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Manuel Antín fala da relação com Julio Cortázar

Ariel Palacios - CORRESPONDENTE - O Estado de S. Paulo

23 Agosto 2014 | 03h 00

Cineasta e escritor eram amigos

BUENOS AIRES - A decisão - em 1962 - de plagiar o escritor Julio Cortázar fez Manuel Antín tornar-se um dos principais cineastas cult da Argentina. "A única forma legítima de plagiá-lo era transformar um livro seu em um filme. Isto é, em outra forma de linguagem", explicou Antín, em entrevista ao Estado. Uma carta endereçada ao escritor para solicitar o 'plágio' deu início a um intercâmbio epistolar de mais 200 cartas entre Buenos Aires e Paris. Foi o início de uma longa amizade com admirações mútuas.

Antín dirigiu, baseados em contos de seu amigo, Cartas de Mamãe, Circe e A Intimidade dos Parques (a fusão dos contos O Ídolo das Cíclades e Continuidade dos Parques). Aos 88 anos, Antín - diretor da Universidade do Cinema no bairro de San Telmo - afirma que “Cortázar me dizia que queria ter sido diretor de cinema, como eu. E eu respondia que queria ter sido escritor, tal como ele”.

Arquivo pessoal
Vidas trocadas. Antín (E) queria ter sido escritor; Cortázar (D) queria ter sido cineasta

Como conheceu Cortázar?

Conheci ele como se conhecem os escritores: com um livro na mão. Havia ido de visita à casa de um amigo e, enquanto esperava que ele terminasse de se arrumar para ir ao cinema, fui até a biblioteca da casa e peguei um livro aleatoriamente. Era Armas Secretas, de Julio Cortázar. E ali, em pé, li um dos contos, o Cartas de Mamãe. Naquela época, ele não era conhecido popularmente. Somente seus leitores fanáticos o conheciam. Eu sempre quis escrever e nunca consegui qualquer tipo de transcendência com minha escritura. Mas, quando li esse conto, pensei: “Queria ter escrito isso”. Mas já estava escrito. Como não era um escritor conhecido, a única alternativa era plagiá-lo (risos). E a única forma mais legítima - ou legal - para isso era transformá-lo em um filme. Isto é, um plágio em outra forma de linguagem. Nunca antes havia pensando em fazer cinema, embora tivesse colaborado em dois roteiros! Quis levar esse conto ao celuloide, porque me fascinou, tal como me fascinou toda a obra de Cortázar.

Quais são seus contos preferidos de Cortázar?

Coincidentemente são os contos que escolhi para filmar: Cartas de Mamãe e Circe. E os contos O Ídolo das Cíclades e Continuidade dos Parques, que fundi em um único filme, com o título de A Intimidade dos Parques. Há um quinto conto, que não pude filmar, porque um colega passou na minha frente, El Perseguidor. Reli o livro O Jogo da Amarelinha recentemente. E, da mesma forma como o leitor pode interagir nesse livro trocando a ordem dos capítulos, pensei em um filme interativo para computador. Escrevi a Aurora Bernardes, ex-mulher de Cortázar, sobre o assunto. Mas não deu certo.

Os contos de Cortázar e dos escritores de realismo fantástico são menos maleáveis ao cinema do que outros?

Sou fiel aos contos. Mas geralmente os adaptadores cinematográficos, quando transferem a literatura ao cinema, fazem mudanças de acordo com o interesse do público. E, como o cinema depende muito do dinheiro, é preciso fazer concessões. Mas nunca fiz concessões. Nunca me interessou o que o público pensava. Meus filmes não tiveram sucesso de bilheteria nas estreias. Talvez anos depois. Mas foram sucessos de crítica. No meu caso, tenho mais devoção pela literatura do que pelo cinema. Cortázar era muito mais cinéfilo do que eu.

Cortázar perdeu os originais de um livro seu, 'Veneráveis todos'...

