Liane Neves|Divulgação
Liane Neves|Divulgação

Mario Quintana, poeta de fino humor e simplicidade requintada, nascia há 110 anos

Simplicidade do escritor morto em 1994 vinha de um refinamento que era fruto de madureza e de um convívio com o 'mistério evidente' de uma poesia que não se deixa definir nem explicar

Mariana Ianelli, Especial para O Estado de S.Paulo

29 Julho 2016 | 23h21

Mario Quintana (1906-1994) não gostava de homenagens. O próprio fazia questão de contar a história de quando, convidado a escolher um poema para uma placa em sua homenagem na praça principal de Alegrete, recusou-se com a justificativa de que “um erro em bronze é um erro eterno”. O que era para render mais uma página à lista das deliciosas anedotas de Quintana acabou se tornando eterna boutade graças ao prefeito da cidade natal do poeta, que aproveitou o episódio como conteúdo da placa. Isso ilustra o fino humor de um poeta que detestava o teor protocolar dos encômios, e, especialmente, no mundo literário, o solene das escolas literárias e academias de letras.

A obra e a personalidade de Quintana, contudo, não se resumem ao seu tão conhecido gosto pelas coisas simples. Nem às suas excelentes boutades, como dizer dos materialistas que são “o sepulcro de Deus” ou que os modernistas brasileiros um dia descobriram o Brasil. Quando dizia que não era preciso buscar “o lado de lá”, porque já há muito mistério neste mundo, Quintana dizia-o como poeta íntimo dos mortos e das crianças, esses que permanecem quem são num tempo de relógio sem ponteiros. Sua simplicidade vinha de um refinamento que era fruto de madureza e de um convívio com o “mistério evidente” de uma poesia que não se deixa definir nem explicar.

Quintana se aborrecia com o bestialógico (palavra dele) dos críticos. Defendia que um autor (sua obra) falasse por si, que não o obrigassem a prestar satisfações. Daí mais uma de suas preciosas tiradas: que um poeta só devia responsabilidade em face da Esfinge. Ao tomar o sobrenatural como natural dentro do mundo das letras, não hierarquizava motivos poéticos: podia ser um poeta familiar tanto de grilos e cigarras quanto de anjos bíblicos. Podia ser tanto espirituoso quanto nostálgico.

Nesses 110 anos de Mario Quintana, comemorados neste sábado, dia 30 de julho, quem se dispuser a revisitar seus livros, na bela coleção da editora Alfaguara, encontrará não só um amigo das singelezas da vida. Encontrará também alguém que sabia ser sublime, como no caso do poema Uma Alegria para Sempre, do livro Baú de Espantos, de 1986, que o poeta dedica à sua sobrinha-neta Elena. Quem reler um a um os livros dessa obra feita de memórias e invenções (sempre confundidas), encontrará não só uma alma saudosa de menino do interior do Rio Grande do Sul, adolescente de colégio de internato, devorador dos livros de Dostoievski. Encontrará também um grande leitor e tradutor dos simbolistas franceses, como Verlaine e Mallarmé. Não só um autor com o dom da brevidade em versos avulsos, epigramas e haicais, também um poeta moderno intelectualmente avesso à era da técnica, ao mundo cibernético, aos imediatismos.

Embora sejam marcantes em sua obra alguns dos aspectos mais frequentes na poesia moderna e contemporânea, como o humor, o espírito aforístico, a informalidade e o elogio do singelo, o imaginário de Quintana propositalmente emana uma atmosfera de outro século, um pouco lúdica ou irônica, um pouco melancólica, do tempo dos bondes, dos lampiões, dos realejos, dos carrosséis. Quase uma provocação literária, Quintana dizia ter feito seu “Curso d’Alma” com o decadentista Antônio Nobre. Sua estreia na literatura com um livro de sonetos (A Rua dos Cataventos), em 1940, é outro exemplo de como o poeta não se prendia a modismos vanguardistas com sua maneira de ser graciosamente honesto ao preferir estar nu, porque a nudez, afinal, é o que nunca sai de moda.

O segredo desse ar gracioso é o que tempera a nostalgia de um afeto por fantasmas de velhas casas de infância com corredores enluarados e retratos de mortos pendurados nas paredes. É essa graça de continuar olhando a vida com certo ineditismo de boas-vindas, mesmo às coisas do passado, que torna saborosos os anacronismos do poeta. É, enfim, esse discreto equilíbrio entre erudição literária e sabedoria de vida que faz de Mario Quintana um autor a ser relido sempre com nova alegria.

MARIANA IANELLI É POETA, AUTORA DE 'O AMOR E DEPOIS', 'TEMPO DE VOLTAR', ENTRE OUTRAS OBRAS

 

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