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Narrador é o ponto alto de livro que inspirou 'O Quarto de Jack'

Delicada história sobre amor, confinamento e loucura é contada por uma criança de cinco anos; leia trecho de 'Quarto'

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Maria Fernanda Rodrigues,
O Estado de S.Paulo

17 Fevereiro 2016 | 05h00

Jack acaba de fazer 5 anos e é neste ponto de sua vida que o conhecemos. É ele mesmo quem narra sua história – e a voz criada pela irlandesa Emma Donoghue para o garoto é uma das graças de Quarto, livro publicado em 2010 (aqui, em 2011), que envolveu um polpudo adiantamento de direito autoral - falou-se em 1 milhão de euros -, foi finalista do Booker Prize e conquistou leitores mundo afora – no Brasil, ele já está na 5.ª edição. Donoghue é responsável, também, pelo roteiro do filme que chega agora aos cinemas brasileiros.

Jack vive com sua mãe em um minúsculo cômodo. Para ele, está tudo bem: tem o amor dela e se sente confortável ali dentro, onde os objetos são tratados como humanos e onde cada mancha, cada traço conta a história delicada e angustiante dessa pequena família.

Aquilo é só o que ele conhece da vida real. O resto está na televisão, ou no "espaço sideral". Na rotina – e na criança –, a mãe encontra um antídoto, sempre frágil, à loucura e força para proteger sua cria, para dar a ela um ambiente (na medida do possível) saudável e para prepará-la para um futuro que ela não sabe se virá.

Quarto é o 7.º livro da escritora irlandesa que vive no Canadá. Em entrevistas à época do lançamento, ela disse que seu romance não era baseado no caso de Josef Fritzl, que manteve a filha em cativeiro por 24 anos e teve filhos com ela. Porém, comentou que a visão de um garoto (um dos filhos) vendo o mundo pela primeira vez a arrebatou.

Confira o trecho inicial do romance:

"Hoje eu tenho cinco anos. Tinha quatro ontem de noite, quando fui dormir no Guarda-Roupa, mas quando acordei na Cama, no escuro, tinha mudado para cinco, abracadabra. Antes disso eu tinha três, depois dois, depois um, depois zero.

- Eu fui um número negativo?

- Hã? - disse a Mãe, dando uma espriguiçadona.

- Lá no Céu. Eu fiz menos um, menos dois, menos três...?

- Não, os números só começaram quando você desceu zunindo.

- Pela Claraboia. Você andava toda triste até eu acontecer na sua barriga.

- Falou e disse.

A mãe se inclinou pra fora da cama para acender o Abajur, que faz tudo clarear, zás.

Fechei os olhos bem na hora, aí abri uma frestinha de um, depois os dois.

- Eu chorava até não ter mais lágrimas - ela me contou. - Só fazia ficar deitada aqui, contando os segundos.

- Quantos segundos? - perguntei.

- Milhões e milhões.

- Não, mas quantos, exatamente?

- Perdia a conta, disse a Mãe.

- Aí você torceu e fez um desejo pro seu ovo, até engordar.

Ela sorriu.

- Eu sentia você chutar.

- O que eu chutava?

- A mim, é claro.

Sempre rio desse pedaço."

QUARTO

Autora: Emma Donoghue

Trad.: Vera Ribeiro

Editora: Verus (350 págs.; R$ 47,90; R$ 29, o e-book)

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