Taylor Jewell/AP
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Rose McGowan conta em livro detalhes de como foi abusada por Harvey Weinstein

Obra traz um relato gráfico de quando foi molestada pelo produtor de cinema

Hillel Italie, AP

03 Fevereiro 2018 | 06h01

NOVA YORK - “Que ele desapareça”, disse Rose McGowan durante uma entrevista à agência de notícias AP na quarta-feira, dia 31. “Minha afirmação é verdadeira. É a realidade. Pare de dizer que foi consensual! Você sabe que não é verdade.”

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O produtor de cinema Harvey Weinstein divulgou um comunicado na terça-feira, 30, citando um alegado e-mail do ex-agente de Rose, dizendo que a atriz falara de um encontro consensual com ele. Weinstein foi acusado por várias mulheres de assédio sexual, revelações que levaram a outras acusações contra Matt Lauer, Charlie Rose e dezenas de homens.

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Rose McGowan, de 44 anos, está promovendo uma trilogia (“Uma santa trindade sem a santa”, como ela diz) de novos projetos, que inclui o álbum Planet 9, o documentário Citizen Rose, e o livro autobiográfico Brave.

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O livro traz um relato gráfico de quando foi abusada pelo produtor de cinema, que ela chama de “o monstro”, em um hotel, há 20 anos. Além dos seus comentários, Rose também divulgou, durante a entrevista, um comunicado dizendo que as declarações do produtor têm, como única finalidade, difamá-la.

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“É uma afronta não apenas para Rose, mas para as centenas de mulheres que revelaram ter sido vítimas de assédio, abuso sexual e estupro, perpetrados por Harvey Weinstein e outros iguais a ele. Esta é uma tentativa triste, arcaica, sexista e patética de corroer a verdade óbvia, e a manipulação psicológica não mais será tolerada.”

Rose McGowan fechou um acordo para escrever o livro Brave em 2016, bem antes da criação do movimento #MeToo, mas afirma que sempre soube que o mundo mudaria, em parte porque ela o mudaria. Em Brave, ela descreve como sobreviveu ao que afirmou ser uma fase da sua vida de tentativas de lavagem cerebral, desde o culto influenciado pelo cristianismo ao qual sua família pertencia quando era criança até seus anos em Hollywood.

Rose é conhecida por filmes como Pânico (1996) e Indo Até o Fim (1997), além da série de TV Charmed (cuja primeira temporada foi ao ar em 1998). Mas ela diz que encerrou sua carreira como atriz e descreve o tempo em que trabalhou com “apenas um emprego”, desdenhando a recente retomada de Charmed como uma ideia “frouxa”. Ela adorou dirigir Dawn, um curta sobre o assassinato de uma menina inocente, que comparou ao seu tempo no mundo do cinema.

Rose diz estar entusiasmada para trabalhar em outras formas de arte. Fã de escritores como a chilena Isabel Allende e o colombiano Gabriel García Marquez, cujo livro O Amor nos Tempos do Cólera ela relê todo ano, Rose revela um projeto de escrever uma história de ficção sobre uma menina de 11 anos. Durante a entrevista, falou também do seu amor pelas artes visuais e pela música e do sentimento de libertação quando trabalha por trás das câmeras, e não diante delas.

Ela também se referiu à matéria de capa da revista Time (elegendo o movimento #MeToo a Personalidade do ano de 2017) intitulada The Silence Breakers (as pessoas que romperam o silêncio). Veja a seguir alguns destaques da entrevista:

Sobre saber que seu livro Brave seria lançado em meio à eclosão do movimento #MeeToo.

Claro que sabia. Sou a arquiteta do movimento, como não saberia? A intenção nunca foi de que o livro se destinasse a quem faz ouvidos de mercador. Sempre tive de romper a máquina de propaganda de Hollywood; não foi casualidade. Não foi o caso de ser a primeira a falar. Era eu por trás dos bastidores.

Sobre como se sentiu ao contar sua história.

Foi muito traumatizante escrever sobre esse assunto, sob muitos aspectos. Isso porque você escreve uma passagem e depois tem de ir jantar e exibir uma face romântica ou uma face humana e se colocar diante do mundo, quando o que realmente você quer é se agachar e gritar. As pessoas que conheço indagavam: “É catártico?”. E eu respondia: “Não, ainda não, estou esperando por esse dia”.

Sobre nunca mais atuar.

Já prestei um serviço público suficiente dessa forma. Já fiz o necessário. Meu trabalho foi ensinar um grupo restrito de seguidores e fãs e pessoas, que reagiram, por fim. Foi o que fiz. Eles compreenderam. Estamos agora mudando para o cérebro. 

Sobre não querer se candidatar a um cargo.

Sou global, meu trabalho é global e totalmente fora do sistema. E meu trabalho é examinar a estrutura de poder. Não acredito em fronteiras. Não acredito em leis, especialmente em leis relacionadas ao corpo das mulheres.

Sobre seu desagrado com a frase usada pela revista Time (The Silence Breakers), em sua reportagem de capa elegendo o movimento #MeToo como a Personalidade do ano.

Como se atrevem. Simplesmente vocês não ouviram. Este é um título inapropriado. Errôneo e com um discurso falso. Como se todas nós de repente conseguimos coragem para falar. Não - vocês simplesmente tiveram a coragem de ouvir. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

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