Alisa Connan
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Paula Hawkins: 'Há muitos jeitos de tentar silenciar uma mulher, reprimi-la'

Autora do best-seller 'A Garota no Trem' lança agora 'Em Águas Profundas' e fala sobre seu ofício, memória e feminismo

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

17 Junho 2017 | 07h00

Depois de um fenômeno como A Garota no Trem, a pressão foi grande. Mas Paula Hawkins, ex-jornalista da área econômica, não se intimidou pelo sucesso de seu primeiro thriller, que soma 20 milhões de exemplares vendidos, e lança agora Em Águas Sombrias – suspense com mais de 10 narradores sobre a relação entre duas irmãs e sobre mulheres que morrem no Poço dos Afogamentos, numa pacata cidade do interior da Inglaterra. Os direitos para o cinema já foram vendidos e para garantir que o resultado seja melhor que o de A Garota no Trem, ela será consultora da produção.

 

Paula Hawkins, que virá ao Brasil para a Bienal do Livro do Rio (31/8 a 10/9), falou ao Estado, por telefone, de Londres. Confira trechos da conversa.

 

O que procurava no livro novo?

Comecei com a ideia de escrever sobre essas duas irmãs, que são o coração do livro, e relação muito fraturada entre elas desde que eram adolescentes - e sobre a qual elas têm lembranças muito diferentes. Eu estava interessada no fato de que, mesmo sendo membros da mesma família, as pessoas podem ter visões muito diferentes sobre a história de suas vidas. Comecei com isso e ampliei: uma família como uma comunidade, uma cidade. Uma das coisas que quis introduzir foi a água. Elas são dividas por muitas coisas, e uma delas é a água. Nel ama a água. Jules tem medo dela. Fui criando um grande número de personagens e histórias, e mistérios começaram a surgir na minha mente sobre o que estava acontecendo naquela cidade.

Alguma história pessoal nesse sentido?

Nada tão dramático quanto no livro, mas em muitas ocasiões eu me lembrei de coisas e conversei com minha mãe sobre elas, perguntei detalhes, e ouvi que aquilo não tinha acontecido daquele jeito, ou que eu não estava lá no dia, que só tinha visto uma fotografia, que eu não poderia me lembrar de determinada pessoa porque ela morreu quando eu tinha um ano. Às vezes temos certeza de que lembramos de uma coisa, mas é a história que contamos a nós mesmos, ou a história que alguém nos conta, que se tornou uma verdade, mas que não é. Isso é fascinante. Não que importe se eu estava na praia naquele dia. Mas para o livro pensei: e se importasse, e se isso foi fundamental na formação de alguém? E se você descobre, adulto, que a história que você conta não é verdadeira?

Por outro lado, a ficção pode ajudar a preencher alguns brancos da memória, a reconstruir nossa história.

Exatamente. Literatura tem a ver com contar história, e temos que dar um jeito caso não nos lembremos de alguma coisa. Mas uma coisa é certa: devemos estar abertos à ideia de que nosso ponto de vista não é o único e que há muitas e diferentes interpretações da nossa vida em nossa família. 

Neste livro, você fala sobre infância e adolescência. Por quê?

O evento que afasta Nel e Jules ocorre quando elas são adolescentes. Temos adolescentes no passado e no presente. Essa é uma fase muito importante para nós. É a travessia entre a infância e a vida adulta. É confuso, excitante, é quando formamos opiniões muito fortes sobre a pessoa que somos, sobre as pessoas de nossa família.  E é confuso porque nosso corpo está mudando, o que nós representamos no mundo está mudando. Especialmente as meninas percebem que as pessoas olham para seus corpos de uma maneira diferente. Uma menina é poderosa, mas ela ainda não sabe como usar seu poder. Quando olhamos para Jules, por exemplo, vemos que ela foi vítima de uma coisa que ela nem se atreve dizer o nome porque ela estava confusa com relação ao que aconteceu com ela. É uma fase muito importante na vida de uma pessoa para aparecer numa ficção. 