Meu segundo filme está baseado em meu primeiro livro, inédito. Quando vimos o filme em Cannes em 1963, Cortázar saiu do cinema e me disse que não havia entendido o filme direito. “Me envia o manuscrito que depois te devolvo”, disse ele. Voltei a Buenos Aires e enviei o texto pelo correio. Mas, como não havia sido publicada e a fotocópia não era comum há 51 anos, mandei meu manuscrito. Não tinha cópias. Mas, naquela época, dava para confiar nos correios. Cortázar, que era tradutor na Unesco em Paris, teve de viajar a Viena e levou o manuscrito, de forma a lê-lo em algum momento de tédio. Mas, quando foi embora do hotel, esqueceu o manuscrito. Aí ele me escreveu, preocupado, pedindo desculpas pelo que havia acontecido. Uns dois anos depois, me enviou uma fita com comentários sobre Circe. E, junto com isso, os originais de O Jogo da Amarelinha para entregá-los ao editor Paco Porrúa, que era amigo nosso. Aquelas páginas datilografadas eram as únicas, sem cópia, tal como meu livro. Minha primeira intenção foi a de levar o livro ao Paco e dizer: “Olha aqui este livro meu”. Mas a História demonstra que não fiz isso (risos).

Como definiria Julio Cortázar do ponto de vista literário? 

Tenho uma única definição: é o único escritor que gostaria de ter sido. E olhe que li grandes escritores argentinos, brasileiros, europeus, mas nunca li um deles como se fosse eu quem estivesse escrevendo o que estava lendo. Com Cortázar, sinto isso. Cortázar escrevia sobre coisas que misteriosamente também haviam me ocorrido. Ele navega no realismo fantástico, no sentido misterioso das causalidades. 

Continua relendo os livros de seu amigo? 

Sim, especialmente O Jogo da Amarelinha. Um livro maravilhoso.

Conte um causo sobre ele. 

Cortázar me autorizou a fazer a versão cinematográfica de A Cifra Ímpar, baseada em seu conto Cartas de Mamãe. Posteriormente veio a Buenos Aires e vimos sozinhos o filme na sala de um estúdio no bairro de Núñez. Ele sentou-se na fileira atrás da minha. O enredo é sobre dois irmãos que disputam a mesma mulher. Em uma cena do filme, a mãe sobe uma escada. Seu filho Luis fala com ela sobre a amada: “Mãe, Laura é como você. Laura é você”. Nesse momento, Cortázar colocou sua mão sobre meu ombro e me diz: “Garoto, agora é que entendi meu próprio conto”. É algo para mim inesquecível, que me comove.

Como foram os últimos minutos de Cortázar? 

Cortázar, à beira da morte, quis voltar para sua casa em Paris, para ter ali seus derradeiros momentos. Ao chegar, pediu que sua ex-mulher Aurora colocasse no toca-discos o long play com o concerto para clarineta e orquestra de Mozart. Mais especificamente, o segundo movimento. Aurora colocou o disco... e (faz uma pausa, emocionado) Cortázar morreu ouvindo essa maravilha.

Cortázar, audaz libertador das formas - JULIÁN FUKS - ESCRITOR

Num ensaio de Julio Cortázar de meados do século passado, o escritor parece oferecer, de modo um tanto furtivo, um contrapeso possível para estimar seu legado. Propondo-se a falar da Situação do romance, elogiava com alarde os romancistas que décadas antes haviam se lançado numa direção inesperada, pregando o rompimento com as técnicas antiquadas do realismo, prezando a riqueza infinita da linguagem, realizando uma “audaz libertação das formas”. Referia-se a Joyce, a Proust, a Woolf, a todos os que haviam devolvido à prosa uma “expressão mais imediata”, “uma atitude poética”, aos que haviam realizado o tão necessário “fuzilamento pelas costas de Descartes”.

