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Paulo Scott traz em seu novo livro o paradoxo de 'viver de literatura'

- Atualizado: 12 Fevereiro 2016 | 23h 43

Personagem central do romance ganha prêmio como escritor

O Ano Em Que Vivi de Literatura é um livro que encanta o leitor a partir de seu título. O achado – irônico – que dá nome ao romance do gaúcho Paulo Scott tem o mérito de produzir curiosidade com o paradoxo de “viver de literatura”. Ao longo da narrativa, percebe-se que os termos “viver” e “literatura” vão sendo matizados e relativizados, até o ponto em que já se tiver percebido que Graciliano, o escritor que protagoniza a obra, mal vive e mal escreve.

“Viver de literatura”, no caso do livro de Scott, é dilapidar, ao longo de um ano, um prestigioso e polpudo prêmio literário (de R$ 300 mil) alcançado com um pequeno romance, publicado por uma editora menor, à revelia do editor da editora comercial com a qual Graciliano tem contrato. Obtido o prêmio e de posse do dinheiro, o protagonista gaúcho, de cerca de 40 anos de idade, solteiro, sem filhos, tem a possibilidade de realizar o sonho de muitos escritores brasileiros: ficar um ano livre de pressões econômicas e disponível para se dedicar a seu ofício. Graciliano vende o carro e um imóvel no Rio Grande do Sul, para comprar um apartamento em Botafogo, no Rio de Janeiro, onde se estabelecerá. Paulo Scott, portanto, enfrenta-se com seu tempo, e cria, de modo bastante verossímil, o universo de um artista brasileiro ainda numa era de prosperidade econômica – o romance se passa em 2011 – diante de seu métier.

Scott cria um universo de modo verossímil
Scott cria um universo de modo verossímil

Esse escritor, Graciliano, que ao longo de todo um ano vive à margem da sociedade dita produtiva, o que tem a nos mostrar sobre ela? Quais agruras o herói de nosso tempo revelará? Vejamos: ex-professor universitário de História, Graciliano, de posse de seu capital, entrega-se à boemia e a pequenas viagens decididas por impulso, a bares e festas. É curiosíssimo como ao longo das 251 páginas que compõem o romance, Graciliano, não lê um só livro e pouco escreve. Por outro lado, é ativo nos bares e, principalmente, no Facebook, onde alimenta sua persona de escritor outsider, através de poemas e frases de efeito, depois de cujas publicações, tal qual criança ansiosa, aguarda curioso a repercussão. Assim conhece mulheres, que lhe rendem encontros sexuais, narrados com recursos da literatura pornográfica.

As peripécias sexuais do protagonista se intercalam com relações familiares ou amorosas de sua etapa gaúcha, viagens decididas sempre à última hora, reencontros com a família, a ex-noiva, os ex-colegas etc. E, entre as imagens do fauno gaúcho e do jovem professor emigrado, mostra-se ao leitor um homem imaturo e hedonista. Assim o vemos sendo achincalhado pelo editor, pelo pai, por leitoras, pela secretária contratada pelo editor para fazê-lo escrever, por alguma parceira. A cena eloquente que ilustra esta derrocada surge na página 180 quando, à maneira de uma duplicação da tela de seu computador, sozinho, Graciliano masturba-se diante do espelho.

Paulo Scott logra dessacralizar a figura do escritor marginal, que se mostra, em seu romance, com tintas de qualquer subcelebridade, e possibilita que nos coloquemos também uma incômoda pergunta: em que medida se acredita ainda que haja alguma verdade na ficção que é ser escritor? No prestígio dado por uma matéria num caderno literário, num prêmio, numa vernissage?

O ANO EM QUE VIVI DE LITERATURA

Autor: Paulo Scott

Editora: Foz (256 págs.;R$ 39,90)

* WILSON ALVES-BEZERRA É PROFESSOR DE LITERATURA NA UFSCAR E AUTOR DE 'VERTIGENS' (EDITORA ILUMINURAS)

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