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Quem são essas mulheres sobre quem você escreve?

A vida das mulheres me interessa, assim como suas lutas, os desafios que enfrentam, a forma como a sociedade as vê, como uma mulher vê outra mulher. Nesse livro falo muito sobre mulheres problemáticas, mas qualquer mulher pode ter problemas. Aos homens é dado o direito de viver em paz, mas a vida da mulher é analisada, criticada de um jeito particular pela mídia, pela sociedade. Dizem como ela deve se vestir, como deve falar (não fale alto, não seja agressiva, não seja histérica e louca). Todas essas formas de colocar mulheres em caixas e defini-las. E quem não se encaixa vira problemática. Há muitos e diferentes jeitos de tentar silenciar uma mulher, reprimi-la. Eu quis mostrar isso nesse livro. 

Você acha que livros como os seus e outros thrillers psicológicos podem ajudar na discussão de questões como a violência doméstica?

Ficção é entretenimento, mas ela também tem o papel importante de levantar a discussão sobre um assunto que enfrentamos enquanto sociedade. Pode ser a violência doméstica, pode ser a imigração, o racismo. Explorar essas questões em uma ficção é mais interessante porque nos permite sentir empatia por pessoas que vivem vidas muito diferentes das nossas e ver isso de um outro ponto de vista. Ler isso num livro de entretenimento é bom, não parece que estamos numa palestra. Por isso acho que a ficção tem um papel importante.

Acredita que um escritor deve levantar questões em suas obras? Você é comprometida com alguma causa?

Sou feminista e, claro, esses assuntos aparecem na minha literatura. Mas não é deliberado, não sento e digo que vou escrever um livro sobre feminismo ou mostrar que sou feminista. Quero contar uma história, e minha visão política vai aparecer de alguma forma.

A maioria dos thrillers domésticos tem mulheres como protagonistas. Mulheres que não se colocam como vítimas indefesas, mas que se apresentam como parte importante numa investigação, ou num crime quase perfeito.

Às vezes a mulher é vítima, claro, mas o que é interessante no noir doméstico é que elas também são as pessoas que estão investigando o crime ou reagindo a ele - por exemplo, procurando vingança. Eles mostram mulheres em diferentes papéis. Era uma tendência no passado que a mulher fosse sempre o corpo morto na primeira página, mas os thrillers domésticos estão lidando com a vida de mulheres de uma forma diversa, levantando questões caras a elas de um jeito muito sério. Vemos mulheres como mães, filhas, irmãs, amantes, esposas. E também como vítimas ou investigando e reagindo a um crime. Isso é o que é interessante no thriller doméstico.

E entre seus leitores, há mais mulheres. Acha que ele tipo de livro desperta a atenção de mulheres diferentemente dos homens?

Tenho mais leitoras, sim. As mulheres leem mais ficção, e mais romances policiais, que os homens. Desde cedo somos ensinadas a olharmos para nós como vítimas potenciais. Aprendemos o que devemos saber e fazer para evitar sermos vítimas de um crime. Não acredito que ensinem coisas assim para homens, que digam: não beba demais, não pegue táxi, não volte andando para casa, não use roupa curta. Talvez a gente tenha uma relação diferente com esses livros porque nos vemos na pele de diferentes personagens e isso é importante.

Seus dois livros são narrados com base em múltiplos olhares. Por quê?

Quando comecei, acho que tinha três pontos de vista na minha cabeça, talvez quatro. Mas conforme eu avançava, percebi que todas as pessoas dessa comunidade tinham um segredo, algo a esconder. Pensei que o leitor precisava ouvir a história do ponto de vista de todos, porque todos tinham algo a dizer e a esconder. E a única forma de o leitor descobrir isso era ouvindo suas vozes. Não digo que eu farei isso de novo. Foi experimental e um tanto ambicioso. Mas me pareceu certo para esse tipo particular de história.

 

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