RODOLFO BUHRER/ESTADAO
RODOLFO BUHRER/ESTADAO

Quem dera toda cidade tivesse um cronista na sua cola, como Curitiba tem Luís Henrique Pellanda

No seu novo livro de crônicas, 'Detetive à Deriva', escritor traz para muito perto do leitor dezenas de inquietantes figuras que estão bem ali, à vista, e ninguém vê

Ivan Angelo, Especial para O Estado de S. Paulo

05 Outubro 2016 | 05h00

O que torna preciosa a prosa do escritor paranaense Luís Henrique Pellanda é o olhar com que ele percorre as ruas de Curitiba e o modo como circula pela língua portuguesa. De uma e de outra ele conhece as avenidas mais transitadas e também as travessas e vielas onde poucos se metem. No seu novo livro de crônicas, Detetive à Deriva, Pellanda traz para muito perto do leitor dezenas de inquietantes figuras que estão bem ali, à vista, e ninguém vê. É preciso ter olhos de detetive.

Algum desacostumado poderia pensar: impossível tanta gente estranha se concentrar na mesma região de uma cidade. Mas é um erro, há muitas mais de onde essas vieram: “Hoje, sei lá, a gente convive com o fantástico, é o dia todo”, diz o autor na excelente Beiradeiros. Em Mentirosos, diz que é comum perguntarem o quanto de verdade há nas histórias que escreve, e responde “não sei, não importa”. Em outra crônica diz ser “um herdeiro de espantos”. É bonito ver sua generosidade de poeta com as figuras grotescas que captura nas ruas (ou na imaginação) e nisso se aproxima de outro poeta, o cineasta Federico Fellini de A Estrada da Vida e Amarcord. Confiram se não são Fellinianas as personagens das ótimas crônicas Baile Passageiro ou A Última Maçã do Amor, e tantas outras. O narrador de Detetive à Deriva e dos livros de crônicas anteriores, Nós Passaremos em Branco e Asa de Sereia, tem paciência de ouvir seus personagens, mesmo quando eles passam da conta: “Se eu não vivesse aberto a desperdícios (...) jamais poderia ser cronista”.

Luís Henrique Pellanda afasta Curitiba dos clichês em 'Detetive à Deriva'

O escritor afirma sua eficácia no manejo da língua. O que a gente busca quando escreve: originalidade. De ideias, de ritmos, de olhar, de linguagem, de personagens. À cata, mergulhamos na língua. Tem hora que a gente se cansa, e sobe para respirar. Mas Pellanda segue em seu mergulho numa apneia sem fim, catando pérolas, achados, diamantes. É ver o trecho em que o narrador acorda muito cedo e vê o rio da cidade parado: “Um rio às vezes se cansa, a gente sabe, e é justo que durma até mais tarde”. Ou os olhos de um casal de drogados: “Aquela brasa já carente de sopro”. Ou o jardineiro que se trancava na jaula de ferramentas da Pracinha do Amor após o almoço e cantava dedilhando um violão azul, com uma voz que “incorporava a ferrugem da gaiola” e causava alguma perplexidade aos passarinhos: “Livres, as aves sabiam que não se pode competir com um cantor engaiolado”. Ou a metáfora certeira da boca da mulher perua que se torna subitamente triste: “Ferradura de batom”. Até os gestos e sons dos comensais de um restaurante popular, a descascar e chupar laranjas ao fim da refeição, se tornam um espetáculo em página de livro, um balé de palavras e observações e simpatia pelo povo que come. É um escritor como poucos.

O curitibano Pellanda se diverte atirando setas envenenadas na sua cidade e sua gente. “Em Curitiba, quase toda praça é de guerra”. “Temos vergonha até de sangrar, tão ridículo é ferir-se”. E por aí vai. Mas é uma briga de amorosos, tapas e beijos. Quem dera toda cidade tivesse um cronista na sua cola, como Curitiba tem Luís Henrique Pellanda.

*IVAN ANGELO, 80, é jornalista e escritor, autor de 'A Festa' (1976) e 'Amor?' (1995), ambos vencedores do Prêmio Jabuti. É cronista da Veja São Paulo e vive na capital paulista.

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