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No livro 'Alfred Hitchcock: a Brief Life', o medo impulsiona o mestre do suspense

Livro dá detalhes sobre a trajetória do mestre do suspense

Michiko Kakutani, The New York Times

26 Outubro 2016 | 08h30

“Sorte é tudo”, disse uma vez Alfred Hitchcock. “E minha sorte na vida foi ser um apavorado, um covarde, viver com medo, porque um herói não faz um bom filme de suspense.”

Hitchcock era um poço de ansiedades. Garoto gordo e solitário, vivia com medo da autoridade personificada - fosse na forma de policiais, padres ou professores. Tinha medo de fracassar. Tinha fobia de ovos. Mas usou sua imaginação visual e sua técnica de mestre para transformar essas ansiedades em filmes que mudariam a história do cinema.

Gêneros cinematográficos inteiros são devedores da obra de Hitchcock - incluindo thrillers modernos (como Tubarão e todos os filmes de James Bond), filmes de horror e de psicopatas assassinos, disaster movies e dramas de suspense psicológico. Seu uso característico de montagem, angulação de câmera e imagens simbólicas seria copiado, consciente ou inconscientemente, por gerações de cineastas.

Mais de um século após seu nascimento, Hitchcock continua nosso contemporâneo: o mundo de ameaças que ele conjurou dá forma a nossos medos mais profundos, mais existenciais. Medos (especialmente atuais) de um universo irracional, do mal em cada esquina, de ter a vida ceifada a qualquer momento por fatos imponderáveis - no caso de seus filmes, por um erro de identificação (Intriga Internacional), por bandos de pássaros assassinos (Os Pássaros), ou pela chegada inesperada de um visitante maligno (A Sombra de uma Dúvida).

Por todas essas razões, continuam surgindo livros sobre “o mestre do suspense”, livros que vão do lúgubre e folhetinesco (The Dark Side of Genius, de Donald Spoto) ao reflexivo e erudito (Hitchcock’s Films, de Robin Wood, The Moment of Psycho: How Alfred Hitchcock Taught America to Love Murder, de David Thompson). Mas, após todos esses anos, a única obra essencial sobre Hitchcock continua sendo a série de entrevistas que deu a François Truffaut, publicadas originalmente como livro em 1967.

Este último livro, Alfred Hitchcock: A Brief Life, do romancista e biógrafo Peter Ackroid, não traz novas revelações, mas proporciona uma visão ágil e fluente da vida e da arte do diretor, e da misteriosa dinâmica entre as duas coisas. Como outros livros sérios sobre Hitchcock, este será julgado, em parte, pela afinidade da visão do autor sobre os filmes com a do leitor. Assim, Interlúdio - para esta espectadora, a mais sinistramente brilhante obra de Hitchcock - é afoitamente relegado a duas páginas, enquanto o pomposo Um Corpo que Cai (que parece estar vivendo uma nova onda de popularidade) é minuciosamente analisado e dissecado. Mereceu quase o mesmo espaço dedicado tanto a portentosos fracassos (como o equivocado Marnie, Confissões de uma Ladra, e o estranhamente apático Topázio) como ao brilhante e ainda elegante Intriga Internacional.

Ackroyd situa acuradamente o trabalho de Hitchcock na rapidamente emergente indústria do cinema. Ele mostra sucintamente o aprendizado do cineasta - como ele absorveu as lições de chiaroscuro do mestre expressionista alemão F. W. Murnau e a arte da montagem do grande diretor soviético Sergei Eisenstein. Ackroyd também assinala que os filmes da fase britânica de Hitchcock tendem a se situar mais num tempo e espaço específicos, se comparados a suas produções mas vistosas de Hollywood, que frequentemente “flutuam livres de amarras sociais” e “existem num grande e indefinido espaço”.

Ackroyd nos lembra que, para Hitchcock, “a civilização é tênue como o gelo fino debaixo do qual há profundezas e escuridão”. Assim, sua obsessão por precisão e controle (manifestada na preferência por filmar em cenários cuidadosamente construídos e em sua inclinação a manipular cruelmente seus atores) seria um artifício para se proteger contra fissuras nesse gelo. Imagens e reviravoltas na trama parecem ser mais fáceis para Hitchcock que o trabalho com personagens, que ele deixa muito em mãos de roteiristas. E, sugere Ackroyd, muitos dos cenários famosos de seus filmes - como a cena do chuveiro em Psicose e a do avião fumigador em Intriga Internacional - faziam parte da inspiração inicial do diretor.

Na opinião de Ackroyd, Janela Indiscreta, sobre voyeurismo, é um dos filmes mais pessoais de Hitchcock. James Stewart faz um fotógrafo chamado Jeff que, imobilizado por uma perna quebrada, observa a movimentação suspeita num prédio de apartamentos do outro lado da rua. “Daria até para dizer”, escreve Ackroyd, “que ao dar forma a Jeff ele tenha projetado uma imagem de si mesmo - do homem oculto atrás da câmera que cria um mundo de fantasia fora da realidade observável.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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