Carlo Allegri/Reuters
Carlo Allegri/Reuters

Novo livro de Sean Penn é exemplo vivo de que uma obra pode ser julgada pela capa

Em 'Bob Honey Who Just Do Stuff', ator faz duras críticas ao presidente Trump

Sonny Bunch, WASHINGTON POST

13 Abril 2018 | 17h37

Eu provavelmente jamais lerei o romance de estreia de Sean Penn, Bob Honey Who Just Do Stuff (Bob Honey, que apenas faz coisas, em tradução livre). Não porque eu tenha alguma animosidade em especial contra Penn, um ator sem dúvida talentoso que, no entanto, de tempos em tempos dá uma de tolo e leva-se muito a sério. Não porque eu me ressinta de seus ataques ao presidente Trump; eu estou bem de acordo com ele. E não porque o livro - descrito pelo crítico do Post, Mark Athitakis como “desleixado em estilo e estrutura”, o “sonho febril de um boomer que acompanha o noticiário, sem que este faça muito sentido, mas não pode, de qualquer forma, conter sua fúria” - dão a impressão de que ele é bem ruim.

+++ Um dos atores mais premiados do mundo, Sean Penn faz 55 anos

Além disso, não consigo me imaginar escolhendo-o apenas por causa da capa. É uma bagunça manchada e gótica de algo. Um rosto embaçado, emoldurado por coisas ininteligíveis e contornos de uma TV, uma casa, uma sereia, uma nuvem em forma de cogumelo e um martelo com vermelho, amarelo, verde e azul espalhados ao acaso. O título é bem nonsense; se reflete ou não um tique estilístico do protagonista é irrelevante para mim, ainda a vir a ser um leitor, ao tentar decidir se isso é algo que vale a pena.

+++ 'O Franco-atirador', com Sean Penn, ganha em densidade por causa da interpretação

Por favor note: eu não estou fazendo nenhum julgamento sobre a qualidade do livro em si. Isso não é de forma alguma uma “crítica literária”. Eu não estou falando como um crítico agora. Estou apenas declarando um fato como um consumidor (relativamente substancial) de livros: eu nunca, jamais, escolheria comprar este livro, baseado na qualidade (ou na falta desta) da capa. Vender a arte é uma arte em si mesma; por que dedicar tempo e dinheiro à arte que não pode levar a sério a parte artística da autoapresentação?

+++ Sean Penn receberá o César, o 'Oscar' do cinema francês

Para certos livros - em geral, “os clássicos” - as capas têm sua importância apenas como algo estético. “Um livro clássico sobreviveu e suportou projetos grandiosos e notórios; carrega seu mundo em seu título e o nome de seu autor. É mais do que a soma de suas capas”, escreve Audrey Niffenegger no prefácio de Cover to Cover, uma coleção de designs de capas muito queridas da Penguin Classics.

+++ Sean Penn filma viagem de jovem solitário em 'Into the Wild'

São muito poucos os livros clássicos, no entanto. Novos livros e as capas que anunciam sua existência nas prateleiras das lojas e nos resultados de pesquisa da Amazon são coisas completamente diferentes. Como observou Paul Buckley, diretor de criação da Penguin Classics, em uma entrevista a Dana Schwartz, a capa de um livro é muitas vezes sua peça mais importante de marketing.

“Os clássicos são uma experiência muito mais agradável do que a nova ficção, o que pode vir a ser um calvário bastante dramático”, disse Buckley. “A capa de um livro é muitas vezes a peça mais forte de marketing que o livro e o autor terão, por isso as tensões podem ser extremamente altas. Novos livros, esta parte da escrita, tudo depende dessa nova capa. A ambientação está certa? A imagem sugere o que acontece no texto? Você contou demais? Você contou muito pouco?

É claro que mesmo os clássicos não estão imunes a uma ocasional capa terrível. Cuidado com o clássico ou pretenso romance clássico que serve como fonte de material para um filme; travestis visuais estão frequentemente em perspectiva. Quem pode esquecer quando O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, trocou brevemente a famosa (*) capa original - um fundo azul-escuro perfurado pelos olhos tristes de uma mulher flutuando sobre lábios franzidos, o rosto acima de uma confusão de luzes da cidade, tudo funcionando como uma metáfora sucinta para a decadência americana e o excesso e o vazio - para a ostentação do poster de Baz Luhrman, todo brilho kitsch e atores dentuços.

Algumas instâncias são menos odiosas. O poster de Onde os Fracos Não Têm Vez, dos irmãos Coen, com um homem emoldurado por um sol nascente atrás dele, imitava o visual da capa de Cormac McCarthy; a maior diferença era a imposição dos olhos de Anton Chigurh, uma atualização moderna e aterrorizante da capa de Gatsby de Francis Cugat. Ainda assim, é uma prática irritante, constrangedora em geral, uma que não acrescenta nada ao fato de a grande maioria dos cartazes de filmes serem atrocidades estéticas. Além disso, você realmente deseja anunciar para seus colegas de metrô que está lendo Me Chame Pelo Seu Nome apenas porque é um filme?

Cheguei ao ponto de comprar uma cópia usada de um livro antes da conexão dele com um filme. Claro, percebo que estou em minoria aqui: o motivo pelo qual você coloca um pôster de filme em uma capa de livro é porque isso vende, porque livros são apenas mais uma mercadoria a ser movida no #Complexo-de-Conteúdo-Industrial.

Porque nós literalmente julgamos se queremos ou não comprar um livro pela sua capa. E por que não deveríamos? É para isso que elas estão lá.

(*) De acordo com a revista Smithsonian, Fitzgerald ficou tão impressionado com a capa que implorou ao editor que guardasse aquela imagem para ele, embora o manuscrito estivesse atrasado, alegando que ele havia “escrito sobre ela no livro”. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.