A si mesmo Cortázar não mencionava, por modéstia decerto, mas também porque acabava de iniciar sua carreira literária e ainda não se entregara ao ofício de romancista. Tinha já alguns bons contos rabiscados, estava prestes a surpreender Borges com a peculiaridade perfeita de seu Bestiário, mas seu romance absoluto, O jogo da amarelinha, o livro que obteria êxito automático e o alçaria à posição temporária de maior autor latino-americano, só viria a público treze anos mais tarde. Cortázar parecia, nesse instante, ainda ponderar qual seria sua contribuição pessoal à literatura, a essa imensa máquina de conquista verbal da realidade.

Em seus ensaios, já precocemente se insinuava sua capacidade de aliar à potência crítica um vigor estético, uma exuberância linguística posta a serviço do humor, da ironia, num perpétuo convite à cumplicidade. Insinuava-se também, e sobretudo, sua liberdade, o desembaraço de seus pensamentos quase erráticos, saltando da poesia de Keats ao suicídio de Artaud e mais tarde aos tangos de Gardel, enriquecendo cada assunto com inúmeras metáforas e anedotas de um gato chamado Adorno. Mais que para o raciocínio lógico, seu gosto parecia derivar para a associação insólita, tantas vezes iluminadora.

Em seus contos, sem se fazer menos livre, a liberdade ganhava ordem. Não a ordem das coisas exatas, embora ele desempenhasse tão bem a contenção necessária ao conto, a condensação extrema de tempo e espaço. Nos textos curtos de Cortázar, o que desponta é a suspeita de outra ordem mais secreta e menos comunicável - território da excepcionalidade, onde os desvios falam mais alto do que as leis da razão. Na estranha história de um homem que vomita coelhos, ou de um congestionamento interminável, o acontecimento se irradia de tal modo que vai se tornar, como diz o autor em outro ensaio, “o resumo implacável de certa condição humana, ou o símbolo candente de uma ordem social ou histórica”.

Foi no romance, entretanto, que Cortázar desferiu seu golpe mais forte contra a realidade cartesiana e o realismo óbvio. No mosaico em dez passos de O jogo da amarelinha, associavam-se com extrema soberania as referências de uma época ardorosa: o questionamento da autoridade, a sexualidade desvelada, a ebulição cultural das vanguardas. O jogo em questão é o jogo do acaso e da aleatoriedade. No passeio de Oliveira pelos caminhos da loucura e da degradação, o que se revela é algo diferente, como diz Beatriz Sarlo: “o sem sentido e o absurdo que corroem toda pretensão de construir sentidos plenos”.

A audácia desse romance talvez tenha sido mal interpretada. Exalta-se a possibilidade que Cortázar teria dado ao leitor de escolher o caminho que lhe agradasse: ler apenas a intriga ou entremeá-la às muitas citações, às digressões, aos comentários. Evidentemente a opção é falsa, não passa de provocação. Ali se ironizava, e ainda se ironiza, o leitor preguiçoso ou limitado, o que só se interessa pela história, pela dimensão factual. Ali se criticava a literatura convencional, imperante ainda em dias atuais, tão apegada ao regime da narração fácil e clara, ignorante de que a evolução das formas já há muito a fuzilou.

Cortázar era um escritor excêntrico, alguém poderia afirmar. Argentino radicado na Europa, sua versão diferia um pouco: “só descentrado aqui posso alcançar um centro, uma harmonia, mas ao custo de uma ruptura”. A lição que Cortázar deixa ao escritor latino-americano, sempre descentrado ou excêntrico, talvez seja a dessa ruptura, dessa libertação formal - dessa recusa a compactuar com ordens externas, extemporâneas, arbitrárias, ordens que não sejam rigorosamente as suas. Eis talvez a dimensão de seu legado: muito mais que suas belas obras libertas das formas arcaicas, o exemplo maior de sua liberdade.

JULIÁN FUKS É ESCRITOR E CRÍTICO LITERÁRIO, AUTOR DE 'PROCURA DO ROMANCE'

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