RODOLFO BUHRER/ESTADAO
RODOLFO BUHRER/ESTADAO

Luís Henrique Pellanda afasta Curitiba dos clichês em 'Detetive à Deriva'

Escritor paranaense lança seu terceiro livro de crônicas nesta quarta-feira, 5, em São Paulo, referendado por nomes como Ignácio de Loyola Brandão, Humberto Werneck e Ivan Angelo

Entrevista com

Luís Henrique Pellanda

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

05 Outubro 2016 | 05h00

A epígrafe do novo livro de crônicas de Luís Henrique Pellanda, 43, é uma citação do célebre Philip Marlowe: “Parecia uma boa vizinhança onde se cultivar maus hábitos”. A vizinhança é Curitiba, e os maus hábitos colocam o cronista – referendado por nomes como Ignácio de Loyola Brandão, Humberto Werneck, Marcia Tiburi e Ivan Angelo – nas ruas da cidade com um olhar muito particular e agora mais experiente. Detetive à Deriva (que a Arquipélago lança nesta quarta-feira, 5, na Livraria Blooks, em São Paulo, 19h) é o terceiro livro de crônicas do escritor. Antes, ele havia estreado na ficção em 2009, com O Macaco Ornamental (Bertrand), de contos, e desde 2014 publica semanalmente na Gazeta do Povo, o maior jornal do Paraná. 

Os textos de Detetive à Deriva revelam um observador profissional e quase obsessivo com o seu ambiente urbano – as ruas e praças servem de trampolim para olhares para a própria cidade, mas também para a família, para a política, para o amor, para a morte. “As melhores ruas têm entrelinhas largas. Os melhores livros têm esquinas generosas, vias que se bifurcam. A imagem do labirinto é cara tanto à cidade quanto à literatura”, diz o autor por e-mail ao Estado.

A viagem particular que ele empreende por esse labirinto lhe rende adjetivações nada modestas de nomes destacados da literatura brasileira, ultrapassando a fronteira de Curitiba. “É isso (reinventar a crônica) que faz Luís Henrique Pellanda, com a facilidade de quem vai ali na esquina”, garante Alvaro Costa e Silva, o Marechal, na orelha do livro. “O grande cronista contemporâneo”, escreveu Marcia Tiburi. “Delicado, cruel, bem-humorado”, resumiu Ignácio de Loyola Brandão sobre Asa de Sereia (2014). Pellanda também quer voltar à ficção: está terminando um livro de contos e agora busca uma editora para ele.

Ivan Angelo: Quem dera toda cidade tivesse um cronista na sua cola, como Curitiba tem Luís Henrique Pellanda

“É comum me perguntarem o quanto de verdade há nas histórias que escrevo”, especula, em Mentirosos, uma das crônicas de Detetive à Deriva. “Respondo com meias-verdades: não sei, não importa, ninguém sabe.” É nesse tom que passeia entre o irônico, o afetuoso e a observação atenta, que as crônicas se apresentam. O autor falou com o Estado sobre sua produção.

De onde vem essa relação tão intensa com a cidade? Você já parou para pensar nisso?

Desde menino sou leitor e pedestre. Eu era uma criança suburbana, e tanto os livros quanto minhas incursões pelo bairro, pelo mato e, mais tarde, pelo Centro de Curitiba, me davam alguma esperança de fuga. A estagnação era o meu pesadelo. Por outro lado, ler livros era como andar na rua, e vice-versa. As melhores ruas têm entrelinhas largas. Os melhores livros têm esquinas generosas, vias que se bifurcam. A imagem do labirinto é cara tanto à cidade quanto à literatura. É a encruzilhada que nos força a tomar decisões, é ali que se dão as descobertas possíveis. Lembro de uma ideia do escritor francês Edmond Jaloux: para o artista andante, virar à esquerda ou à direita já é um ato essencialmente poético. E, claro, político. A crônica, para mim, é o gênero mais adequado a esses exercícios.

Você usa uma epígrafe do Chandler: essa exploração literária da cidade também é uma investigação, não? Que culpado você procura? E culpado de quê?

Não procuro culpados, e nem serve a um cronista esse papel. Especialmente a um cronista de Curitiba, lugar que vem se firmando diante do Brasil como uma espécie de cidade-tribunal. Sei que julgar é demasiadamente humano, vivemos formando juízos. Mas o problema com os julgamentos é que eles, cada vez mais, têm partido de um desejo de condenação do outro, do diferente, do adversário. São rituais de desafogo, e literatura não é isso. Ela é, sim, investigação, e uma de suas formas mais eficientes é a exploração literária de nossas cidades. Walter Benjamin escreveu a respeito, ligando a figura do flâneur à do detetive. João do Rio, pouco antes, classificou o flâneur como um tipo de “secreta à maneira de Sherlock Holmes”. É de Holmes, aliás, a famosa frase: “O mundo está cheio de coisas óbvias que ninguém jamais observa”. É essa a pretensão que o cronista assume.

Vamos supor que o cronista é um olhar, ou melhor, um jeito de olhar (para a cidade, para a família, para a política, para o amor, para a morte). De onde você olha? O lugar de onde você olha é uma coisa que te preocupa de algum jeito? Por quê?

Olho de uma janela simbólica. Ao comentar o amor dos cariocas pelas janelas, João do Rio já antecipava certa cultura janeleira que viria a caracterizar o brasileiro de modo geral. Com o tempo, claro, essa janela de onde vemos e somos vistos foi se transformando. Virou tevê, internet, celular. Por isso, ao dizer que olho o mundo a partir de uma janela, falo da janela como fronteira. A crônica é um gênero fronteiriço, fica entre o jornalismo e a literatura, o real e o ficcional, o efêmero e o eterno. E a janela é esse lugar entre o dentro e o fora, o público e o privado, o lar e a rua, o eu e o outro.

