Mario Miranda/Divulgação
Mario Miranda/Divulgação

'Obra Completa' do escritor Raduan Nassar interroga o Brasil

Assim como outros escritos, o livro questiona fundamentos da cultura e identidade nacionais

Wilson Alves-Bezerra, Especial para O Estado

24 Dezembro 2016 | 04h00

A luxuosa edição de capa dura com mais de 450 páginas, que reúne escritos diversos do paulista de Pindorama Raduan Nassar, produzidos entre 1958 e 1981, sob o título definitivo de Obra Completa, coloca ao leitor a seguinte pergunta: quando e como se completa a obra de um escritor? O que define que a escritura de alguém se completou? Muitas vezes, o uso do plural – obras completas – e sua publicação em diversos volumes deixa em aberto a possibilidade de que mais um livro à série possa levar adiante a obra e adiar, portanto, sua completude. Entretanto, a brevidade dos contos e romances de Raduan Nassar, publicados ao longo dos anos 1970, e seu mutismo literário desde então, parecem exigir dos editores, por um lado, um volume único e, por outro, a percepção de que sua obra teria chegado ao fim.

O prêmio Camões, concedido a Raduan Nassar em maio deste ano, a inclusão de seu nome na lista dos finalistas do MAN Booker International Prize, pela tradução ao inglês de Lavoura Arcaica, e as prometidas traduções para diversas outras línguas, parecem indicar, mais que a conclusão de uma obra, sua abertura a cada vez mais leitores. O que parece evidente é que, a despeito do silêncio literário de Raduan Nassar, seus editores mantêm a lavoura editorial em funcionamento, garantindo-lhe a existência internacional e a circulação de seus livros. Parece existir a confiança de que não é preciso que Raduan escreva mais nenhuma linha, para que sua obra se torne cada vez mais relevante. Daí, portanto, advém a noção de completude. 

O leitor que se aventurar ao longo das quase 500 páginas da Obra Completa vai se deparar, inicialmente, com o intenso e perturbador romance Lavoura Arcaica (1975), cujo projeto é exposto em nota do próprio escritor “o Autor partiu da remota parábola do filho pródigo, invertendo-a” (pág. 199). Ora, todos os escritos de Raduan parecem ecoar tal proposta: fazer frente ao patriarcado retrógrado que nos constitui como nação. Assim, na Lavoura, a coesão do lar ancestral e os sermões moralistas do pai são postos abaixo, insidiosamente, pelas palavras do filho André, com suas perturbações e seu discurso desarticulador, com o qual mostra, finalmente, que todo diálogo é uma miragem: “Não acredito na discussão dos meus problemas, não acredito mais em troca de pontos de vista, estou convencido, pai, de que uma planta nunca enxerga a outra”. (pág. 164). O recurso ao incesto como questionador dos fundamentos da cultura, insere o romance na série de outras obras fundamentais do século 20 brasileiro, como Álbum de Família, de Nelson Rodrigues e Cartas de Um Sedutor, de Hilda Hilst.

O texto seguinte, Um Copo de Cólera (1978), tem um acabamento formal menos complexo, aproximando-se mais da novela que do romance, dada a simplicidade, a intensidade e a brevidade da obra. A narrativa começa como uma embriagante relação erótica, narrada da perspectiva do homem; segue-se a ela um desentendimento, na manhã seguinte, entre o mesmo casal, que tem como disparador um ataque de saúvas na plantação e o modo como o narrador trata os funcionários de sua propriedade. No bate-boca que se segue ao coito se ouve em sua plenitude a voz da mulher num duelo verbal que durará as demais páginas do livro; mas não apenas, ouvem-se também os conflitos da sociedade contemporânea: a luta de classes, as possibilidades do diálogo, a negociação da diferença, enfim, com frases de efeito que nos soam atuais, como: “Não há nada que esteja mais em moda hoje em dia do que ser fascista em nome da razão”. (pág. 263).

O terceiro texto do livro, o conto Menina a Caminho (1972), traz depurado o tratamento do autor ao universo feminino: uma menina caminha por uma cidadezinha. Não sabe se a moleca está flanando como um personagem de Baudelaire ou como uma versão interiorana do homem da multidão de Edgar Allan Poe, o fato é que ao errar pelo “grande deserto dos homens”, o narrador vai nos oferecendo uma série de pequenos quadros, vista pelos olhos infantis da menina. Já nas páginas finais, vai se descortinando diante do leitor uma narração que ele acompanhava, embora não compreendesse, conferindo sentido pleno ao enquadramento, quando, a partir de todo o vivido, a menina explora seu corpo diante do espelho. 

Os demais contos, todos muito breves, são exercícios de estilo, alguns, como Mãozinhas de Seda e outras incursões pela narrativa sugestiva e lacônica de autores como o norte-americano Ernest Hemingway, dentre eles o inédito O Velho (1958), que remete ao projeto narrativo de The Killers. A sexualidade na velhice se apresenta em Hoje de Madrugada, voltando a enfatizar os elementos recorrentes no universo literário de Nassar: o patriarcado repressor da sexualidade e o desejo como elemento desestabilizador.

O livro se fecha com o breve ensaio sobre o Brasil, até então só publicado na Alemanha, A Corrente do Esforço Humano (1987), no qual o autor oferece sua versão sobre a viagem das ideias europeias ao Brasil em relação à cultura e à identidade nacional. Instigante pensar na inclusão deste texto no volume, pois é o único momento em que a voz do intelectual se coloca em primeiro plano sem a interveniência do discurso literário, como que a ecoar os cada vez mais frequentes discursos e gestos públicos de Raduan Nassar: desde a doação de sua fazenda Lagoa do Sino ao Estado para abrigar um câmpus da Universidade Federal de São Carlos, até suas aparições públicas em defesa da democracia no Brasil. 

O leitor termina a Obra Completa com a noção de uma completude contingente: seria possível acrescentar ou retirar textos. Mas com o conjunto que nos é apresentado, fica clara a existência de um projeto literário de questionamento a um patriarcado rural retrógrado; em tal projeto a presença feminina é fundamental. Completa ou não, a edição das Obras de Raduan Nassar é necessária para um Brasil que parece insistir, à maneira do pai da Lavoura Arcaica, em permanecer surdo e afirmar: “Não quero acreditar no pouco que te entendo, meu filho”. (pág. 166)

* É PROFESSOR DA UFSCAR E  AUTOR DE O PAU DO BRASIL (EDITORA URUTAU)

Obra Completa

Autor: Raduan Nassar 

Editora: Companhia das Letras (462 págs., R$ 74.90)

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