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Entrevista. Mathieu Lindon

Escritor vai dividir uma sessão especial com Silviano Santiago

Mathieu Lindon, que vem à Flip, fala sobre influências

Ubiratan Brasil

01 Julho 2014 | 02h 00

Dois homens foram determinantes na vida do escritor francês Mathieu Lindon: o editor Jérôme Lindon e o filósofo Michel Foucault. O primeiro, fundador das Editions Minuit, que publica Samuel Beckett, Alain Robbe-Grillet e outros notáveis autores de vanguarda, foi seu pai biológico. O segundo, o mais controvertido entre os pensadores franceses pertencentes à geração 68, aquele que tratou principalmente da questão do poder, foi seu pai intelectual. Impulsionado pela relação com esses dois intelectuais, Lindon escreveu O Que Amar Quer Dizer, que a Cosac Naify lança no final de julho.

Mathieu Lindon é um dos convidados da próxima Flip, que acontece entre 30 de julho e 3 de agosto, em Paraty. Ele vai dividir uma sessão especial com Silviano Santiago, cujo recente romance, Mil Rosas Roubadas (Companhia das Letras), também rememora uma amizade marcante em sua vida, com o jornalista e produtor musical Ezequiel Neves.

Santiago, aliás, comentou o livro de Lindon para o Estado, em 2011, quando foi publicado na França. Para o escritor brasileiro, "as filigranas dos sentimentos abstratos, como o amor e o ódio filial, o desejo e o gozo carnal, o esquecimento e a lembrança, a rebeldia e a devoção, são expostas em frases como fios elétricos desencapados, ou seja, em frases tão lembráveis quanto máximas".

De fato, O Que Amar Quer Dizer apresenta, em um primeiro momento, o relato da amizade entre Lindon e Foucault (1926-1984), cultivada na Paris dos anos 1970. Um punhado de anos desfrutados em festas no apartamento do filósofo na Rue de Vaugirard, onde o consumo de drogas era franqueado, em eventos que, acima de tudo, serviram para sedimentar uma amizade fraterna e amorosa.

Tal relação é demonstrada no livro também como uma tentativa de suprir a lacuna afetiva entre Mathieu e o pai, Jérome, homem cuja rigidez de caráter não permitia a aproximação do filho. Assim, nesse embate amoroso, nomes notáveis da literatura mundial despontam como simples personagens, autores como Hervé Guibert, Samuel Beckett, Gilles Deleuze, Roland Barthes, Alain Robbe-Grillet e William Burroughs, lista que pode convencer alguns leitores a julgar o livro como um novelo de fofocas.

Gonzalo Fuentes/Reuters
O filósofo Michel Foucault foi determinante na vida de Mathieu Lindon

Silviano Santiago aponta outro caminho, ao observar que, no relato autobiográfico, "pesam mais as relações íntimas entre os ambiciosos artistas da cena jovem parisiense e menos as relações entre estes e os adultos já profissionais, que os acolhem". As únicas exceções são justamente Jérôme e Foucault, respectivamente os pais biológico e intelectual. Amizade, contracultura, drogas, paternidade, aids, amor gay e suas representações literárias são elementos que pontuam a obra, mas, acima de tudo, prevalece a tentativa de um reencontro amoroso entre pai e filho, concretizada justamente no enterro de Foucault, em 1984, quando Jérôme comparece e, em silêncio, abraça Mathieu. "Creio que é a única vez em que toma tal atitude", escreve ele, que respondeu por e-mail as seguintes questões.

Acredito que o senhor é o elo entre a inteligência e a generosidade de Foucault, não?

Com certeza, não sou o primeiro, entre seus amigos mais íntimos, e até os menos próximos, a ter se impressionado com a inteligência e a generosidade de Michel Foucault. Apenas não tive tempo para conscientemente compará-las, para compreender que essas duas qualidades estavam ligadas. Para ser honesto, tenho a impressão de ter me beneficiado pessoalmente tanto da sua inteligência como da sua generosidade.

Há um outro importante personagem no seu livro: a literatura.

Quando eu era criança, meu pai era o editor de Samuel Beckett, Marguerite Duras, Alain Robbe-Grillet e Claude Simon, escritores sempre convidados para jantar em minha casa. Portanto, eu me familiarizei muito rápido com eles. E muito rápido também com os textos, os livros, porque fui uma criança, depois um adolescente, muito solitária, que passava o tempo lendo. Sempre pensei em me tornar escritor. Escrevi um romance intitulado A Literatura, título naturalmente que tem seu lado irônico, e também porque me divertia a ideia que a literatura ocupa num livro. Ela me salvou de um precipício no qual talvez tenha contribuído para eu me lançar.

