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Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

26 Julho 2015 | 03h00

É ano de festa para Alice, a famosa personagem do matemático inglês Lewis Carroll (1832-1898) que entrou na toca do coelho e caiu num universo onírico que vem intrigando e encantando gerações e mais gerações ao longo dos últimos 150 anos. 

Alice no País das Maravilhas foi publicado na Inglaterra no final de 1865 e há mais de um século caiu em domínio público. A abundância de edições da obra – em sua versão integral ou recontada –, aliada aos filmes, desenhos, animações e peças, só ajudam a manter o mito vivo e as vendas, dizem as editoras, valem a pena. Só a Zahar, que lançou uma edição de bolso e capa dura em 2010, quando o filme de Tim Burton estreou, já vendeu 150 mil exemplares da obra. É o clássico mais popular da coleção que tem feito muito sucesso entre os jovens. “É uma loucura ver aquelas pessoas com pilhas de clássicos na mão no estande da Bienal”, comenta Mariana Zahar, sócia da editora e colecionadora de Alice.

Antes disso, ela havia publicado, em 2002, uma edição comentada que soma 30 mil exemplares comercializados, e publica agora uma versão comemorativa, com Alice no País das Maravilhas e sua continuação Alice Através do Espelho (1971). A tradução é a mesma premiada de Maria Luiza Borges, mas as ilustrações de Adriana Peliano, presidente da Sociedade Lewis Carroll do Brasil, são novas. “Creio que as colagens que fiz são fruto de anos de amadurecimento como artista, leitora, pesquisadora e uma espécie de Alice, uma ‘especialice’”, conta. Essas colagens foram feitas sobre as ilustrações originais de John Tenniel, presentes em boa parte das edições brasileiras. “Com isso, proponho um diálogo entre a Inglaterra vitoriana e o mundo contemporâneo, assim como um confronto entre Alice e a história da arte por meio de outros artistas que participam dessas colagens”, conclui.

 

A artista Rosângela Rennó também criou sua Alice para a Cosac Naify, que está lançando um box com esses dois volumes de Carroll: Alice Através do Espelho, com o trabalho recente de Rennó, e o outro, de 2009, ilustrado por Luiz Zerbini e traduzido por Nicolau Sevcenko. A experimentação não para por aí. Em 2014, a Globo publicou uma versão ilustrada pela artista japonesa Yayoi Kusama, que criou uma Alice um tanto diferente daquela que está no imaginário de quem cresceu, por exemplo, com a animação da Disney como referência. São novas caras para uma obra que renova, a cada ano, seu público – e tudo muito diferente daquele volume da Companhia Editora Nacional de 1931, um dos primeiros que se tem notícia no País, traduzido e adaptado por Monteiro Lobato e ilustrado por A. L. Bowley.

Outras edições estão chegando ou vão chegar às livrarias até o fim do ano – a obra original foi lançada para o Natal. No prelo da Rafael Copetti Editor está uma adaptação da obra feita por um anônimo na Inglaterra, em 1903, que também já virou clássica por ser mais enxuta, mas ainda assim com todo o nonsense. A tradução é de Dirce Waltrick do Amarante e deve sair em outubro. A Poetisa prevê, para o fim do ano, uma tradução de Alice Através do Espelho, por Cynthia Costa, cujo mestrado foi sobre este título. E para quem quer conhecer outro trabalho de Carroll, a dica é esperar o romance Silvia e Bruno, traduzido por Sérgio Medeiros para a Iluminuras e na programação para 2016. É dele, também, a tradução de Alice no Jardim da Infância, a adaptação do próprio Carroll que ganha agora tradução de Marina Colasanti para a Galerinha.

Dirce e Sérgio são estudiosos também de James Joyce, para quem Carroll foi uma referência. Eles publicam em breve um volume com as cartas trocadas pelo autor e sua benfeitora, Harriet Weaver, e numa de 28 de março de 1928 ele comenta que está lendo a biografia do autor de Alice. Uma nota dos tradutores explica que Carroll e seu livro aparecem frequentemente em Finnegans Wake.

Encantou Joyce e encanta muita gente. Para a psicanalista Diana Corso, autora de Fadas no Divã, Carroll, com Alice, construiu um portal de acesso à lógica do inconsciente. “Ele consegue escrever a história inteira em linguagem onírica e resgata a experiência do sonho de angústia”, conta. Há quem diga que esta não é um conto de fadas, como J. R. R. Tolkien e Bruno Bettelheim, que ela cita, porque Alice não vive num lugar de fantasia – ela acorda do sonho. “Mas um sonho é um lugar mágico, um lugar onde nos acontecem coisas de verdade. Carroll empresta o caráter maravilhoso ao sonho e o sonho empresta o caráter maravilhoso à vida.” Para a psicanalista, Alice, uma das primeiras heroínas da ficção para crianças, é um mito literário e sobrevive porque ainda tem algo a dizer.

