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José Patricio/Estadão

Prêmio Paraná de Literatura revela vencedores

Vanessa Barbara foi uma das premiadas no concurso que reconhece trabalhos inéditos nas categorias romance, poesia e conto

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Maria Fernanda Rodrigues,
O Estado de S. Paulo

23 Novembro 2014 | 03h00

O Prêmio Paraná de Literatura anuncia nesta segunda-feira, dia 24, os vencedores de sua terceira edição. Este ano, concorreram 630 obras inéditas de autores de todo o País, inscritas sob pseudônimo. Operação Impensável, de Vanessa Barbara, cronista do Caderno 2 e do New York Times, ganhou na categoria romance. Sônia Barros, escritora conhecida por suas obras infantojuvenis, venceu em poesia com Fios. E a professora de inglês Adriana Griner ficou em primeiro lugar em contos com No Início. Elas ganharam R$ 40 mil cada uma e terão o livro editado pela Biblioteca Pública do Paraná, que promove o lançamento no dia 12 de dezembro.

Autora de O Livro Amarelo do Terminal (Prêmio Jabuti) e de Noites de Alface, entre outras obras, Vanessa diz que sua intenção foi, desde o início, mandar o original do romance em que estava trabalhando para o prêmio - porque com um objetivo e prazo ela se motivaria a tocar o projeto e por causa da valor dele. “Um prêmio em dinheiro desses é algo muito raro no Brasil. É uma quantia improvável de se obter com a simples publicação de um livro, mesmo que ele obtenha reconhecimento. É um incentivo tremendo para a produção literária.” Um concurso como esse, para originais não publicados, ela diz, é importante para descobrir novos autores que ainda não tiveram uma chance e também para que os já publicados submetam seus trabalhos por outros caminhos. 

Vanessa emprestou o título de seu romance do plano de invasão cogitado pelos britânicos durante a Segunda Guerra Mundial - período em que a protagonista, uma historiadora, é especialista. O livro conta a história de amor entre ela e um programador de computadores que esconde segredos. 

A carioca Adriana Griner nunca publicou um livro. No Início, sua estreia premiada, é, em suas palavras, uma leitura feminina do primeiro livro do Antigo Testamento. “Parece algo meio ambicioso, e talvez prepotente, tentar fazer isso. Mas eu apenas pego algumas histórias e reconto, dando voz a personagens que não têm voz. Para mim, o livro é, antes de tudo, sobre o amor. Em termos de linguagem, brinco com o primeiro capítulo do Mimesis, de Auerbach, quando ele compara a linguagem da Bíblia com a da Odisseia”, explica.

Sônia Barros, autora de 17 volumes infantojuvenis - muitos deles em verso ou prosa poética - e de um de poesia (Mezzo Voo), para adultos, aceitou a sugestão do poeta Donizete Galvão, morto este ano, e inscreveu Fios no prêmio antes de procurar uma editora. Foi ele também que a ajudou a ver a ligação entre os poemas. “O título acabou se impondo depois que percebi os muitos poemas retratando fios aparentemente distintos, mas, de certa forma, entrelaçados: do ofício, da infância, da velhice, da maternidade, do amor, da memória, da solidão, da morte, da própria poesia, da arte. Enfim, os caminhos internos e externos da existência humana.”

Confira trechos das obras premiadas:

Do livro Fios, de Sônia Barros

Sim

para Diógenes

Ao som

de Bob Dylan,

o sim

no banco de trás

do carro atolado,

resgate de guincho

ao amanhecer.

Sol e sargaço

na pele,

o sim

no banco de areia

da praia deserta,

vermelho a tingir

devagar o azul.

Sob o céu

de hera,

o sim

no banco de pedra

no meio da trilha,

risco na perna, dor

e delícia de cicatriz.

Ao som

de chuva e Jobim,

no banco da igreja,

diante do altar

– nascido bem antes

no banco de nuvens

da adolescência,

num mar

de desejo desperto,

sonho de corpo

e sentidos –

enfim.

De Operação Impensável, de Vanessa Barbara

Março de 2010

O bom de saber o futuro é que podemos selecionar, reinterpretar e editar o passado à luz do que sabemos que veio a ocorrer. Um exemplo: considerar as explosões de raiva do Tito como um prenúncio. Sua facilidade de mentir e se amoldar à expectativa dos outros como pistas para sua verdadeira personalidade.

Apontar as minhas crises depressivas recorrentes, fontes constantes de incerteza para Tito, como fatores adicionais para o nosso afastamento. Ao chegar do trabalho, ele poderia encontrar uma esposa ansiosa ou mais calma, e eu também não podia saber de antemão em que pé andava o seu humor oscilante.

Comecei a sentir medo dele. Tentava não chateá-lo e deixar que se divertisse o máximo possível, saindo do caminho e evitando seus arroubos de irritação perante um compromisso indesejado ou uma expectativa frustrada. Enquanto ele se encontrava com os amigos ou viajava com eles, aproveitei sozinha aulas de dança, passeios de bicicleta, tardes ao sol. Nunca insistia para que comparecesse às festas da minha família.

O segundo ano de casamento foi ironicamente o mais fácil, pois aprendi formas de lidar com Tito sem provocar atritos desnecessários, ficando em silêncio e esperando a crise passar – o que também pode ser considerado um prenúncio. Talvez eu devesse ter sido mais megera.

Do conto “tamar”, do livro No Início, de Adriana Griner

Todas as histórias já estavam escritas. No início era já um círculo perfeito, em que a vida se abria e se completava, em que o mundo se criava e se expandia, sem mais, um mundo com leis próprias, com começo e fim. Mas tamar me chamava, tamar se fazia em mim e me lembrava que o fim nunca é o fim, que a vida nunca está acabada, que há sempre algo além, que o corpo cresce dentro de você e que é chegada a hora, e você, urrando como um animal, com sons que nem você reconhece, vê que é chegada a hora de parir.

