GABRIELA BILO/ESTADÃO
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Mia Couto: "Meu maior medo é que os jovens não consigam mais contar histórias"

Em São Paulo para participar do Pauliceia Literária, o autor moçambicano fala de seu estilo e de seus principais alimentos: o homem e a terra

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

23 Setembro 2015 | 07h00

Aos dias, biólogo. Às noites, escritor. Mas, como fez com a prosa e a poesia, com o masculino e o feminino, com o que sonha e o que pode tocar, Mia Couto parece ter retirado as divisórias de suas duas principais atividades. Afinal, todas elas estudam a vida. Seus mais de 30 livros culminaram na narrativa de 'Terra Sonâmbula', de 1992, considerado um dos dez melhores livros africanos do século 20, e lhe agraciaram com o prêmio Camões, o mais prestigioso da língua portuguesa.

Mia está no Brasil para participar do encontro de autores Pauliceia Literária, promovido pela Associação dos Advogados de São Paulo. Sua mesa, com o angolano José Eduardo Agualusa, será na sexta (dia 25). Na tarde de ontem, ele recebeu a reportagem no centro de São Paulo e revelou que entregou ontem à editora os originais de seu próximo romance, 'Mulheres de Cinza', o primeiro da trilogia 'As Areias do Imperador', que vai narrar a perseguição dos portugueses ao reinado de Gungunhane, o último dos imperadores africanos. A fala de Mia, no entanto, vai além de sua própria literatura.

Suas histórias revisitam muito a relação quase religiosa do homem com a terra em que ele vive e seu drama ao ter de deixá-la. A geografia cultural da Europa pode ganhar um forte redesenho com as populações refugiadas. É preciso achar um novo sentido para esta relação?

Esses movimentos deixam feridas profundas por muitas gerações. Durante a Guerra Civil de Moçambique, por exemplo, saíram do país cinco milhões de pessoas arrancadas de suas raízes. E quando retornaram, encontraram um país que já não era mais seu. As terras na África são como as igrejas para uma comunidade. Não é só um prédio que cai quando uma delas é destruída.

A explosão dos refugiados e os crimes das grandes metrópoles parecem ter a mesma raiz: o vizinho, para quem fechamos a porta por anos, resolveu bater.

Sim, parece certo. E mesmo quando não há fenômenos de grandes migrações que são notícia, existe uma migração silenciosa. Nós, que habitamos as grandes cidades, já não temos mais posse delas. Já fomos expulsos pela violência. Como entidades fantasmagóricas, não estamos mais ali. Uma parte de nós já migrou, já sonha com outro lugar, já foi expulsa.

O indiano Surendra, de 'Terra Sonâmbula', conversa assim com o menino Kindzu: “Não gosto de pretos, Kindzu”. “Não? Então você gosta de quem? Dos brancos?” “Também não”. “Já sei: gosta de indianos, gosta da sua raça.” “Não. Eu gosto de homens que não têm raça”. Os homens sem raça estão em extinção?

A ideia da raça nasce, morre e renasce conforme as crises sociais. Sempre que há uma necessidade e é preciso inventar um culpado, a ideia da raça ressurge. Existe sim quem seja racista por convicção, uma minoria de gente que pensa que o outro é inferior, mas o fenômeno do racismo tem de ser pensado com relação aos fenômenos anteriores à própria raça. Eu sou biólogo e sei que não tem sentido nenhum, do ponto de vista da Ciência, falarmos de raça. É certo que a partir do momento em que existe como um coletivo, vai haver raça, mesmo que não comprovada cientificamente. Mas penso que as mudanças não podem ser invocadas com bandeiras raciais. Não se faz isso com cotas, com convites a facilidades. É preciso mudar a raiz das sociedades.

Negro, preto, branco, índio, gordo. Usar certos termos se tornou perigoso no mundo das patrulhas. O escritor não começa a ter medo da palavra? Ou ele está absolvido pela ficção?