Esse livro pareceu mais recheado de reflexões pessoais sobre esses assuntos do que os livros anteriores. Você percebe isso também? Um escritor, ao amadurecer, se volta mais para si e para os seus?

Faz sete anos que escrevo crônicas semanais, e penso que a prática e a chegada dos leitores nos põem mais à vontade. O que pode ser perigoso, mas nunca indesejável. Só acho que essa percepção de amadurecimento pode ter mais a ver com o momento do leitor do que com o do escritor. A última palavra de qualquer livro será sempre do leitor.     

Rubem Braga ou Antônio Maria? Qual é o seu débito com a tradição da crônica brasileira? Antes você se dizia devedor por não ter escrito crônica de passarinhos… mas aqui já há — mesmo que, na maior parte das vezes, sejam urubus.

Ambos me comovem. Mas, como há muito deixei de ser um animal noturno, a sensibilidade de Rubem Braga, mais solar, apesar de soturna, talvez se aproxime mais da minha. Apenas não acho que os leitores precisem buscar, num cronista, uma identificação de fundo pessoal. Não é comigo que os leitores devem se identificar, e sim com a cidade, esse conjunto de resistências solitárias. Dito isso, devo muito a Braga e a Maria, e também a Verissimo, minha primeira leitura literária, na infância, e tantos outros. Quanto aos urubus, foi inevitável que pousassem no que escrevo. Durante uma década, dividi com vários deles o meu terraço na Boca Maldita. Ótimos convivas. 

A internet mudou muitas coisas: mas você é um cronista que bate perna, observa, descreve e relata a rua. Como você a relação da crônica com a web? Qual é a intersecção?

A internet, num primeiro momento, libertou a crônica da grande imprensa. Deu vida nova a um gênero que andava esquecido nos veículos dos anos 90. Hoje os cronistas voltaram aos jornais e se multiplicam por aí. As redes sociais ajudam a divulgá-los. A crônica se esparrama fácil, se presta às viralizações mais mundanas, soube se adaptar a esses novos recursos de contaminação. Mas se mantém fiel à sua natureza desconfiada. Suspeita da própria tecnologia que a fez nascer e tornou viável o seu florescimento. Suspeita do progresso, do dinheiro, do sucesso, do avanço imobiliário. E nem interessa tanto o suporte em que é publicada. Daqui a cem anos, aquele que escrever uma crônica ainda será um corpo humano.

Qual é a chave (se é que ela existe) que muda quando você senta para escrever crônica e para escrever contos? A ficção, produzir ficção, te seduz menos do que esses relatos?

A crônica não se encaixa na categoria da não-ficção. E tampouco na da ficção. Assim como a poesia, ela tem uma subjetividade própria. Um cronista parte do real e vai aonde quiser, embora caiba a ele responder pelo que diz. No conto, é outra história. Cria-se uma voz, um caráter, uma vontade que não carece dessa simbiose entre autor e narrador. Mas é como me disse Ignácio de Loyola Brandão: a memória também é ficcionista, e à crônica também é permitido imaginar.

O que você identifica como a principal mudança no seu jeito de escrever desde seu primeiro livro, em 2009?

Não sei especificar, mas qualquer mudança terá a ver com o fato de que, ao conceber meu primeiro livro, publicado em 2009, eu não tinha nenhum leitor, e agora já tenho alguns, que inclusive me escrevem diariamente. Há também a questão da prática, da experiência. Há sete anos sou obrigado, por razões profissionais, a produzir e publicar literatura ao menos uma vez por semana. Isso certamente me forçou a aprimorar minha atenção em relação ao mundo.

Ainda é cedo para falar em um próximo livro? 

Estou terminando um novo livro de contos, mas ainda não saí em busca de uma editora para ele.

DETETIVE À DERIVA

Autor: Luís Henrique Pellanda

Editora: Arquipélago (224 págs., R$ 39,90)

Lançamento: 4ª (5), na Blooks (Shopping Frei Caneca, 19h)

Trecho da crônica Rainha Interrompida:

"Assim, digo que era o início de uma madrugada quente, e as crianças dormiam agitadas. De repente, dois tiros, muito próximos e agudos, me içaram do fundo de um conto de Kafka. Larguei o livro e levantei da cama, estranhando a quietude na quadra. Em geral, depois de tiros, há choro, gritos, ofensas, pedidos de socorro, ruídos de briga. Naquela noite, não. Só havia silêncio. Quis sair ao terraço, como costumo fazer, mas minha mulher não deixou, tinha maus pressentimentos. Fui à janela da área de serviço: a esquina da Biblioteca Pública era uma encruzilhada no deserto. Deitei, mas não dormi, nem voltei à leitura.

Só de manhã soube do acontecido. Os trapos da morta jaziam amontoados na esquina da Ébano com a Cândido Lopes, à espera do caminhão de lixo. Seus companheiros de rua revolviam o monturo de sua memória, e dali resgatavam blusas, papéis, isqueiros, sapatos, fotos – o espólio de uma rainha interrompida.

Esta crônica, é claro, não terá o poder de ressuscitá-la; pelo contrário, só aumentará a pilha de seus despojos. Demorei a escrevê-la, hesitei, achei que não devia. Afinal, já se passaram tantas semanas desde o homicídio, para que desenterrá-lo?

Não faço ideia, mas sei que o sangue do horror não coagula, e que as mortes sangrentas nunca envelhecem. Estarão sempre frescas, como princesas em caixões de cristal, sem ninguém que as beije."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.