Tamar não tivera a chance de escolha. Seu pai a tinha dado para er, e er morrera sem lhe dar filhos. E então yehuda a tinha dado para onan, seu segundo filho, e onan se recusara a gerar nela a vida, sabedor que dele não seria a descendência. E por fim yehuda lhe dissera para ir ter a seu pai, a esperar por shela, seu terceiro filho, a se fazer homem, para quando pudesse nela gerar a descendência.

E o tempo passava. Tamar cuidava das ovelhas de seu pai, e ia ao campo e se sentava na grande pedra a olhar as ovelhas a comer sossegadamente. Ela tivera somente irmãs, e todas já tinham se casado e se ido, e apenas seu pai restara na casa grande e deserta. Ela pensava nos risos das crianças a correr pela casa, em como os netos povoariam o silêncio vazio, e em como seu pai ficaria feliz por ver a vida de novo correndo, mesmo que não fosse dele a descendência, mesmo que não fosse dele o nome. E ainda assim. Seriam seus os filhos, e eles cuidariam da velhice de seu pai, e de sua própria velhice. Ela que já fora duas vezes casada, ela que sabia o que era dividir a cama com a maldade de er e a humilhação de onan, ela que sabia que tudo que ela precisava de um homem era seu sêmen e nada mais. As palavras ditas ressoaram na distância do campo, e ela mesma se admirou de sua coragem de dizê-las. Eu não preciso de mais um homem na minha vida, repetiu, atentando para a sonoridade de cada palavra. Eu não preciso de um terceiro marido na minha vida. Há anos espero por shela crescer, e ele já está grande. Ele já está em idade de casar, e yehuda não me quer mais por nora. Ele deve ter medo, ele deve achar que estou amaldiçoada, ele deve achar que shela morrerá acaso se case comigo. Como er e como onan. Mas shela não é como os irmãos. Shela não tem a maldade de seus irmãos, shela não tem a malícia de seus irmãos. Shela é um bom menino. Mas eu tampouco quero casar-me com ele. E se yehuda não o quer me dar, que assim seja. Eu não preciso de um homem em minha cama. Eu não preciso de mais um homem em minha cama. Tudo que preciso é de alguém que gere um filho em mim, tudo que preciso é do sêmen da família de yehuda.

E aconteceu de yehuda sair com seu amigo chira para timna, a tosquiar suas ovelhas. E as amigas de tamar correram a lhe contar: teu sogro sobe a timna a tosquiar suas ovelhas. E tamar viu que era chegada a sua hora. Tirou suas roupas pretas, suas roupas de viúva. E buscou entre as suas velhas roupas a mais trabalhada, a mais trançada, aquela em que ela ficava mais bela e mais desejada. E vestiu uma túnica azul, que comprara ainda jovem de uns mercadores que passavam por suas terras, que caía leve sobre seu corpo ainda forte e cobiçado. E buscou um véu e cobriu seu rosto e se foi a postar-se na entrada para as fontes que há no caminho para timna.

E enquanto tamar esperava, pensava no que estava fazendo. Não faço nada de mais. Yehuda ainda me agradecerá, pois que trarei descendência a er, seu primogênito. Seu nome se perpetuará, sua família não desaparecerá da face da terra. Sim, mas é por ardil que ajo. Mas acaso tenho escolha? Que fez yehuda para mim? Deu-me onan, que se recusou a emprenhar-me? Não me deu shela, que sim teria me dado um filho? Por que não posso eu então resolver que quero ter meu filho, por que não posso eu resolver com quem me deito e quem me monta, por que não posso ter o filho sem ter o homem, ter a graça sem ter a dor? Por duas vezes tive em minha cama a quem não me merecia, por duas vezes tive de ser de alguém. Agora alguém será meu, eu recolherei o sêmen e gerarei o corpo, eu e meu corpo, eu e minha vontade. Apenas.

E passou yehuda e a viu, e a tomando por uma prostituta, pois que tinha o rosto coberto, pediu para que se acostasse com ele. E ela, vendo que ele não a reconhecia, perguntou: O que me darás, para que me possuas? E ele disse que lhe enviaria um cabrito de seu rebanho. Ao que ela perguntou o que ele deixaria de penhor, e lhe pediu seu selo, seu cordão e seu cajado. E com ele tamar se deitou.

E tamar então correu a sua casa, com o selo, o cordão e o cajado, e tirou o véu e sua túnica azul, e de novo colocou suas roupas de viúva. E ela sabia, sabia que sua barriga estava cheia, sabia que a vida crescia em suas entranhas, sabia que a vida ia se fazendo, o filho que tanto queria, o filho que seria dela, apenas dela, que viveria em sua casa com ela e seu pai, que cresceria correndo pelo campo e guiando as ovelhas, que encheria a casa de risos e de ardor, de vida e amor. A vida que ela criara e criaria.

E yehuda pediu a seu amigo chira que levasse o cabrito para a prostituta nas fontes do caminho de timna, e que trouxesse de volta o que deixara em penhor. Mas não houve jeito de encontrar a tal prostituta. Ela lá não estava, e chira perguntou a todos na redondeza por uma prostituta, de túnica azul e rosto coberto, mas todos lhe garantiam que na região não havia tal prostituta, não de túnica azul, ou verde, ou amarela, que por aquelas paragens difícil seria mesmo encontrar uma prostituta, que dirá bela e bem formada, que por certo yehuda sonhara.

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