Chiara Goia/NYT
Chiara Goia/NYT

'O romance é um meio de contarmos a natureza psicótica dos tempos modernos', diz Arundhati Roy

Nos últimos 20 anos, a escritora indiana que ficou famosa por 'O Deus das Pequenas Coisas' protestou; agora, ela lança sua segunda – e esperada – ficção: 'O Ministério da Felicidade Absoluta'; leia um trecho

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

08 Julho 2017 | 07h00

A imagem de um bebê abandonado numa praça de Nova Délhi durante um protesto foi o que fez a escritora indiana Arundhati Roy sentar e iniciar o processo formal de escrita de seu aguardado segundo romance. 

Roy, para quem não se lembra, foi apresentada 20 anos atrás como a nova sensação literária internacional, uma revelação da literatura indiana, a voz de uma geração. Seu romance de estreia, O Deus das Pequenas Coisas, ganhou o Man Booker Prize em 1997 e ela, primeira escritora indiana a ser agraciada com o prestigioso prêmio, foi lutar por questões que considerava mais urgentes que a construção de uma carreira literária, retirando-se da ficção e virando ativista de causas diversas – da independência da Caxemira ao meio ambiente.

Mas personagens começaram a visitá-la. Ammu e Velutha, do primeiro livro, tiveram mais uma filha. E ela sentiu a necessidade de escrever ficção. 

O Ministério da Felicidade Absoluta, que chega agora às livrarias, foi escrito aos pedaços ao longo de 10 anos. A obra se passa ora em Délhi ora na Caxemira e tem diversos personagens, com destaque para Anjum, nascida Aftab, que é adotada por uma comunidade hijra, de transgêneros, e a arquiteta Tilo. As duas acabam se encontrando na Hospedaria Jannat, construída por Anjum num cemitério pouco usado. 

Roy, 55 anos, falou ao Estado, por telefone, sobre este romance dedicado aos “inconsoláveis”.

Você escreveu um livro de muito sucesso e se afastou da literatura. Quando decidiu voltar à ficção? Houve alguma pressão? 

Depois que escrevi O Deus das Pequenas Coisas, eu disse a mim mesma que não ia me pressionar a nada. A única pressão foi interna porque essa história começou a se formar na minha cabeça, os personagens começaram a me visitar, passaram a viver comigo. Então eu senti que, depois desses 20 anos escrevendo ensaios, o que eu queria dizer não podia ser dito em não ficção. 

Como surgiu essa história?

A história surgiu para mim em pedaços. Ao longo dos anos, escrevi diferentes partes do livro. E um dia eu estava no lugar em que um bebê apareceu na calçada e ninguém sabia o que fazer com ele. Aquilo foi o começo do processo formal de escrita.

O que representou para você escrever esse romance?

Tudo. Para mim, escrever um romance é a coisa mais fascinante e bonita que eu posso fazer na vida. Toda a minha experiência, habilidade e concentração entram no processo. 

O que a ficção pode proporcionar a um escritor?

Tudo. Em ficção, temos que ter uma gama completa de habilidades, sentimentos, estrutura, personagem, diálogo, humor. É o universo. É como andar por uma enorme cidade da Índia.

E como se sente agora que o livro já foi lançado?

(Risos) Eu terminei o livro em setembro, me envolvi muito na edição, e há alguns dias voltei de um tour que durou 23 dias e passou por 20 cidades. Estou cansada. O clima aqui está tão perigoso e, quando você escreve um livro como esse, deve saber o que pode acontecer. Mas está tudo bem, por ora.

Teme alguma represália?

Se você vive na Índia hoje, você deve sentir medo. Ou melhor, deve estar alerta.

Podemos ver no romance muitas das causas que você defende.

Toda ficção é política. Mesmo uma história de amor. O ato de tirar uma coisa, manter outra é um ato político. Mas a história de lugares como a Caxemira só pode ser contada em obras de ficção. Os efeitos psicológicos de 25 anos de ocupação, a vida das pessoas, das mães que perderam seus filhos, dos jovens que nasceram sob o regime… nada disso pode ser dito a não ser numa ficção.

É um romance com muitas vozes. Quais foram os desafios? 

O romance é um meio de contarmos a natureza psicótica dos tempos modernos. Você está sentado com alguém, mas está, ao mesmo tempo, lendo mensagens de texto. Tudo está fragmentado. Na cidade onde vivo, Délhi, são faladas muitas línguas. E como reproduzimos isso num romance? Foi um grande experimento para mim, quase como construir uma cidade. 

Você passou 10 anos com seus personagens e chegou a dizer que Tilo é a filha ficcional de Ammu e Velutha, de 'O Deus das Pequenas Coisas'. Como você se relaciona com eles? Estão sempre em contato?

