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Livro reúne 16 entrevistas de prêmios Nobel de Literatura

Dupla de espanhóis entrevistou autores como Gabriel García Márquez, Nadine Gordimer e Orhan Pamuk em 'Rebeldia de Nobel'

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

10 Janeiro 2015 | 03h00

Dois espanhóis, o repórter Xavi Ayén e o fotógrafo Kim Manresa, decidiram ir atrás de escritores premiados e foram recompensados com conversas francas do português José Saramago, do italiano Dario Fo e do turco Orhan Pamuk, três dos personagens do livro Rebeldia de Nobel: Conversas com 16 Autores Prêmios Nobel de Literatura, lançado no Brasil pela editora Tinta Negra. Todos os autores foram traduzidos no Brasil, o que torna mais fácil ao leitor identificar as referências às obras mencionadas nas entrevistas. Além dos escritores citados, a lista continua com Doris Lessing, Nadine Gordimer, Günter Grass, Imre Kertész, Naguib Mahfuz, Gabriel García Márquez, Toni Morrison, V. S. Naipaul, Kenzaburo Oe, Wole Soyinka, Wislawa Szymborska, Derek Walcott e Gao Xingjian.

Os autores Ayén e Manresa queriam fazer um livro original e pessoal, que registrasse o cotidiano de todos esses autores em suas casas. A dupla conseguiu mais que isso: registrou, por exemplo, a última entrevista do escritor egípcio Naguib Mahfuz (1911-2006), além de uma rara conversa com o colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014), na qual Gabo pergunta à queima-roupa quanto sua mulher cobrou dos jornalistas para reservar um par de horas com ele.

Em comum, os 16 entrevistados dividem uma história de combate a diversas formas de opressão de grupos ou governos. Naguib Mahfuz, considerado o pai do romance árabe moderno, foi, por exemplo, esfaqueado na rua, em 1994, por um fundamentalista. Já estava quase cego e surdo quando conversou com a dupla de autores e revelou que só podia escrever textos curtos, ousando um pouco mais quando tinha algum sonho especial. Ao acordar, memorizava a história e a ditava ao seu assistente. Autor de mais de 40 romances, ele desmentiu, na entrevista, que tivesse algum dia pedido autorização a qualquer autoridade muçulmana para publicar Os Filhos do Nosso Bairro, reafirmando sua crença de que escritores não devem pedir tal permissão a quem quer que seja.

Outro perseguido por grupos ultranacionalistas, Orhan Pamuk estava ameaçado de morte por mencionar publicamente o genocídio armênio pelos turcos, assunto tabu em seu país, quando concedeu a entrevista. Na época, Pamuk escrevia O Museu da Inocência, publicado em 2008, um de seus mais belos livros, que fala da obsessão de um homem por uma mulher – e que inspirou a fundação, um ano depois, em Istambul, do museu homônimo com objetos relacionados a essa paixão. O escritor turco, burlando a sua escolta, saiu para passear pela cidade com a dupla de jornalistas, revelando uma dose insuspeitada de humor.

Em outras ocasiões, os dois jornalistas passaram por maus momentos, como no aeroporto de Lagos, onde tiveram de convencer o oficial da segurança de que ambos não eram terroristas e estavam na Nigéria apenas para entrevistar um escritor – no caso Wole Soyinka, conhecido como o Mandela nigeriano. Soyinka, que criou uma casa oficina para escritores com o dinheiro do prêmio Nobel, justificou sua recusa em seguir os passos de Mandela, proferindo uma frase cortante durante a entrevista: “A liberdade e o poder são antagônicos”.

Assim também pensava a escritora de origem persa Doris Lessing (1919-2013), premiada com o Nobel em 2007. Aos 88 anos, ela recebeu os autores do livro de roupão, em sua cama, lamentando que precisava usar o sofá da sala para dormir por não estar em condições de subir as escadas de seu sobrado. À vontade, ela fala sem censura de seu passado comunista, do filho Peter, e dos problemas com o álcool, antes de afirmar que essa dependência foi causada por um sentimento de rejeição ao ficar mais velha.

Na linha revisionista, o alemão Günter Grass, que ganhou o Nobel em 1999, confessa que não foi o mais grave o fato de ter revelado ao mundo seu passado nazista. Ele, um garoto pobre que queria ser herói de guerra, em certa medida projetado no livro O Tambor, lamenta não ter tido a coragem de salvar vizinhos levados a campos de concentração durante a guerra. “Não mexi um dedo por ninguém, essa é uma dor que não me abandonará jamais”.

O chinês Gao Xingjian, autor de A Montanha da Alma, tampouco assume ares de herói por ter escapado de seu país, onde foi vítima da Revolução Cultural de Mao e teve de destruir sua obra para não ser preso. Ele deixou a China em 1987, fixando residência em Paris. Até receber o Nobel, em 2000, ele vivia da venda de suas aquarelas – Xingjian é um renascentista, num movimento pendular entre a literatura, a ópera, a dança e o cinema. “Sou um fugitivo, não um herói”, diz, encerrando a entrevista.

A exemplo do escritor chinês, outros autores pediram para não falar de política, como a polonesa Wislawa Szymborska. A sul-africana Nadine Gordimer não está entre eles. Conhecida por sua luta contra o apartheid, ela levou os autores ao Tribunal Constitucional para mostrar que a África do Sul havia mudado depois de Mandela. Mas nem tanto. A enérgica – os autores preferem “mandona” – Nadine Gordimer acabou sendo assaltada duas semanas depois de sua entrevista. Desconhecidos entraram em sua casa, a amordaçaram e prenderam-na no sótão. Ela sobreviveu à violência. Mas morreu em julho do ano passado, aos 90 anos.

REBELDIA DE NOBEL

Autores: Xavier Ayén (textos) e Kim Manresa (fotos). 

Tradução: Elisa Martins. 

Editora: Tinta Negra (176 págs., R$ 65)

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