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Marcos Mendes|Estadão

Nos 20 anos da morte de Caio Fernando Abreu, escritores e amigos relembram o convívio

Tão angustiado, sofrido e suicida, Caio F. morreu em 25 de fevereiro de 1996, aos 47 anos, ‘amando a vida’; leia depoimentos

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Maria Fernanda Rodrigues,
O Estado de S.Paulo

20 Fevereiro 2016 | 05h00

Caio Fernando Abreu, uma figura esguia andando de sobretudo e cachecol pela Paulista numa madrugada de inverno. Caio subindo a Augusta. Na casa de Antonio Candido e num quarto de hotel. No Café Lamas, no Rio. Em viagem literária pela Alemanha. Ao telefone um pouco antes do fim. Caio F. morreu no dia 25 de fevereiro de 1996, aos 47 anos, em Porto Alegre, pouco mais de dois anos após se descobrir portador do HIV. Hoje, 20 anos depois, escritores que conviveram com o autor de Morangos Mofados, que foi também cronista do Caderno 2 e hoje é um dos autores mais populares das redes sociais – e aqui é preciso dizer que basta conhecer sua obra e seu estilo para saber que muitas das frases compartilhadas são erroneamente atribuídas a ele – falam sobre a trajetória de um dos principais autores brasileiros da segunda metade do século passado.

Mais cosmopolita entre os escritores gaúchos, na opinião do conterrâneo Fabrício Carpinejar, Caio abriu uma frente para os autores de seu Estado, até então presos ao romance histórico. “Com ele, ingressamos na temática urbana, no realismo psicológico, na introspecção. Nunca ninguém foi tão catártico e confessional como Caio”, diz o poeta que estreou na literatura pouco depois da morte do autor. “Essa é a literatura em que acredito. É furiosa, passional, inconstante, mas tem a retaguarda da disciplina e da arquitetura. A busca pela simetria – nem que seja a simetria do caos. Sempre foi um artesão que trabalhava e retrabalhava seus contos”, completa.

Mário Prata concorda. “Tudo o que Caio fez foi bom e a principal característica de seu texto é a beleza. É tudo muito limpo, trabalhado. Ele foi um artesão da frase e do raciocínio.” Os dois já se conheciam antes de se retirarem em um hotel para se concentrarem na escrita da sinopse de uma novela da Manchete. Ali, ficaram mais próximos. Dali, foram juntos à casa de Antonio Candido pedir conselhos. “Caio foi uma pessoa à frente de seu tempo. Era muito bom – mas podia ser mau também. Tinha aquela cara satânica, um rosto que poderia ser de um anjo ou do demônio. Mas quem o conheceu sabe que ele era muito mais anjo”, diz. No fim da vida, Caio ainda escrevia para Mário, que destaca o humor do amigo mesmo com a proximidade da morte. Numa delas, disse seguir cuidando do jardim, ora de Havaianas, ora de salto alto.

Nélida Piñon, responsável por apresentar Caio Fernando à musa Clarice Lispector, lembra com carinho o amigo morto precocemente. “Nós nos gostávamos muito e nos frequentávamos. Eu fazia comidinha para ele – tudo muito simples, um espaguete, o que eu tivesse. Viajamos juntos pelo Rio, pela Alemanha. Ele era dramático, sofrido, angustiado, mas também lúdico. Nós nos divertíamos muito”, conta. E completa: “Caio semeou inquietações artísticas. Ele não era conservador na escrita nem no pensamento, e isso é um mérito extraordinário no nosso tempo”.

Marcelino Freire estava dentro do ônibus quando viu Caio Fernando Abreu andando pela Augusta. “Minha vontade era ter saltado do ônibus. Meu coração, de alguma forma, saltou do veículo em movimento”, relembra. Marcelino nunca conheceu pessoalmente o autor de Morangos Mofados, que leu ainda no Recife, e por quem passou a nutrir “respeito e paixão”. “Caio é um autor que inicia leitores. Literariamente e amorosamente. Eu aprendi a amar com Caio. Encontrei nele um companheiro de solidão. E um parceiro da dúvida. Acho que esse é o segredo de seu sucesso. Ele vira o nosso irmão mais velho, o nosso amigo, à cabeceira, mais querido.” Em novembro, Marcelino Freire presta sua homenagem ao ídolo durante a Balada Literária. “A obra de Caio é cada vez mais atual e relevante, sobretudo em época tão careta, coxinha e homofóbica.”

A jornalista Paula Dip, autora de Para Sempre Teu, Caio F. (Record), em que reúne sua correspondência com o amigo de longa data e depoimentos de pessoas que conviveram com ele, também acredita na atualidade desta obra. “Não porque sua literatura tenha seguido determinadas regras de composição poética, dramatúrgica ou literária, mas porque tocou ‘no mais fundo de todos nós’, como ele mesmo dizia”, explica. Uma versão mais enxuta de seu livro está no prelo, e para o aniversário do autor, em setembro, ela quer lançar, também pela Record, um volume com as cartas enviadas por Caio a Hilda Hilst entre 1960 e 1990. 