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De um passeio de barco nasceu uma das principais personagens de 'Alice'

Alice Liddell, nascida em 1852, inspirou o tímido professor de Oxford a escrever cultuada obra – e viveu até os 82 anos

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

26 Julho 2015 | 03h00

Alice Liddell (1852-1934) era a quarta filha do reverendo Henry Lindell, um dos decanos de Oxford com quem Lewis Carroll convivia. O dia 4 de julho de 1862 marca o início da história do livro que tornaria Alice conhecida, viraria clássico e seria lido por gerações de crianças, adolescentes e adultos ao redor do mundo ano após ano. Foi neste dia que Carroll acompanhou a família do amigo num passeio de barco. Era tímido com os adultos, mas ficava à vontade entre as crianças – e chegou a ser chamado de pedófilo. 

Neste passeio, ele contou uma história aos filhos de Liddell e, como Alice era a personagem principal, ela pediu que ele pusesse no papel. Foi feita então uma edição caseira de Aventuras de Alice no Subterrâneo, da qual Alice só se separaria quando, já viúva, precisou de dinheiro para manter a casa. Ela teve três filhos – os dois garotos morreram na guerra. Aos 80 anos, ela participou das comemorações pelo centenário de Lewis Carroll.

Alice no País das Maravilhas foi publicado no final de 1865, mas o autor e o editor não ficaram satisfeitos. Uma nova edição começou a circular no ano seguinte. Era o começo da trajetória de sucesso do livro, que inspira de matemáticos a psicanalistas, de crianças a adultos. E que serve de matéria-prima para artistas das mais diferentes linguagens e, claro, para desenvolvedores de produtos. Alice, que tem uma legião de fãs mundo afora, já estampou toda a sorte de objetos.

Para a psicanalista Diana Corso, a relação com sua figura tem a ver com o fato de precisarmos do mito para decodificarmos o mundo. “Precisamos ver fora de nós aquilo que está dentro da nossa cabeça. Hoje, traduzimos muito das nossas posses em imagens e objetos. Precisamos dos nossos ícones para nos sentirmos representados por essas histórias que nos tocam”, explica.

Colecionadores de livros encontram nas livrarias mais de uma dezena de títulos. Isso sem contar nos sebos.

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No cinema, tentação de ser fiel ao livro de Lewis Carroll não deu muito certo

Autores como Woody Allen e Chabrol, que usaram 'Alice no País das Maravilhas' apenas como sugestão foram mais bem sucedidos; veja

Luiz Carlos Merten, O Estado de S. Paulo

26 Julho 2015 | 03h00

Existem ecos da Alice de Lewis Carroll em várias outras Alices que têm povoado a tela desde que o cinema existe. As versões que mais se ligam ao livro cultuado – In the Wonderland/No País das Maravilhas –, e se propõem como adaptações, não são as melhores, exceto a animação da Disney de 1951, com direção de Clyde Geronimi.

Puristas vão dizer que o 'Disney touch' de alguma forma dilui as possibilidades de leitura da obra original, propondo simplificações da trama e dos seus múltiplos significados ocultos. Mas Geronimi conta com boas vozes (Kathryn Beaumont, Ed Wynn, Stanley Holloway) e logra dar vivacidade e colorido aos personagens míticos – o Gato Que Ri, a Rainha de Copas, o Chapeleiro Maluco. É mais do que se pode dizer da versão de Tim Burton, de 2010, embora ela se beneficie das participações de Mia Wasikowska, como Alice, e de Helena Bonham Carter, mulher do diretor, como a Rainha de Copas.

Nos últimos anos, Burton tem feito a releitura de clássicos, embora pareça descabido comparar a Alice de Carroll ao Charlie da fábrica de chocolate de Roald Dahl, que ele havia realizado antes (em 2005). Na verdade, ambos representam basicamente o mesmo personagem, que precisa reunir forças internas e externas para fazer frente às desordem do mundo (e, no caso de Alice, salvar o reino). O problema de Burton, que alguns críticos tomam por qualidade, é que já há algum tempo ele substituiu o encanto e a densidade de seus melhores filmes (Edward Mãos de Tesoura e Ed Wood) por uma extravagância visual que mal esconde a superficialidade de seus propósitos.

O roteiro do filme é de Linda Woolwerton, que escreveu A Bela e a Fera na Disney. E surgiu essa Alice de 19 anos, angustiada pela perspectiva de um casamento sem amor e que cai na toca do coelho, esquecendo-se de que já esteve ali. Feérico mas inconsistente, o filme carrega na psicologia (na psicanálise?), contentando-se com soluções fáceis em que o visual se superpõe a qualquer outra coisa.

Em nome do bom gosto – nem o visual é bom –, é melhor passar ao largo da Alice inglesa de William Sterling, de 1972, de uma cantoria tediosa e que desperdiça o ótimo elenco integrado por Ralph Richardson, Peter Sellers, Dudley Moore, Flora Robson e Michael Crawford.

