Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Um passeio pela Brasília de Milton Hatoum

Capital federal é o cenário do último romance, 'A Noite da Espera'

Leonencio Nossa, O Estado de S.Paulo

10 Dezembro 2017 | 06h00

BRASÍLIA - Numa manhã de mormaço, o Estado acompanhou a visita do romancista Milton Hatoum, de 65 anos, a lugares de Brasília descritos em seu novo livro. A Noite da Espera, primeiro volume de uma trilogia, usa ficção e memória para narrar a formação do autor, num colégio modelo, às vésperas da edição do AI-5, instrumento que recrudesceu a ditadura. 

Há exatos 50 anos, em dezembro de 1967, o amazonense Milton, de 15, chegava à capital em construção para fazer o ensino secundário. Pretendia ser arquiteto. É o início da história do paulista Martim, alter ego do escritor e homônimo do personagem de Iracema, de José de Alencar, e de uma geração que viu a utopia da cidade futurista se diluir em mais um refluxo do País no tempo. “Eu devia isso a mim”, diz Milton no saguão do hotel, antes de rever cenários de seu romance.

No momento em que o carro passa pela Esplanada dos Ministérios, ele conta que a mãe, Naha, resistiu à mudança do filho. “Era época do Grande sertão: veredas, do Cinema Novo. Havia otimismo e uma democracia em construção. Lúcio Costa e Oscar Niemeyer não puderam antever a interrupção.”

Milton passou no difícil exame de acesso ao Centro Integrado de Ensino Médio, o CIEM, escola de aplicação da Universidade de Brasília (UnB). Os militares tinham dado o golpe em 1964, mas ainda havia liberdade. A visita continua. O prédio do Itamaraty surge. “Neste espaço infinito, quando a repressão chegou, não tinha como fugir. Era fácil encurralar”, diz. “A imensidão é o problema. Numa cidade que tem becos, você tem opção.”

Ele não foi militante de proa, mas acabou preso num protesto. Lembra de uma noite na prisão, gritos. A política está em cada frase e entrelinha. “Minha ideia foi inventar um personagem desligado do movimento estudantil. Ele vive um drama que é a perda da mãe”, diz. Lina se afasta de Rodolfo, o pai de Martim, após conhecer outro homem. Personagens inventados surgem com nomes de guerrilheiros. Na história real, Áurea e Dina morreram no Araguaia. Uma Vana chegou ao Planalto. Lázaro, jovem da periferia, é o elo entre a cidade-satélite e o Plano Piloto. É o Brasil que ironiza o livrinho vermelho da esquerda e se vê distante da direita, afetada. Martim dorme com Dinah, do teatro amador. A história do casal se assemelha à de uma dupla do imaginário da capital – o ingênuo Eduardo e a artista plástica Mônica da balada de Renato Russo.

No passeio de poucas perguntas, o romancista é confrontado pela cidade, que de projeto urbanístico tornou-se epicentro de uma mancha de três milhões de pessoas. Ele identifica pelo pilotis, pavimento térreo sem paredes, o prédio da república onde morou na Asa Norte, o Bloco ‘O’ da Superquadra 406. Se decepciona que, nos blocos vizinhos, as ‘elegantes’ colunas circulares foram substituídas por quadrados. O ficus do tempo de estudante está em frente, em duelo com o asfalto da via L2 e o trânsito. A gameleira era a Amazônia que ficava para trás na vida e, agora, se afasta na literatura. “Essa árvore já era monumental. Tinha o poder de evocar minha região.”

Ele atravessa a pista e chega ao prédio da sua escola, onde hoje é hospital da UnB. Um guarda o impede de se aproximar. O homem reclama. Milton fala do prédio. “Esse projeto tem elementos vazados. (A fachada) é um grande cobogó. É um edifício horizontal, despretensioso. Tinha proposta pedagógica. Era uma ameaça”, diz. Ele se transferiu do conservador Colégio Pedro II, de Manaus, para a escola inovadora. “Não era escola com partidos, para glosar essa besteira de escola sem partido. Tinha liberdade de pensamento. Isso que é fundamental. Hoje, o problema da escola é a falta de formação humanística.”

