama, exuberante em seus vestidos de cetim, com um toque de batom nas esquinas, perfumada e ornada com joias, elegante sem ostentação, engenhosa sem alarde. 

E não deixou que o amor sofresse profundos arranhões mesmo quando a decadência invadiu pontos antes aristocráticos e, especialmente, quando a sombra do autoritarismo ameaça escurecer o país, como acontece agora com o referendo nacional previsto para o dia 16 de abril, que propõe a troca do parlamentarismo pelo presidencialismo – na prática, um aumento de poder para o presidente Recep Tayyip Erdogan. Sobre o livro e a situação da Turquia, Pamuk falou com Estado, por telefone, de Istambul.

Como em outros romances, o senhor apresenta aqui um retrato carinhoso de Istambul. Mas esse romance teria mais preocupação com a massa imigratória?

De uma certa forma, sim. Li muito sobre a imigração que povoou Istambul desde os anos 1960. Foram milhões de pessoas que se uniram naquele espaço. Não pretendi escrever sobre o psicologismo, mas apresentar o retrato dessas pessoas, tanto as ricas como as pobres. Procurei apresentar detalhes das ruas, das casas, das lojas, sua forma de organização. Fiz muita pesquisa na cidade, tanto com vendedores de boza como os comerciantes mais modernos. Veja, não são retratos românticos, mas algo parecido com aquelas micro-histórias apontadas pelo (historiador italiano) Carlo Ginzburg, que mudam o perfil de uma cidade. Istambul é uma metrópole complexa e Mevlut não traz apenas um rosto, mas representa o perfil coletivo daquela população.

Por falar em Mevlut, ele parece ser um personagem apolítico, ao contrário de seus amigos.

De fato, Mevlut passa essa impressão, mas precisamos lembrar que ele é um vendedor de rua, ou seja, mantém contato com pessoas de todos tipos de credos políticos e religiosos. O que interessa para ele é vender seu produto, independentemente para quem. E a vida o ensinou a não ser tão explícito. Ao mesmo tempo, as necessidades materiais são muito grandes, o que exige de Mevlut o envolvimento em conexões políticas, o que ele faz por meio de seus parentes. O que quero dizer é que Mevlut é, sim, um ser político, mas suas opções não influenciam necessariamente suas atitudes.

Mevlut se parece, às vezes, como alguém muito otimista.

Sim, ele fala muito sobre sua alegria, mas, novamente, faz parte de seu trabalho. Conversei com muitos vendedores ambulantes e praticamente todos contaram sobre a necessidade de mostrar uma felicidade ao oferecer seu produto. Ninguém se interessaria pelas refeições vendidas por alguém triste.

Muitas vezes, as personagens femininas me parecem mais inteligentes do que as masculinas. Estarei errado?

Acho que não (rindo). Veja bem, é preciso analisar esse tipo de sociedade, na qual os homens, espertos ou estúpidos, estão secularmente no poder. Isso obriga as mulheres a serem duplamente inteligentes para viver ao seu gosto na sociedade. É por isso que as mulheres são mais conscientes e mais inventivas para sobreviver. Mas não se trata de um retrato exclusivo que apresento aqui – há vários romances na história da literatura em que a mulher, ainda que aparentemente submissa, é quem realmente detém o poder.

Sobre o estilo literário do romance, há um curioso entrelaçamento de narrativas em primeira pessoa com outras em terceira pessoa. Como fez tal costura?

Como disse antes, a narrativa foi construída a partir das diversas entrevistas que realizei com habitantes de Istambul – vendedores, policiais, donas de casa. Era importante, portanto, dar espaço para diferentes vozes. Quando comecei a escrever, minha intenção era produzir um conto. Mas logo percebi a necessidade de explicar a natureza de um vendedor ambulante e logo fiquei tomado por uma energia épica, pois a maioria deles vive em favelas e é imigrante. Percebi estar diante não apenas de uma história turca, mas asiática e até mundial. Essas pessoas são habitualmente representadas como personagens de fundo nos romances – sua humanidade raramente é explorada ou desenvolvida.

O mundo hoje vive momentos turbulentos, dos Estados Unidos à sua Turquia. Como vê isso?

Sim, nomes como Trump, Brexit, Erdogan dominam o noticiário de todo o planeta. Mas vejo uma diferença significativa nisso: enquanto a estrutura democrática é forte o bastante nos Estados Unidos ou em países europeus, a ponto de impedir, por exemplo, que Trump governe como bem entender, na Turquia, corremos o risco de nos transformar em um Estado autoritário. Se o sim ganhar nesse plebiscito, deixaremos de ser uma democracia.

UMA SENSAÇÃO ESTRANHA

Autor: Orhan Pamuk

Tradução: Luciano Vieira Machado 

Editora: Companhia das Letras (592 págs., R$ 74,90)

Trecho: “Esta é a história da vida e dos sonhos de Mevlut Karatas, vendedor de boza e iogurte. Nascido em 1957 na fronteira ocidental da Ásia, numa aldeia pobre que dava para um lago enevoado da Anatólia Central, aos 12 anos foi para Istambul, a capital do mundo, onde passou o resto da vida. Quando tinha 25 anos, voltou para a província natal e de lá fugiu com uma jovem, num estranho episódio que determinou o curso de seus dias. Voltou para Istambul, casou-se, teve duas filhas e se pôs a trabalhar sem descanso – vendeu iogurte, sorvete e arroz como ambulante, e exerceu o ofício de garçom. Mas à noite nunca deixou de perambular pelas ruas de Istambul, vendendo boza e sonhando sonhos estranhos. Nosso herói Mevlut era bem-apessoado, alto, forte...”

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