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Mário de Andrade canta em registros inéditos encontrados nos Estados Unidos

- Atualizado: 20 Abril 2015 | 09h 49

Morto há exatos 70 anos, Mário de Andrade terá seu legado celebrado na Flip de 2015; ouça as gravações

Em um filminho mudo, gravado em Santa Isabel, interior de São Paulo, Mário de Andrade aparece naquele que é o mais longo registro de sua imagem em movimento. São apenas alguns minutos, em meio a uma Festa do Divino Espírito Santo, no ano de 1933. Mas, ainda que breve, o registro oferece a chave para entender muito da postura de Mário, como artista e como intelectual. Ao notar o movimento da câmera que se aproximava para flagrá-lo, faz um gesto evasivo com as mãos e dirige o foco para o que se passa além. Não é o homem que deve ser documentado – parece dizer – mas a manifestação popular, o festejo, a cultura de seu País. 

Talvez, por isso, a gravação seja tão rara – só se conhece uma outra filmagem semelhante. Talvez por isso nunca ninguém – além de seus contemporâneos – tenha escutado sua voz. Ao menos, até agora. Nos arquivos da universidade de Indiana, nos EUA, foi descoberto o único registro em áudio do autor de Macunaíma. Lá, guardado havia 75 anos, estava um disco de alumínio no qual Mário surge cantando. São cinco faixas, nas quais aparece acompanhado pela escritora Raquel de Queiroz e por Mary Pedrosa (mulher de Mário Pedrosa). Ouça duas faixas abaixo.

Mario de Andrade

Mario de Andrade

 

E não eram quaisquer canções. Tão interessante quanto a voz, é o fato de que apresentava cantigas populares que ele mesmo havia recolhido durante suas andanças pelo Nordeste. “Essas gravações revelam uma coerência e uma pertinência nesse universo do Mário de Andrade que a gente só conhecia no papel”, observa Flávia Toni, professora do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP e uma das autoras da descoberta, ao lado de Carlos Sandroni, da Universidade Federal de Pernambuco. 

Mito

Francisco Mignone falava de sua voz grave, de barítono. Gilda de Mello e Souza relatava sua onipresença nas cantorias promovidas pelo círculo modernista daqueles anos pós Semana de 1922. “Mas nunca tinha ouvido falar de que houvesse algum registro gravado de sua voz. Muito menos de seu canto”, conta Sandroni, que foi informado da existência da gravação por um terceiro pesquisador, Xavier Vatin, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia. Ao debruçar-se sobre os arquivos do linguista Lorenzo Turner, que ficam em Indiana, Vatin deparou-se com uma menção a Mário de Andrade. Foi preciso, contudo, montar certo quebra-cabeças para se ter a certeza de que aquele era, de fato, o poeta brasileiro. 

Primeiro, sabe-se que em 1940, ano em que a gravação foi feita no Rio de Janeiro, o artista paulista, de fato, residia na cidade. Outro dado importante: no lado B do disco, terminadas as canções, Mario explica as peças apresentadas e revela que uma das canções é um canto de mendigo documentado por ele próprio na Paraíba. “Essa informação não deixa dúvida de que se trata dele mesmo”, assegura Sandroni. Um ano antes, em 1939, Mário de Andrade relatara aos leitores do Estado o momento em que registrou a obra musical, em uma visita à longínqua Catolé do Rocha. No suplemento Rotogravura (reproduzido acima), contava como descobriu a cantiga Deus Lhe Pague a Santa Esmola. Descreve a cidade pequenina, “meio espandongada no jeito”, e uma cena com a qual se deparou: uma menina aleijada, que ia dentro de um carrinho de mão, e uma anciã, enrolada em xale de lã, a pedir moedas. “A velha a repetir o seu bendito admiravelmente melodioso: Deus lhe pague a santa esmola! / Deus o leve em seu andor!”, escreveu, admirado com a beleza e o equilíbrio da composição. 

Confirmada a participação de Mário, a operação para trazer a histórica gravação de volta ao País envolveu a negociação entre universidades do Brasil e dos Estados Unidos. E deve deixar rastro permanente, até o fim deste mês: o Instituto de Estudos Brasileiros pretende tornar disponível em seu site o acesso a todas as faixas do disco. “Esse pequeno conjunto de canções amplia e coroa essa faceta do Mário de Andrade musicólogo”, acredita Flávia. “É muito bonito perceber como essas melodias de pedinte percorrem toda uma época. A anotação da canção é feita em 1928. Mais de dez anos depois, essa canção está presente na vida dele. Serve ao estudo da música e também como fonte de escrita, de poesia.” 

