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Prática delicada, autoficção levanta questões éticas de direito à privacidade

Termo foi criado na década de 1970, caiu na boca do povo, entrou e saiu de moda e motivou inúmeras polêmicas e processos

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Luciana Hidalgo,
Especial para O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2016 | 05h00

O termo “autoficção” foi criado pelo professor de literatura francês Serge Doubrovsky na década de 1970, quando ele escrevia um livro sobre experiências pessoais que extrapolavam os limites do autobiográfico. O “eu” saiu encharcado de ficção, ou seja, publicar Fils como um romance tradicional seria uma insolência. Para dar conta do gênero híbrido, ele inventou então um neologismo prêt-à-porter: “autofiction”.

Nas décadas seguintes, a palavra caiu na boca do povo, entrou na moda, saiu da moda e motivou inúmeras polêmicas no estudo da teoria da literatura, graças à etimologia eficiente: auto + ficção. De fácil compreensão, tornou-se uma senha para a explosão no mercado editorial de um mundo de intimidades romanescas engavetadas por autores de diversas nacionalidades, como se redimisse o narcisismo na literatura. Era possível enfim assumir o grande “eu” autoral na ficção, deixá-lo transbordar, patinar na desmedida. E não haveria problema algum nisso, já que se tratava de autoficções.

O problema é que, antes de literariamente filtradas, tais questões íntimas são extraídas da chamada “vida real”, ou seja, tendem a ser vaporosas, confusas, caóticas, extraídas dos círculos afetivos dos autores. Não por acaso os coadjuvantes dos romances autoficcionais são, em geral, pais, mães, filhos ou amantes dos escritores. E, quando o autor que narra a história é ao mesmo tempo protagonista, acaba expondo o “eu” e os outros, seja ao dar nomes reais aos seus personagens ou ao sugerir publicamente que retrata pessoas com quem convive(u).

O direito que o autor tem de contar a sua vida num livro é o mesmo que pais, mães, filhos e amantes têm de achar que sua privacidade foi violada. Afinal, o eu não é um elemento absoluto e sim relativo, pensado, exposto a partir da relação com o outro. Por isso algumas autoficções trazem um tom de acerto de contas, revanche ou vingança.

Se isso afeta a qualidade literária ou não, é assunto para a crítica, para o leitor, para a posteridade. Mas trata-se, sem dúvida, de prática delicada, que levanta a questão da ética na autoficção, não no sentido de um moralismo, mas do direito à privacidade. E, como era de se esperar, a polêmica acabaria transcendendo o foro íntimo: na França, autoficcionistas são levados aos tribunais como réus em processos de parentes.

O caso mais conhecido é o de Camille Laurens, que narrou detalhes de seu divórcio em L’Amour, Roman (2003) e até deixou o nome do ex-marido (Yves) no texto. Ele a processou, mas perdeu. No entendimento do juiz, a palavra “ficção” acrescentada ao caráter autobiográfico da narrativa bastou para esclarecer que a autora misturava dados reais e ficcionais. Ainda assim, na segunda tiragem da obra, a editora optou por apagar o nome de Yves do personagem, restando-lhe responder à ofensa no terreno do literário: ele depois escreveu um romance com a sua versão do divórcio.

Não há como negar que, num mundo castigado pelo culto à celebridade, um livro baseado na vida do autor arrebata mídia significativa. Esse viés de escândalo ajuda a vender, mas pode influenciar a leitura do texto em si. Em termos estéticos, é preciso que a autoficção apresente qualidade literária suficiente para diluir o tom lavagem-de-roupa-suja. O mais importante, contudo, já aconteceu: o espaço do “eu” na literatura se alargou. E isso porque, em tempos tão fluidos, só uma coisa é certa: “verdade” e “ficção” são conceitos cada vez mais promíscuos.

Luciana Hidalgo é doutora em literatura comparada (Uerj), com pós-doutorado na Université Paris 3/Sorbonne Nouvelle sobre autoficção. É autora da biografia 'Arthur Bispo do Rosario - O Senhor do Labirinto' (Rocco/Prêmio Jabuti 1997), do ensaio 'Literatura da Urgência' (Annablume/Prêmio Jabuti 2009) e do romance 'O Passeador' (Rocco/Prêmio Funarte de Criação Literária 2011)

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