Acho que todos nós, da ficção e da não ficção, temos de nos unir para que a palavra não nos dê medo, para não precisarmos pisar em um território minado que é o solo da nossa própria língua. Os combates são outros. O trauma marca pessoas antes mesmo que elas nasçam. Já se assume que alguém pertence a uma raça inferior.

Há um nítido esvaziamento das experiências humanas. Falta olhares, toques, falas. Sua literatura de viagens internas profundas não pode, em pouco tempo, estar pregando no deserto?

Essa comunicação da imagem virtual do outro não preenche o que para mim é uma condição humana. Ninguém pode ser feliz vivendo em bolhas. Faz falta ser tocado, ser olhado, ser cheirado. Mais do que beijado, um menino precisa ser abraçado. Quando ele estava aflito, já na era das cavernas, corria para o abraço do pai e da mãe. Esse abraço era o conforto absoluto. Eu não posso abraçar meu iPad e sentir o mesmo.

As frases de seu texto nunca parecem ser aquelas que lhe chegam primeiro. Isso deve dar um bom trabalho.

Sim (risos). Eu sou um reescritor, reescrevo muitas vezes um livro. É um trabalho de regresso contínuo. Construo primeiro a história na emoção, no impulso, mas depois volto a ela muitas vezes. Fiquei três anos no último livro, revisei palavra por palavra, frase por frase. Mas minha fase agora é de contenção. Mais do que o que vou escrever, me preocupo em não escrever demasiado. Um livro que é escrito em demasia é um livro que falhou.

Não há um risco ao se pensar demais para cada frase, de se perder a naturalidade, o fluxo da narrativa?

O verbo aqui não é “pensar”. Quando estou concebendo um livro, há qualquer outra atividade minha que vai além disso. Algo na fronteira entre o pensar, o delirar e o sonhar. Nós criamos fronteiras e divisões entre o sonho e o pensamento. É uma coisa estúpida, acho que porque temos medo, medo de não controlarmos o sonho, como se ele fosse um espírito que tomasse posse de nós. Se deixarmos de ter medo dessas falsas divisórias, as coisas seguem muito melhor. Não deveríamos ter medo nem tentar arrumar nossos sonhos.

Você faz prosa, no fundo, para fazer poesia?

Sim. Eu acho que sou sempre um poeta que quer contar histórias. Não deveria ser assim, mas não sei também onde é essa fronteira e não quero saber.

No fundo, os seus personagens são todos você?

(Pausa). É, possivelmente. Não queria que fossem, mas são. Eu me lembro da primeira vez em que iria dar vida a um personagem feminino. Fui falar com muitas mulheres para saber como elas eram, até que percebi que essa mulher que eu procurava também estava dentro de mim. Mais uma vez, acho que temos de deixar de ter medo, nos libertarmos dessa arrumação que fizeram dentro da nossa cabeça. Quando eu dava aulas, perguntava para os alunos: “Digam lá uma categoria tipicamente feminina”. As pessoas pensavam e diziam: “intuição”, “sensibilidade”. Ora, e por que isso não é masculino também?

Seus livros são todos um só?

(Pausa). Essa é boa também (risos). Eu sinto que sim, são. É como se eu escrevesse uma história que é uma só. Penso que vou me aproximando daquela história verdadeira que quero contar, mas é como se ela fosse a linha do horizonte. Quando chego lá, percebo que ainda não é a versão que eu quero.

Jovens devem ler de tudo ou escolherem melhor seus livros?

Não gosto da ideia de literatura má versus a literatura boa. Eles devem ler de tudo. Mas o que me dá mais medo, no entanto, não é que os meninos deixem de ler, mas que não saibam contar uma história. É algo bem grave. Quando vou ao interior do Moçambique, onde os meninos não leem porque não há escola, encontro garotos que sabem ler os outros como ninguém, sabem ler as nuvens, sabem converter o mundo deles em história. Não estou romanceando. Eles têm uma capacidade incrível de converter em narrativa o seu cotidiano. Ao contrário das grandes cidades, onde esses jovens parecem já receber tudo muito pronto.

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