Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

Livro 'Nazistas Entre Nós' mostra que o nazismo não é uma página virada

Marcos Guterman reconstitui a trajetória dos principais oficiais de Hitler

Maria Luiza Tucci Carneiro, ESPECIAL PARA O ESTADO

12 Setembro 2016 | 04h00

O livro Nazistas Entre Nós, de autoria de Marcos Guterman, resgata com maestria uma parte do nosso passado que, nestas últimas décadas, tem sido contado de formas diferentes: com mentiras ou com verdades históricas parciais. Tais atitudes revelam que nem todos os países aprenderam a lidar com o seu passado, sendo que alguns ainda se negam a fazê-lo por conveniência. Optaram por manter o gosto amargo da responsabilidade a enfrentar as possibilidades de um “juízo final” que, certamente, os conduziria ao banco dos réus. Ignorando a variedade de testemunhos que comprovam a sua efetiva colaboração com o nazismo, evitam olhar de frente para as atrocidades praticadas pelos nazistas entre 1933-1945. Da mesma forma, evitam assumir suas responsabilidades na prática de um trabalho sujo que foi o de oferecer refúgio para um bando de nazistas acusados de crimes contra a Humanidade. Preferiram usufruir dos conhecimentos científicos e técnicos de muitas cabeças coroadas por diplomas universitários, como muito bem disse Hannah Arendt, do que denunciá-los como arquitetos do maior genocídio da história da humanidade: o Holocausto.

As contínuas descobertas sobre a presença e morte de Josef Menguele no Brasil, por exemplo, produziram matérias que pouco contribuíram para revelar os nomes ou as razões que motivaram certas pessoas a lhe oferecerem proteção. Além de Menguele, refugiaram-se no Brasil: Gustav Wagner, Franz Stangl, Heinrich Müller e Heberts Cukurs. O mesmo vale para outros nazistas que, após a guerra, encontraram refúgio na Argentina: Adolf Eichmann, Walter Kutschmann, Erich Priebke, Gehrard Bohne, Friedrich Rauch, Eduard Roschmann, Erich Müller, Dinko Sakie, Juan Maler, Carlos Fuldner, Max Naumann e Erneste Hamnn. Para o Chile fugiu o criminoso de guerra Walter Rauff, ex-comandante da Gestapo, após ter escapado de um campo de prisioneiros na Itália, em 1948.

Fundamentado em intensa pesquisa, Guterman, editorialista do Estado, reconstitui a trajetória dos principais oficiais de Hitler que, após o fim da 2.ª Guerra, transformaram alguns países das Américas em refúgio seguro, longe dos julgamentos que os esmagariam como “monstros nazistas”. Conscientes dos crimes cometidos em nome do Terceiro Reich e da pureza da raça ariana, fugiram como ratazanas em busca de uma nova oportunidade de vida. Sem tempo para arrependimentos, se é que isso aconteceu em algum momento, traçaram incríveis rotas de fuga cavadas com a ajuda de terceiros desde as suas comunidades de origem até as comunidades de recepção.

Sabemos que um genocídio não ocorre no vazio, no tempo e no espaço: exige protagonistas e coadjuvantes. Carregando nas costas o fardo do mal, a escória do nazismo encontrou no continente americano abrigos acolhedores, que os ajudaram a esconder suas idiossincrasias transgressoras. Importantes autoridades políticas, sacerdotes católicos, empresários e seus compatriotas radicados em pontos estratégicos da América Latina ajudaram, sem escrúpulos, a salvar assassinos. Alguns nem sequer mudaram seus nomes ou enterraram suas ideias genocidas, negando-se até mesmo a enlouquecer. Continuaram a viver como “pessoas de bem”, apresentando-se como “bons cidadãos” associados a importantes empreendimentos nos Estados Unidos, Argentina, Chile, Brasil e Uruguai. Nem sequer tiveram a preocupação, naquele pós-guerra e em tempos de Guerra Fria, de limpar a poeira dos ombros: simplesmente deram as costas para a Europa em cinzas, fugindo covardemente dos cadáveres e dos mortos-vivos abandonados nos campos de extermínio.

Em síntese: este é o tema revelado pelo autor do livro Nazistas Entre Nós. Segundo Guterman, a luta contra os soviéticos durante a Guerra Fria e o esquecimento deliberado por parte de alguns países interessados em apagar o seu passado identificado com a Alemanha nazista, contribuíram para o sucesso dessa empreitada que colocou os nazistas “entre nós”. Demonstra que um amplo círculo de proteção e acobertamento foi mantido com o objetivo de ajudar uma “elite de ex-nazistas” e importante funcionários do Reich a escapar dos tribunais militares instalados pelos Aliados após a Segunda Guerra Mundial. Mas nem todos conseguiram livrar-se das acusações que marcaram os julgamentos ocorridos em Nuremberg, entre 20 de novembro de 1945 e 1.º de outubro de 1946. Ainda que em liberdade, foram obrigados a carregar o fardo do crime hediondo ao longo de suas vidas, apesar de terem fugido de suas responsabilidades diante do assassinato de cerca de seis milhões de judeus, milhares de ciganos, testemunhas de Jeová, homossexuais, comunistas e deficientes físicos.

Dentre os países omissos e colaboracionistas são citados os Estados Unidos, Argentina, Chile, Paraguai, Bolívia, Peru e o Brasil que, movidos por diferentes motivos e estratégias, deixaram em liberdade centenas de criminosos que agiram contra a humanidade. Como ex-nazistas, esses fugitivos deixaram para trás o Terceiro Reich – dito “civilizado” – para mergulhar nas paisagens tropicais do Terceiro Mundo ou participar da “construção” da América, que usufruiu dos seus conhecimentos científicos e técnicos em prol de um mundo melhor.

Ainda cabe esclarecer que o fluxo migratório de muitos outros nazistas anônimos que vieram para o Brasil no pós-guerra se aproveitou do processo de desnazificação, repatriamento, assistência humanitária e dupla nacionalidade. Devemos considerar que, entre 1945-1948, os Aliados defrontaram-se com a necessidade de construir um reconhecimento democrático que valorizasse os vencedores e suas “virtudes”. Ao mesmo tempo que a democracia liberal justificava suas práticas de violência – como a explosão da bomba atômica no Japão, os milhares de mortos na Europa –, os ideais de igualdade, cidadania e democracia ganhavam forças nas lutas e movimentos sociais entre 1945-1960. O Brasil, pressionado pelos Aliados, ocultou certas nuances de sua política imigratória como a edição de novas circulares secretas impedindo a entrada de judeus sobreviventes do Holocausto e as facilidades de “retorno” oferecidas aos nazistas (muitos dos quais teuto-brasileiros) perseguidos como “criminosos de guerra”. Essa atitude não deve ser interpretada como “mero acidente de linguagem”, mas como o cerne de uma questão a ser desvendada, rompendo com os silêncios da história oficial. Enfim, esta é uma página que não deve ser virada na História do Brasil, pois eles ainda estão “entre nós”.

* MARIA LUIZA TUCCI CARNEIRO É HISTORIADORA DA USP, AUTORA DE 'CIDADÃO DO MUNDO: O BRASIL DIANTE DO HOLOCAUSTO E DOS REFUGIADOS DO NAZIFASCISMO'​

NAZISTAS ENTRE NÓS

Autor: Marcos Guterman

Editora: Contexto (192 págs.; R$ 39,90)

Lançamento: 2ª (12), às 18h30, na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915) 

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