Sempre, sempre. Mesmo agora. Quando eu viajo, eles vão junto. Até mesmo os malvados (risos). 

E como é viver com eles por tanto tempo?

A única forma de escrever esse romance foi saber que elas são pessoas com quem eu poderia conviver por um longo período, e que são pessoas que eu poderia dividir com o mundo. 

Questões de gênero estão presentes no seu livro, mas você não quis que isso se transformasse num ‘tema’. Por quê? 

Quando uma história é escrita, os transgêneros devem ser incluídos. Não se trata de um tema separado. Eles também vivem na cidade, pertencem à história, têm uma história como todo mundo. Se separamos isso em assuntos, temas, exercícios acadêmicos, a alma se perde. Todos os dias lidamos com castas, gêneros, religiões. Uma das minhas personagens, por exemplo, não tem apenas uma identidade. Ela não é só transgênero. É transgênero e é muçulmana. Ela é presa, mas não é presa porque é trans ou porque é muçulmana. Uma pessoa não tem uma única identidade. A questão política sobre a qual falamos antes é que todos estão incluídos na história. Todos pertencem à sociedade.

O livro é dedicado aos inconsoláveis. Quem são eles?

Quase todos nós. Pessoas expulsas, excluídas – e isso não quer dizer apenas os pobres. Todos nós cuja imaginação e crenças são diferentes.

E como encontrar felicidade num mundo como esse?

As pessoas sábias são aquelas que entendem e celebram os efêmeros momentos de felicidade. 

Não é a melhor época para se viver. Para você, quais são as lutas mais urgentes?

Fazer o homem entender que ele é apenas uma das espécies vivendo neste mundo. As coisas estão dando muito errado com a espécie humana e temos que corrigir isso em tempo. 

Foi por isso que você nunca saiu da Índia?

Eu não posso ir embora. Vivo aqui como uma árvore.

Acredita que sua carreira estaria num outro nível se tivesse ido embora, como tantos outros autores? Você se importa com isso?

Não penso no meu trabalho como uma carreira. Não é sobre mim. É sobre onde vivo, o que vejo ao meu redor, para que vivo, pelo que luto. É sobre os insetos e pássaros com quem converso todos os dias. 

Por que Eduardo Galeano é uma de suas inspirações?

O primeiro livro dele que li foi As Veias Abertas da América Latina, que abriu meus olhos para muitas coisas. Há uma citação em um dos cadernos de Tilo em que ela diz: “Como contar uma história estilhaçada? / Aos poucos se tornando todo mundo. / Não. / Aos poucos se tornando tudo”. Acho que Eduardo Galeano foi um mestre das histórias estilhaçadas.

 

TRECHO

"Ela era a quarta de cinco filhos, nascida numa noite fria de janeiro, à luz de lampião (energia cortada), em Shahjahanabad, a cidade murada de Delhi. Ahlam Baji, a parteira que a trouxera ao mundo e a colocara nos braços da mãe enrolada em dois xales, disse: “É um menino”. Dadas as circunstâncias, seu erro era compreensível.

Com um mês da primeira gravidez, Jahanara Begum e seu marido resolveram que se o bebê fosse menino o chamariam de Aftab. Os três primeiros foram meninas. Estavam esperando seu Aftab havia seis anos. A noite do parto dele foi a mais feliz da vida de Jahanara Begum.

Na manhã seguinte, quando o sol estava alto e o quarto, gostoso e quente, ela desenrolou o pequeno Aftab. Explorou seu corpinho miúdo — olhos nariz cabeça pescoço axilas dedos das mãos dedos dos pés — com prazer saciado, sem pressa. Foi quando descobriu, aninhada debaixo de suas partes de menino, uma pequena, informe, mas inquestionável parte de menina.

É possível uma mãe ficar aterrorizada com o próprio bebê? Jahanara Begum ficou. Sua primeira reação foi sentir o coração apertar e os ossos virarem cinzas. A segunda reação foi dar mais uma olhada para ter certeza de que não se enganara. A terceira reação foi rechaçar aquilo que havia criado enquanto suas entranhas entravam em convulsão e um fino fio de merda escorria por suas pernas. A quarta reação foi considerar a possibilidade de matar a si mesma e à criança. A quinta reação foi pegar o bebê e apertá-lo contra si Enquanto caía numa fenda entre o mundo que conhecia e mundos cuja existência ignorava."

O MINISTÉRIO DA FELICIDADE ABSOLUTA

Autora: Arundhati Roy

Tradução: José Rubens Siqueira

Editora: Companhia das Letras (496 págs.; R$ 64,90)

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