O CIEM foi fechado pela ditadura. A escola de qualidade não foi reaberta pela democracia. Milton não insiste em entrar e rever sua sala. “É melhor guardar as invenções da memória”, avalia. Lamenta o drama de quem busca tratamento médico. “Muita coisa é decorrente dos anos de repressão, da desestruturação da escola pública, interrompida por políticos medíocres ou que não viveram a prática democrática”, diz. “A velha oligarquia poderia ter sido renovada pelo PT, mas houve o naufrágio. Está aí o impasse.”

Milton chega ao Lago Paranoá, onde remava e onde Martim, desacordado, se aproximou do Palácio da Alvorada e foi preso. Uma juventude acordou num país autoritário. Milton diz que achava que seu livro Cinzas do Norte era o acerto de contas com o passado. Brasília estava entalada. Quando começou a escrever o romance, em 2010, o Brasil estava em outra “toada”, observa. Para ele, não foi intencional que o reencontro com o passado ocorresse neste momento nebuloso. A ficção se acerta com o presente.

Ele conta que escreve à mão a primeira versão de seus livros. A nova obra foi rascunhada em 1980. No tempo da rapidez das redes sociais, Milton aposta no romance. “A arte reinventa a realidade como se fosse um objeto que entra na água e passa por uma refração. É transcendência”, diz. Comentários sobre PMDB e ‘centrão’ são diretos. “O silêncio é cúmplice do que ocorre. Essa quadrilha está no poder porque as pessoas silenciaram”, afirma. A visita prossegue. É preciso contornar toda a Praça dos Três Poderes. “Se o Judiciário fosse diferente, o País seria outro.”

Nos livros anteriores de Milton, a floresta é encoberta por dramas familiares. Agora, no romance de Brasília, o ambiente é um pau-ferro aqui, a poeira vermelha acolá. A aspereza é só aparente no cerrado e na narrativa. Ele descreve a caliandra, a rosa do planalto central, de odor denso, as pirâmides e estrelas do misticismo caboclo, os “pássaros voando para o chão” dos azulejos de Athos Bulcão.

Na última parada, ele revê a Igrejinha, na 308 Sul, onde Martim encontrava Dinah. Milton não esconde o prazer em estar diante da obra preferida. “É uma fórmula leve, miniatura da arte de Niemeyer”, diz. “Eu pensava que iam destruir a liberdade. Mas sabia que era mais difícil destruir a arquitetura.”

Longe do clichê do retrato de uma geração, o romance de Milton expõe um embate quase eterno de visões de pessoas que se encontram na juventude e que se destacam depois na vida de um país, para o bem ou para o mal. Assim que o escritor lançou o livro no bar Beirute, na 109 Sul, amigos começaram o jogo de identificar personagens. Às vezes, a tarefa é fácil. Lá está Manequim, o ‘boa-pinta’ do terceiro ano que perdeu a disputa do grêmio, filho de um senador de Alagoas que matou um político. “Fernando Collor perdeu a eleição do grêmio para a nossa turma”, lembra o jornalista Hélio Doyle. O senador cassado Luiz Estevão e o empresário Paulo Octávio eram também do terceiro ano – os dois homens do mercado imobiliário estão à frente das mudanças que alteram o Plano Piloto.

A turma de Milton era mais nova, dela faziam parte o presidente da Petrobrás, Pedro Parente, a romancista Ana Miranda e os jornalistas Álvaro Pereira e Heloísa Doyle, irmã de Hélio. “Milton era um outsider na turma de muitos filhos de papais. Era caladão”, relata Álvaro. É o perfil feito por Hélio: “Era quieto e reservado”.

Milton teve uma musa no CIEM. “Ele olhava de um jeito diferente para mim. Eu gostava. Não sei como a gente fala sobre isso após anos”, diz Heloísa Doyle. “Tinha um olhar penetrante.” O sentimento dele foi mais uma obra inconclusa. Os domingos eram terríveis para Milton. Estudantes no câmpus correndo do Exército é a imagem mais nítida para Heloísa. “A universidade tinha sido invadida”, conta a jornalista, que foi rever Milton mais de 40 anos depois. Foi o tempo necessário para o romancista dizer o que tinha para dizer à cidade.

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