Alguns dias antes da morte de Michel, o Libération dedicara todas as páginas iniciais ao lançamento de seus dois últimos livros.
Seu livro fala sobre como um encontro pode mudar uma vida?

A literatura foi um encontro que mudou minha vida, e não foi apenas um encontro, pois estava por todo lado na minha família. Os personagens a que me refiro em meu livro, célebres ou não, Valérie, Gérard, Michel, Hervé, Rachid e Corentin mudaram minha vida, dirigiram minha vida sem que eu entendesse no momento. Aceitar a ideia em si do encontro foi uma grande mudança na minha existência. Quando estamos muito sós, procuramos nos acomodar o melhor possível nesta situação. Desejar um encontro já é sinal de um mínimo de abertura de espírito. Ainda não consigo acreditar que encontrei tantos seres magníficos - e que eles também tenham me encontrado, que entenderam que valia a pena aprofundar suas relações comigo e que, para eles, eu também significava um encontro.

O senhor afirma que seu pai era um editor que colocava a literatura acima de tudo. Como filho, sua vida não era um tanto difícil?

Na verdade, não, porque eu também colocava a literatura acima de tudo. E, na verdade, isso nunca foi um problema uma vez que, quando escrevi meu primeiro livro, eu o submeti à apreciação do meu pai na qualidade de editor. Ele se viu na situação de editor e pai, e eu de escritor e filho. Havia ali alguma coisa que não poderia forçosamente dar certo. Talvez porque relacionamos as perturbações habituais entre pais e filhos, orgulhos e vergonhas, exasperações e arrebatamentos, a distância e a proximidade. O episódio do meu primeiro romance proposto a meu pai simplesmente exacerbou essas oposições.

Seu pai era muito ligado a Beckett. É possível comparar com sua amizade com Foucault?

Não, na verdade, não. Se meu pai encontrou Beckett mais ou menos na idade que eu tinha quando conheci Foucault, o fato é que as situações foram muito diferentes. Meu pai conheceu Samuel Beckett ao ler o manuscrito de Molloy e ficar entusiasmado. Ele acompanhou toda a carreira de Beckett, que, à época, ainda era um autor desconhecido. Cada um na sua função, eles cresceram juntos. Ao passo que encontrei Michel Foucault quando ele já era um filósofo globalmente célebre e a masculinidade, a homossexualidade foram um elemento primordial na nossa relação. Meu pai tinha um enorme respeito por Beckett, mas não acredito que tinha algum sentimento de ter aprendido com ele (ou, um instante: ele contou que foi ao ler o manuscrito de Molloy, que enfim entendeu que era um verdadeiro editor, porque tinha sido capaz de descobrir uma obra-prima ainda desconhecida, não reconhecida pelo mundo literário). No meu caso, Michel Foucault educou-me sem cessar, talvez sem o saber, mas em todo caso nem eu mesmo percebi.

Seu livro fala também da importância do tempo na vida de uma pessoa, certo?

Sim. Já passei da idade que Michel Foucault tinha ao morrer. Quando ele estava vivo, cheguei a pensar que, na sua idade, gostaria muito de conhecer alguém que me amasse tanto quanto eu o amava. E isso me parecia algo inverossímil. Mas tenho a impressão - e este é também de algum modo tema do livro - que Michel transmitiu-me a capacidade de amar e ser amado, aprendi com ele que eu tinha muito mais a oferecer do que imaginava.

A morte de Foucault constituiu também o fim da sua juventude?

Há uma parte do livro que se chama "Rue de Vangirard", que era o endereço do apartamento de Michel. Lá, vivi mil aventuras, sentimentais, sexuais, de LSD, de heroína, na presença dele ou na sua ausência. Isso porque ele teve a magnífica ideia de me emprestar seu apartamento quando era convidado para dar aulas em universidades estrangeiras. Hoje, sinto que posso facilmente delimitar cronologicamente a minha juventude: ela começou quando descobri a Rue de Vangirard e terminou com a morte de Michel.

Falando sobre seu processo de criação, o senhor acredita que, por trás da reação emocional, primitiva, deve haver uma disciplina intelectual?

Seguramente. Esperei mais de 25 anos após a morte de Foucault, quase 10 após a morte do meu pai, para escrever este livro. Foi necessário todo este tempo para compreender o fundo da questão. Escrever é sempre inventar. Mesmo a ingenuidade se trabalha.

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