Para Marcelo Rubens Paiva, Caio sobrevive porque é bom. “E é profundo, toca a alma. Não é um contador de histórias; é um dissecador de problemas. É um narrador de dramas e insatisfações pessoais, de sentimentos reprimidos, e o leitor gosta porque compartilha isso. Ele é o nosso escritor proustiano”, diz. Marcelo e Caio eram amigos da noite, numa época em que “São Paulo era um ovo”. É dele a imagem do escritor andando na gélida Paulista, “sempre sério, se lamentando”. Eles se encontrariam profissionalmente também. Caio trabalhava na Brasiliense, editora que publicou Feliz Ano Velho, de Rubens Paiva, e salvou a obra que estava sendo mutilada pelas revisoras por causa da linguagem coloquial usada, ele relembra. 

Luiz Schwarcz, publisher do Grupo Companhia das Letras, que já editou a obra de Caio Fernando Abreu (hoje ele está no catálogo da Nova Fronteira), também se lembra do autor dos tempos da Brasiliense, que o publicava e onde os dois trabalharam. “Ele tinha uma personalidade oscilante. Às vezes muito para baixo, às vezes muito para cima. Caio parecia flutuar sobre a realidade com aquela echarpe, seu tom de voz toda cheia de contradições.” Sobre sua contribuição, Schwarcz diz: “Ele foi um porta-voz de sentimentos, sensações e bandeiras que vão permanecer para outras gerações”.

O poeta Armando Freitas Filho destaca que além de ser o escritor notável que era, Caio era muito generoso na análise da obra de outros escritores de sua geração. “Devo muito o meu primeiro Jabuti a uma resenha que ele escreveu. E para Ana Cristina Cesar, ele foi vital. A edição de A Teus Pés pela Brasiliense, por indicação dele, ampliou absolutamente a recepção de sua poesia, antes restrita a seu círculo de amigos.” Os dois jantaram juntos no Lamas certa noite.

O crítico e escritor Silviano Santiago também ressalta esse outro lado de Caio Fernando Abreu – ele foi redator do Estado, assinou a coluna Antena, no Caderno 2 e atuou em outros veículos. “Bela atitude num Brasil onde os bons escritores não descobrem a tempo que podem aperfeiçoar o próprio instrumento de trabalho sendo críticos, isto é, lendo, comentando e apreciando o trabalho alheio. Figura desconcertante e coração generoso”, comenta.

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Não deu tempo de aperfeiçoar mais sua literatura. Caio, autor ainda de Onde Andará Dulce Veiga? e O Ovo Apunhalado, entre outros títulos e peças publicados em vida e antologias organizadas postumamente, morreu jovem. Ignácio de Loyola Brandão foi companheiro de Caio em sua última viagem literária, para a Alemanha, em 1994. Todos aplaudiam de pé o escritor que estava se despedindo. Durante o café da manhã numa pequena pensão em Hamburgo, próxima a um lago onde cisnes nadavam mansamente, Loyola perguntou sobre a morte e ouviu como resposta: “Vamos todos morrer, mas quem assegura que você não vai morrer antes? É tudo questão de tempo. Estou vivo e essa paisagem que olho tem uma intensidade que você nunca conhecerá. O que vejo não é o mesmo que você vê”. “No mesmo ano em que ele morreu, operei um aneurisma na artéria cerebral direita. Vivi e hoje conheço a intensidade das paisagens que Caio vislumbrava”, comenta o escritor e cronista do Caderno 2 – como Caio e como Marcelo Rubens Paiva. 

Mas foi Lya Luft, amiga desde a época em que o autor ainda vivia em Porto Alegre, umas das últimas a falar com ele. “Falamos ao telefone dias antes de sua morte a pedido dele. Quis falar sobre a morte”, ela relembra. “E um pouco antes dessa última hospitalização, estávamos jantando com um amigo comum e, de repente, ele pegou minha mão e disse com simplicidade: ‘Eu que sempre fui um suicida, agora que vou morrer, como eu amo a vida’.” Para Lia, o amigo representou um marco na “literatura desesperada, sofrida, irônica e sombria, e brilhantemente corajosa”.

Coragem, também, para enfrentar a aids. “Convivemos pouco, mas eu o admirava muito. Acompanhei sua história, a reta final. Ele foi muito corajoso”, diz o cantor Ney Matogrosso.

Para a musa Lygia Fagundes Telles, que o apelidou de ‘escritor da paixão’, ele foi “um querido amigo e uma pessoa linda”.

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