Ralph Orlowski REUTERS
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Morre o dramaturgo italiano Dario Fo, prêmio Nobel de Literatura em 1997

Escritor de 90 anos estava internado em um hospital em Milão com problemas respiratórios

Andrei Netto, CORRESPONDENTE

13 Outubro 2016 | 07h35

PARIS  - No mesmo dia em que a Academia Sueca anunciou o nome de Bob Dylan como Prêmio Nobel de Literatura 2016, um outro laureado desapareceu. A morte do escritor, dramaturgo e ator italiano Dario Fo, 90 anos, vencedor da edição de 1997, foi comunicada ontem pelo governo da Itália. Vítima de uma insuficiência respiratória causada por problemas pulmonares que enfrentava havia vários anos, Fo será sepultado nessa sexta-feira, após uma cerimônia secular que será realizada no centro de Milão.

Nascido em 24 de março de 1926 na região da Lombardia, no norte da Itália, Fo foi criado em meio a um bolsão operário antifascista, circunstância que marcaria sua ética pessoal e sua afiliação anarquista e sua carreira como escritor e dramaturgo. Estudante de arquitetura, migrou nos anos 1950 para o teatro, quando começou a escrever monólogos e sketches marcadas pelo humor e pela ironia sob um forte tom de crítica social. Sua parceira de então, Franca Rame, o acompanharia ao longo de toda a sua vida, até sua morte, em 2013, após 59 anos de casamento.

Como Bob Dylan, a obra de Dario Fo tem como ponto central seu caráter multifacetado. Seus textos e livros parecem escritos para serem entoados, interpretados com as emoções de um ator, um papel que seu autor sempre prezou. Irônico inclusive sobre si mesmo e sobre seu legado artístico, Fo escreveu quando da publicação de um de seus livros: “Esta obra tem um defeito: sua leitura é bela”.

Polêmico e iconoclasta, nunca cessou de criticar de forma mordaz a vida política da Itália - chegando ao fim de sua vida como um apoiador do Movimento 5 Estrelas (M5S), que contesta o sistema político do país. Outro foco de sua crítica social foi a Igreja Católica. Foi alvo de pressões de arcebispos indignados contra a peça Mistero Buffo, de 1969, na qual adaptava uma farsa medieval para torpedear a instituição. Três anos depois, reincidiu ao viajar pela Itália encarnando o papel de um papa doente e que, disfarçado e anônimo, busca um psiquiatra e até uma bruxa.

Inquieto, continuou a perseguir de forma implacável aqueles que julgava poderosos demais frente aos desfavorecidos. Entre dezenas de textos, destacam-se Morte accidentale di un anarchico, de 1970; Non si paga! Non si paga!, de 1974; e Clacson, trombette e pernacchi, de 1981, todos permeados de crítica social, política e econômica. Uma de suas últimas vítimas foi o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, que encarnou em duas peças, Ubu roi, Ubu bas e L'Anomalo bicefalo, entre os anos 2002 e 2004.

Em lugar de intimidá-lo, as pressões só fizeram crescer sua celebridade internacional. Seu apogeu se deu em 1997, quando a Academia Sueca lhe concedeu o Prêmio Nobel de Literatura. Para os acadêmicos, Dario Fo “é aquele que emula os palhaços da Idade Média e defende a dignidade dos oprimidos”.

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