Jorge Guerrero
Jorge Guerrero

O último amor de Federico, um texto inédito de Neruda sobre García Lorca

Livro de memórias de Pablo Neruda chega às prateleiras em edição ampliada e texto inédito sobre homoafetividade de poeta espanhol

EFE

14 Novembro 2017 | 18h51

Confesso que Vivi, as memórias nas quais Pablo Neruda trabalhou até pouco antes de sua morte, em 1973, foi publicado sem alguns dos escritos do prêmio Nobel chileno, alguns textos inéditos, entre eles um sobre Federico García Lorca, recuperados em uma edição ampliada.

Publicada pela editora espanhola Seix Barral, a edição ampliada de Confesso que Vivi foi colocada à venda nesta semana e contém o texto “O último amor de Federico”, além de um álbum fotográfico e a reprodução em fac simile de vários manuscritos do poeta.

Estas memórias foram publicadas como parte da celebração dos 70 anos de Neruda, em 1974, lembra Darío Oses no prólogo desta nova edição, mas sua morte, precipitada pelo golpe militar no Chile, foi no dia 23 de setembro de 1973, razão pela qual o livro foi lançado como obra póstuma.

Em uma “cuidadosa” revisão dos arquivos da Fundação Pablo Neruda encontraram-se vários textos relacionados com memórias: o primeiro, de junho de 1973, com anotações manuscritas de Neruda sobre os temas que deveria incluir em “Confesso”, além de duas pastas com escritos autobiográficos inéditos.

Entre eles, explica Oses, um relacionava-se a García Lorca, ao qual acrescentava uma explicação do porquê o texto não seria publicado naquele momento.

“Será que o público está suficientemente livre de preconceitos para aceitar a homossexualidade de Federico, sem menosprezar seu prestígio?” indaga Neruda.

Neste texto que agora vem a público, Neruda lembra como, nas tertúlias das quais participaram, García Lorca sempre esteve acompanhado de um jovem.

Era Rafael Rapín, na realidade Rafael Rodríguez Rapún, que perdeu a vida durante a Guerra Civil espanhola, poucas semanas depois da morte do poeta: “pouco restou do rapaz. Seus ossos e seu sangue se espalharam em fragmentos minúsculos, tonaram-se manchas quase invisíveis, sobre a terra espanhola, que tragava a cada dia milhares de outros mortos anônimos.”

Para Neruda, existe “uma forma obscurantista de tratar da homossexualidade de Federico García Lorca” e que era “a moda espanhola e latino-americana: esconder sequer essa inclinação pessoal de Federico. Há muito, nessa atitude, de respeito pelo poeta assassinado. Mas existe também o tabu sexual, a herança eclesiástica do império e da colonização espanhola, a hipocrisia do século XIX”.

Considerou una cortina de fumaça o fato de atribuírem à “singularidade erótica” de Lorca a possível causa de sua morte que para ele foi um “repugnante” assassinato político.

Além do texto sobre García Lorca, foram encontradas nas pastas textos como La muchacha del regreso que, segundo Oses, “encaixa-se” em uma parte de suas memórias “quase com a mesma precisão da peça que faltava em um quebra cabeças”.

Em Confesso que Vivi, Neruda narra os principais episódios de vida e as circunstâncias que envolveram a criação de poemas e livros mais famosos, além de relembrar das figuras de alguns amigos como Alberti, Miguel Hernández, Éluard, Aragão e sua relação com personagens destacados da política contemporânea.

A Seix Barral editou, além de uma edição comemorativa de A Barcarola, um livro de poemas fundamental na obra de Neruda, como razão do 50º aniversário de sua publicação. A barcarola é uma forma musical que reproduz a cadência dos remos dos gondoleiros de Veneza, um ritmo que Neruda quis imprimir ao livro, publicado em 1967, que representa a plenitude de expressão alcançada por ele na última fase de sua produção literária.

Tradução de Claudia Bozzo

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