Muitas artes

Morto há exatos 70 anos, Mário de Andrade terá seu legado celebrado na próxima Flip – a Festa Literária de Paraty. Reverenciado como romancista e poeta, também deve ser lembrado por seu trabalho como folclorista, gestor público, defensor do patrimônio, crítico de arte, professor e estudioso de música. 

Aluno disperso e tido como ‘ovelha negra’, Mário não despertava grandes expectativas na família. Ao menos até ser ‘resgatado’ pela música. Foi só então que o intelecto rebelde disciplinou-se, adquiriu uma rotina metódica de trabalho e leitura. 

A fama como homem de letras, às vezes, nubla o fato de que sua formação primeira, assim como parte considerável de sua produção, deu-se no campo dos estudos musicais. Em 1914, formou-se em canto no Conservatório Dramático e Musical. Três anos depois, conclui o curso de piano. 

Para sobreviver, o filho de Dona Maria Luísa dava lições particulares de piano em casa. Era catedrático no mesmo conservatório do qual foi aluno. E, com a publicação de Estudos sobre Música Brasileira, descortinou todo um campo de conhecimento até então inexistente.

Antes dele, não havia crítica, não havia história da música, ou folclore musical brasileiro. Sua contribuição foi decisiva. Ele sabia disso. Seus escritos deixam evidente a consciência que tinha de que seu trabalho iria durar para além de sua existência. Mas não era homem de se deixar filmar. Ou de envaidecer-se com a própria voz. Sorte nossa é que alguns rebeldes teimaram em registrar esses vestígios do gênio. 

Os tristes anos do ‘exílio’ do poeta no Rio de Janeiro 

Gravações do linguista Lorenzo Turner foram  feitas em 1940, época em que Mário de Andrade esteve longe de São Paulo 

Em 1940, quando participou da sessão de gravação promovida pelo linguista norte-americano Lorenzo Turner, Mário de Andrade vivia no Rio de Janeiro. A saída de São Pulo envolve circunstâncias traumáticas e remetem ao fim de sua vida – o poeta morreria em 1945. 

Quando assumiu o recém-criado Departamento de Cultura de São Paulo, em 1935, o escritor deixou um pouco de lado a literatura e a crítica – dais quais era militante até então. Nesse momento, dedicou-se com fervor à difusão da alta cultura, que imaginava devia chegar ao conjunto da população, assim como mergulhou na tarefa de conseguir posição às manifestações populares, relegadas a mero exotismo até então. A formação de um ambiente intelectual amplo e a visão da cultura como instrumento essencial à constituição de cidadãos era não apenas nova, como revolucionária. 

Até 1938, Mário devotou-se completamente à posição de primeiro gestor público de cultura no Brasil. Criou bibliotecas públicas, parques infantis, além de uma série de outros projetos que visavam à preservação da memória e à afirmação de uma tradição verdadeiramente nacional. 

Uma de suas realizações principais foi o envio da Missão de Pesquisas Folclóricas ao Norte e Nordeste (um grupo de estudiosos que reunia Luís Saia, Martin Braunwieser, Benedicto Pacheco e Antônio Ladeira), que reunia para documentar os cocos, as modas, os cantos trabalho: as músicas da tradição oral que logo, logo seriam solapadas pela industrialização. 

A emergência do Estado Novo e seu consequente afastamento do Departamento de Cultura levariam Mário ao breve ‘exílio’ no Rio de Janeiro. Lá, foi professor de Estética na Universidade do Distrito Federal. E trabalhou ao lado de Gustavo Capanema, no Ministério da Educação. Mas não conseguia viver longe de São Paulo - a ‘comoção de sua vida’ - e regressou em 1941.

Veio chefiar o escritório do Sphan – o recém-criado órgão de preservação do patrimônio histórico nacional. Mas, tristemente abalado pelo rumo da política e de sua própria vida, morreu de ataque cardíaco em 1945.  

 

As músicas

O disco de alumínio encontrado na Universidade de Indiana (EUA)traz cinco melodias:

Aribu, melodia que Raquel de Queiroz aprendera com um palhaço, no Ceará;

Zunzum, cantada por Mário de Andrade e Mary Pedrosa, essa era uma peça do final do séc. 18, uma celebração usada nas rodas de bebida que Mário acreditava ser de Minas Gerais;  

Tava Muito Doentim, cantada por Raquel de Queiroz, colhida por Ascenso Ferreira e Mestre Rozendo, em Pernambuco; 

Deus Lhe Pague a Santa Esmola, cantiga de mendigos colhida por Mário de Andrade em Catolé do Rocha, no interior da Paraíba;

Toca Zumba, cantada por Mário de Andrade, é identificada erroneamente por ele como uma melodia publicada por A. Friedenthal. A cantiga se chama O Bilontra e foi composta por Gomes Cardim, pouco após a Abolição.

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