Luiz Ruffato mescla realidade e ficção em seu novo livro

Em 'Flores Artificiais', relatos pessoais formam um quebra-cabeça

Entrevista com

Luiz Ruffato

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

14 Junho 2014 | 02h00

Um escritor recebe um pacote com originais. Trata-se do manuscrito das memórias de Dório Finetto, graduado funcionário do Banco Mundial, redigidas com base nas experiências acumuladas em inúmeras viagens. Ali estão descrições de personagens encontrados em cidades diversas, como Havana, Beirute, Hamburgo, delicadas histórias de vida que Finetto descobre em encontros fortuitos. Esse é o ponto de partida de Flores Artificiais, novo romance de Luiz Ruffato, publicado agora pela Companhia das Letras.

O livro encobre, na verdade, uma engenhosidade literária: o tal escritor que recebe as memórias de Finetto se chama Luiz Ruffato, que relata a história do pacote em uma introdução. Feitas as explicações, segue-se uma série de tramas selecionadas por ele, que são apresentadas como um novo livro, chamado Viagens à Terra Alheia. Ou seja, um livro dentro de outro. E, ao final, depois de dar espaço à escrita de Finetto, Ruffato retoma a palavra e encerra com uma biografia do funcionário.

Ainda que as credenciais de Finetto sejam convincentes e suas histórias comovam pela veracidade, o livro é um astuto trabalho de ficção, com Ruffato revelando uma técnica ainda mais apurada de conduzir o leitor à intimidade da alma.

Luis Ruffato já trabalhava em Flores Artificiais quando protagonizou um dos momentos mais marcantes de sua carreira: o surpreendente, mas honesto, discurso na abertura da Feira do Livro de Frankfurt, em outubro do ano passado. Ao escancarar de forma coerente e impiedosa as mazelas nacionais, quando um tom ufanista era mais esperado especialmente pelos estrangeiros, Ruffato conquistou tanto um respeito como um ódio embrulhado pelo desprezo, vindo até mesmo de seus pares.

"Os ataques pessoais que sofri e as represálias oficiais só comprovam meus argumentos”, diz ele na seguinte entrevista, concedida por e-mail. De fato, o escritor, com essa passagem em sua biografia, até poderia ser um personagem de Flores Artificiais, coletânea de momentos decisivos na vida de pessoas que, embora sejam de nacionalidades distintas, padecem de problemas semelhantes, inerentes à condição humana contemporânea.

E, ao traçar a biografia de seu alter ego Dório Finetto, Ruffato amarra a narrativa ao convencer o leitor da validade de se contar e de se publicar aquelas histórias, uma vez que o próprio Finetto poderia ser personagem de si mesmo, por conta de sua tortuosa trajetória - filho caçula de uma família pobre, nascido no interior de Minas, ele consegue fugir do destino dos irmãos - que é ficar na roça - para estudar em uma cidade maior. De Minas para o Rio e dali para o mundo, são saltos dados por um menino (depois um homem) fechado em suas verdades, com incrível disposição para escutar relatos doloridos, que se espelham com sua própria vida.

Ruffato diz que, com Flores Artificiais, dá prosseguimento à questão do desenraizamento, cada vez mais comum em uma sociedade planetária visceralmente unida pela tecnologia, mas cada vez mais marcada pela despersonalização. As narrativas contadas por Finetto (e reproduzidas por Ruffato) revelam a importância das raízes, das origens, na vida de cada pessoa. Afinal, em Beirute, um corpulento argentino ainda busca explicações para seu distanciamento da família, que pereceu longe de seus olhos. Ou, em Juiz de Fora, o narrador desfia o passado de outro homenzarrão, um inglês de ascendência escocesa, esfarrapado, com cicatrizes incuráveis na alma, inquieto por não conviver em paz com o próprio passado.

"Optei pelo título Flores Artificiais porque elas são belas, mas feitas para enganar os olhos, mas não os outros sentidos. Como as histórias que Dório conta, escritas para acharmos que ele está contando a história do outro, quando ele está contando a própria história”, observa Ruffato, que, na obra, comprova ter consolidado o domínio da escrita ao tingir com lirismo confissões atordoantes, sem que isso desperte a condescendência no leitor - na verdade, o resultado demonstra como é enorme o número de pessoas que padecem do mesmo mal, ainda que se julguem espécies raras.

