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Poeta Geoffrey Hill morre aos 84 anos

Ele era dono de um assombroso conhecimento técnico, que o situa em uma tradição que vai de Chaucer a Ezra Pound

Rodrigo Petronio - ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

01 Julho 2016 | 21h00

Quando da publicação de Collected Critical Writings, seus ensaios reunidos, e de Broken Hierarchies, uma seleção de sua poesia de 1952 a 2012, Geoffrey Hill foi celebrado por parte da crítica de língua inglesa como “maior poeta vivo”, entre outras designações elevadas. Harold Bloom referia-se a ele como um dos mais expressivos poetas em atividade na Inglaterra. Morto no último dia 30 de junho, Hill alcançou um objetivo almejado por muitos poetas do século 20: uma síntese perfeita entre a escrita da poesia e a reflexão sobre a poesia. Nascido em Bromsgrove, Worcestershire, Inglaterra, Hill desenvolveu passo a passo essa dupla vocação de poeta e ensaísta, desde que ingressara na faculdade de Letras da Universidade de Oxford.

Em 1954, assume o cargo de professor de Literatura Inglesa na Universidade de Leeds. Os primeiros poemas são reunidos cinco anos depois, no volume For The Unfallen. Começa então uma longa trajetória como professor de Literatura, que vai perfazer quase cinco décadas de docência: passa pelas universidades de Bristol, Cambridge, Boston e retorna, por fim, a Cambridge, em 2006. Em 2010, assume a prestigiosa cadeira de professor de Poesia da Universidade de Oxford, sucedendo Christopher Ricks. 

Ainda praticamente desconhecida no Brasil, a obra de Hill se restringe a pequenos círculos. As primeiras traduções esparsas foram feitas pelo poeta Bruno Tolentino, entusiasta de sua obra. Seguiram-se o estudo e a publicação, em revistas especializadas, de alguns poemas selecionados pelo tradutor Pedro Sette-Câmara. Atualmente, o crítico literário e tradutor Nelson Schuchmacher Endebo verte ao português um conjunto de poemas. 

Uma das maiores dificuldades de abordar a poesia de Hill diz respeito à sua variedade formal. Polirritmia, polimetria, versos brancos e forma fixas se alternam ao longo de sua obra. Para Endebo, Hill é “portador de um assombroso conhecimento técnico” da arte da poesia, conhecimento que o situa em uma “tradição que vai de Chaucer a Ezra Pound”. Contudo, diferente do que se crê, mesmo utilizando formas fixas, a prosódia e a dicção de seus poemas se mantêm sempre nas proximidades da fala cotidiana, como bem observou o poeta irlandês Seamus Heaney.

Herdeiro da alta modernidade, pode-se dizer que a obra de Hill é uma variação em torno de uma conhecida frase-motivo de Joyce: “A história é um pesadelo do qual pretendo despertar”. Ao exercitar em seus poemas diversas máscaras dramáticas (dramatis personae), Hill fora capaz de conceber a história como drama humano. 

Seja ao reviver em versos a agonia do monarca anglo-saxão Offa de Mércia (757-796), seja ao renegar a devastação da língua levada a cabo pelos tiranos do século 20, a poesia se sustenta como a grande reserva da linguagem. A matriz de todas as possibilidades do dizer. Por outro lado, como cristão, para Hill possivelmente apenas um elo entre poesia e graça poderia despertá-lo desse pesadelo, rumo a uma dimensão anagógica, como diria Northrop Frye, onde tempos e espaços se embaralham, transfigurados. Talvez seja essa a dimensão onde Hill repousa neste exato momento. 

* RODRIGO PETRONIO É ESCRITOR E FILÓSOFO, PROFESSOR DA FAAP E AUTOR DE DIVERSAS OBRAS. MINISTRA CURSOS LIVRES DE ESCRITA CRIATIVA E FILOSOFIA

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