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São Paulo ganha novas livrarias especializadas em publicações independentes

Ilustrarquia chega em março para fazer companhia à Ugra Press - que, recentemente, deixou de ser uma loja apenas virtual

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Maria Fernanda Rodrigues,
O Estado de S. Paulo

06 Fevereiro 2016 | 06h00

Há seis meses a cena se repete. Douglas Utescher abre a porta da loja 116 da Galeria Ouro Velho, na Augusta, olha ao redor, respira fundo e sente aquele orgulho: “Eu tenho uma livraria”. Ele, 38, e Dani, 32, são donos da Ugra Press, que começou como editora em 2010, virou loja virtual em 2013, participou de várias feiras de livro e, em agosto do ano passado, inaugurou sua primeira loja física. Dedicada desde sempre a publicações independentes, sobretudo a HQ, a Ugra conquistou seu espaço numa cidade que já contava com lojas bem estabelecidas, como a Comix, HQ Mix, Gibiteria, Monkix, Cidade de Papel e Terramédia, Banca Tatuí, entre outras, além de sebos especializados. Cada uma, no entanto, tinha um perfil diferente. No próximo mês, depois de tanto investimento, ela deve fechar pela primeira vez no azul. E também em março, ela vai ganhar nova concorrente. 

A história começa com a publicação do Anuário de Fanzines, Zines e Publicações Independentes - o primeiro dos 15 títulos lançados pela Ugra. “Vimos que havia uma quantidade grande de material sendo produzido e que as pessoas não conheciam. Eu tinha, sim, o desejo de editar, mas surgiu também o desejo de dar visibilidade para esse material que já existia”, diz Douglas. O acesso a essa produção é difícil. “Se a pessoa quer comprar 10 livros, ela tem que falar com 10 autores diferentes, fazer 10 pagamentos diferentes, receber 10 envelopes. A ideia da loja virtual surgiu nesse contexto”, completa. Ela foi inaugurada com 30 títulos. Os clientes foram chegando, pedindo um título aqui e outro ali, e o acervo foi crescendo aos poucos. Hoje, são cerca de 1.500 títulos.

Ao abrir a simpática loja física, que tem dois andares e espaço para cursos, exposições e eventos, o casal resolveu incluir obras publicadas por editoras tradicionais - mas que dialogavam com o material que já comercializavam. Há, então, nas prateleiras, livros da WMF Martins Fontes, Companhia das Letras, Veneta e por aí vai.

“Seria muito arriscado ficar só com as publicações independentes. É um mercado que está crescendo, mas ainda está em formação. É preciso tempo de amadurecimento, tempo para as pessoas incluírem esse tipo de publicação no orçamento e a compra deixar de ser casual. Para quem não está no negócio, parece que a cena de quadrinhos independentes explodiu. Não explodiu. Ainda precisamos formar público.”

E nesse contexto, em março, será inaugurada a Ilustrarquia. “Fomos chamados de loucos por abrir uma livraria em plena Paulista, entre a Cultura e a Fnac, mas nossa proposta é outra. Achamos que o pequeno produtor é aquele que pode trazer o diferencial com a liberdade de publicações”, explica o casal Fernanda Terra, 35, e Nat de Abreu, 39, que deixaram o emprego em agência de publicidade e investiram as economias nessa loja dedicada a tudo o que for relacionado a ilustração: HQs, pôsteres, zines, graphic novels, gravuras originais, canecas, botons, etc. “Estamos abrindo o espaço como uma forma de distribuição desses ilustradores independentes”, contam.

A Ilustrarquia também vai funcionar numa galeria, na esquina da Paulista com o Parque Trianon. A ideia era ocupar apenas um andar e usar o outro para o estoque, mas a procura de artistas tem sido tão grande, eles contam, que já estão considerando usar o outro piso para eventos - mas isso deve ficar para a segunda etapa. Sobre o tipo de publicação que venderão, dizem: “Sem uma editora determinando o que deve ser lançado, os artistas independentes podem experimentar, usar novas técnicas, testar formatos e reinventar o próprio impresso. Assim, teremos uma diversidade de títulos e todos os públicos se identificarão”. 

Douglas e Dani, Fernanda e Nat resolveram abrir uma livraria num momento delicado para o setor e para o País. “É na hora da crise que o meio underground, independente, aparece com mais força, trazendo novas soluções, aquecendo a economia informal e usando a criatividade como solução. Isso faz com que novos artistas apareçam, se divulguem e sejam descobertos, favorecendo a economia do segmento”, comentam os proprietários da Ilustrarquia. 

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