De que forma a inadaptação apresentada em Estive em Lisboa e Lembrei de Você, seu livro anterior, dá o tom de Flores Artificiais?

Todos os meus livros, de uma forma ou de outra, tratam de uma única questão: o desenraizamento. Este tema principal está presente em Eles Eram Muitos Cavalos, está presente no De Mim Já Nem se Lembra, que terá uma reedição pela Compania das Letras ainda neste ano, e está presente no projeto Inferno Provisório. O que houve é que em Estive em Lisboa e Lembrei de Você ampliei esse olhar acompanhando o personagem, um imigrante brasileiro, no exterior. Até então, havia me dedicado a tentar entender esse processo de desenraizamento dentro do Brasil. Com Estive em Lisboa e Lembrei de Você, comecei a perfazer esse novo caminho, que em Flores Artificiais eu aprofundo. Esteja onde estiver, a sensação é sempre de ocupar um não lugar. É isto que meu novo romance propõe.

É curioso que, em meio a tantos depoimentos distintos, é possível montar um perfil, ainda que bem imperfeito, de Dório Finetto. Era sua intenção deixá-lo quase ausente em todo o romance?

A minha proposta em Flores Artificiais é oferecer ao leitor elementos para que ele monte uma espécie de biografia de um engenheiro que trabalha como consultor da ONU para assuntos de infraestrutura. E a história desse meu conterrâneo vai se construir pelo olhar que ele dedica à vida dos outros. Ao final, queria que o leitor conhecesse profundamente a história de Dório Finetto somente pela reação dele diante da fragilidade das histórias que conta.

Sendo coerente ao seu trabalho, você, acredito, exercita aqui um experimentalismo formal e trata novamente da questão de pertencimento, estou certo?

Sim, não consigo, em pleno século 21, representar a realidade como se estivéssemos no século 19 ou 20. A percepção do espaço e do tempo mudaram radicalmente. O espaço é o que nosso corpo ocupa não na amplidão, mas na exiguidade. O tempo não é mais pressentido sucessivamente, mas simultaneamente. E isso, evidentemente, também se aplica na apreensão que temos do outro. O outro não nos surge de maneira completa, conhecemos o outro por meio de restos ou retalhos de biografias... E é a representação dessa nova forma de apreensão da realidade que venho perseguindo desde Eles Eram Muitos Cavalos.

Por que o escritor Ruffato escolheu, dentre aquelas recebidas de Finetto, as histórias mais agridoces?

Não sei se as histórias são agridoces... O escritor Luiz Ruffato escolheu, entre as histórias enviadas por Dório Finetto, as que considerou as mais representativas de nossa época. Mas as que ficaram de fora, e que talvez um dia venham a ser publicadas também, num segundo volume, são muito interessantes. De qualquer forma, respondendo à sua pergunta, a vida talvez seja agridoce...

Você já disse uma vez que acredita ser fundamental o título de um livro. Como escolheu especificamente esse? Na verdade, são dois títulos de livro, certo?

Na verdade, o título do livro que Dório Finetto escreveu é Viagens à Terra Alheia. Mas o escritor Luiz Ruffato achou que dava uma falsa pista para o leitor, porque, antes de ser uma viagem concreta a países e histórias do outro, trata-se de uma viagem interna, uma viagem de autoconhecimento. Então, em vez de manter o título dele, optei por Flores Artificiais. Elas são belas, mas não são vivas. São feitas para enganar os olhos, mas não os outros sentidos. Como as histórias que Dório conta, escritas para acharmos que ele está contando a história do outro, quando ele está contando a própria história...

Passados alguns meses desde seu discurso na abertura da Feira de Frankfurt, em que você foi mais contestado que propriamente os dados ali apresentados, o que ficou de positivo e negativo daquela experiência?

Meu discurso foi o de alguém que acredita no papel que o intelectual deve exercer no âmbito da sociedade. Ninguém contestou a sério os dados apresentados que mostram um Brasil machista, homofóbico, racista, sexista, hipócrita, violento, intolerante. Os ataques pessoais que sofri e as represálias oficiais só comprovam os meus argumentos.

FLORES ARTIFICIAIS

Autor: Luiz Ruffato

Editora: Companhia das Letras (152 págs., R$ 34, papel e R$ 24, e-book. Lançamento dia 25/6, Livraria Cultura (Av. Paulista, 2073), 18 h

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