E vamos então em busca das outras Alices. A que não mora mais aqui, de Martin Scorsese, de 1974, não deixa de metaforizar a trajetória da de Carroll por meio da mulher cuja vida vai para o buraco após a morte do marido. Ellen Burstyn, em interpretação vencedora do Oscar, faz uma passagem curiosa, porque o filme começa com ela ainda criança, num visual meio Mágico de Oz e depois vive aventuras em buscas da felicidade, ou da afirmação da identidade, que a confrontam com inesperadas releituras das personagens e situações de Carroll.

Houve também a Alice de Brooke Shields numa fantasia de terror em que ela, garota, é atacada por uma figura mascarada que tenta impedi-la de fazer sua primeira comunhão. O filme é mais o País dos Horrores, com uma humanidade pecadora que transforma a igreja numa sucursal do inferno. A de Woody Allen, com Mia Farrow – Simplesmente Alice –, volta ao maravilhoso por meio do mágico que descortina um universo de sonho para dona de casa insatisfeita.

E, claro, não se pode esquecer a de Claude Chabrol, com ninguém menos que Sylvia Kristel, a Emmanuelle. Em Alice, ou A Última Fuga, de 1977, Sylvia foge do marido que a repugna, mas seu carro quebra e ela é acolhida num castelo. Na manhã seguinte, não encontra ninguém, mas o carro parece OK. Só que Alice/Sylvia não encontra a saída e, ao abandonar o carro, perde-se no jardim misterioso. Ninguém vai dizer que se trata de um grande Chabrol, mas a fotografia de Jean Rabier cria uma delicada e sensual paleta de cores. No centro de tudo, a Alice mais sexy do cinema, Sylvia Kristel desliza na tela. Não dá para desgrudar o olho dela. / LUIZ CARLOS MERTEN  

Trailers e trechos (alguns apenas em inglês):

Alice In Wonderland (Clyde Geronimi, 1951):

As Aventuras de Alice no Mundo das Maravilhas (William Sterling, 1972)

Alice Não Mora Mais Aqui (Martin Scorsese, 1974)

Alice ou A Última Fuga (Claude Chabrol, 1977)

Simplesmente Alice (Woody Allen, 1990)

Alice No País das Maravilhas (Tim Burton, 2010)

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'Alice' comemora um bom 'desaniversário' para o teatro brasileiro

Releituras da obra para os palcos abrem espaço para montagens tão livres e criativas quanto o festejo na mesa de chá

Leandro Nunes , O Estado de S. Paulo

26 Julho 2015 | 03h00

Quando Alice encontrou o Chapeleiro Maluco e a Lebre, ela descobriu uma outra forma de contar o tempo. O longa-metragem da Disney mostrava uma mesa de chá de desaniversário (neologismo criado pelo autor). A explicação era simples – um presente que se ganha quando não é seu aniversário – e lógica – se o ano tem 365 dias e apenas um dia de aniversário, logo, subtrai-se 1 de 365 e terá a quantidade de desaniversários. O jogo maluco de Carroll pode emular as maneiras de se adaptar a obra literária. Ao considerar o livro como o aniversário, o teatro pode, tal como o cinema, ser um desaniversário. “No cinema, por exemplo, existe essa infinitude da obra, você pode assistir em qualquer momento. No teatro, não. O teatro é vida condensada”, conta o ator Beto Militani que interpreta Carroll no espetáculo As Aventuras de Alice no País das Maravilhas do grupo mineiro Giramundo. A peça integra técnicas de stop motion, cinema, e mais 55 bonecos ao lado do ator. 

Para compor seu personagem, ele tomou um caminho inverso e se aproximou mais do Dodgson, o professor de matemática. “Eu aproveitei que nós nos parecemos um pouco fisicamente. Pesquisei como ele andava e como se comportava nas fotos”.

Outra escolha inusitada foi uma mulher interpretar o papel do Chapeleiro Maluco. “A figura ficou bastante andrógina e era muito interessante”, relembra a atriz Patricia Selonk da paranaense Armazém Cia de Teatro. Encenada em 1999, a peça Alice Através do Espelho funcionava como uma caixa composta por cortinas que abriam e fechavam formando salas, jardins e labirintos. “No início, era oferecido um chá misterioso para a plateia e algumas pessoas ficavam em dúvida sobre o que era aquilo. Um tempo depois, os atores perguntavam se o chá estava fazendo efeito”, Explica. “A intenção era que todos pudessem ser como Alice”. 

Embora estejam ensaiando para um novo espetáculo, o grupo mantém o desejo de reingressar ao País das Maravilhas. “O jogo de adentrar esse universo muito doido nos faz sair energizados. Carroll é um prato cheio para o teatro”. / LEANDRO NUNES

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