B. Fishman-Corbis-Bettmann REUTERS
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Livro mostra que Holocausto foi realizado com método e clareza de objetivos

'A Destruição dos Judeus Europeus', de Raul Hillberg, é finalmente lançado no Brasil

Marcos Guterman, O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2016 | 03h00

Demorou mais de meio século para que a obra fundadora dos estudos sobre o Holocausto, A Destruição dos Judeus Europeus, fosse finalmente editada no Brasil. A demora, inexplicável, foi parcialmente compensada por uma edição caprichada da editora Amarilys. Todo o luxo e o acabamento de primeira, no entanto, podem ser vistos apenas como uma homenagem tardia ao trabalho do historiador Raul Hilberg, já que o que realmente importa é seu ainda hoje impressionante conteúdo. Pois não é possível nem sequer começar a discutir o massacre dos judeus pelos nazistas durante a Segunda Guerra sem passar, primeiro, pela investigação de Hilberg.

A própria gênese da obra desse historiador americano de origem austríaca, morto em 2007 aos 81 anos, é digna de ser conhecida. A saga de Hilberg para conseguir publicar sua pesquisa traduz a dificuldade que o mundo ocidental teve para lidar com o grande massacre dos judeus ocorrido por iniciativa de sofisticadas sociedades europeias, supostas herdeiras das melhores tradições iluministas e humanistas. 

Judeu de Viena, ele fugiu da Áustria com os pais em 1939 rumo aos Estados Unidos. Já cidadão americano, integrou-se ao Exército e foi à guerra, ao final da qual, em Munique, teve seu primeiro contato com documentos produzidos pelos nazistas. Decidiu que, quando voltasse para casa, estudaria o Holocausto. Seu orientador acadêmico, Franz Neumann, autor de Behemoth – livro clássico de 1942, que permanece atual e se dedica a mostrar como o Estado nazista era o “reino da ilegalidade e da anarquia” –, o advertiu que seria perda de tempo: ninguém estava interessado naquele tema. Eram os tempos de Guerra Fria, e os americanos não queriam provocar sentimentos nacionalistas nos alemães – a lembrança do Holocausto, claro, poderia desatar polêmicas desnecessárias.

Não surpreende, assim, que seu livro tenha sido rejeitado por cinco editoras. Somente uma editora universitária minúscula de Chicago topou a parada – e mesmo assim porque um mecenas comprou antecipadamente 1,3 mil cópias. Desde então, e até 2003, Hilberg acrescentou novos documentos a seu fabuloso trabalho, e é esta edição completa que está sendo lançada no Brasil. Para o historiador, nenhum registro deveria ser deixado de fora, pois o negacionismo está à espreita, esperando uma brecha para semear dúvidas sobre o Holocausto.

A fim de dar sustentação teórica a seu trabalho, Hilberg, no início de sua obra, tenta traçar paralelos entre o antissemitismo europeu desde os tempos da Idade Média, de cunho religioso, e o antissemitismo político expresso pelos nazistas, procurando demonstrar que o ódio aos judeus não nasceu com a ascensão do nazismo. É um dos poucos equívocos de Hilberg. Tal esforço pode servir para localizar o antissemitismo na história europeia, mas não ajuda a entender o Holocausto. Pois se os nazistas eram antissemitas, e não parece haver nenhuma dúvida sobre isso, também não é menos verdade que os alemães não eram mais antissemitas do que, por exemplo, os franceses. Por essa razão, o paralelo traçado por Hilberg, embora confira lógica à tese de que o Holocausto seria consequência natural do antissemitismo europeu de fundo religioso, fracassa na tentativa de explicar por que razão foram os alemães, e não qualquer outro povo da Europa, tão ou mais antissemitas do que eles, os protagonistas do grande massacre dos judeus.

Nada disso tira o brilho do pioneirismo de Hilberg. Em 1961, quando sua obra foi lançada, não havia nada remotamente parecido com o que o historiador trouxe à luz. Ele foi o primeiro a tratar de toda a máquina de destruição, e não apenas de seus efeitos mortais nas câmaras de gás e nos fornos crematórios. Hilberg demonstrou o papel de cada um dos elementos constituintes desse aparato, como a burocracia, a sociedade civil, o Judiciário, os empresários e os militares.

Também demonstrou que o massacre dos judeus foi um processo meticulosamente planejado. Primeiro, era preciso definir quem era e quem não era judeu. Feita essa discriminação, os considerados judeus sofreram paulatina perda de direitos, até a segregação total em guetos e a posterior deportação para os campos de extermínio. Nada disso aconteceu da noite para o dia nem se deu sem obstáculos, mas o fato é que houve tempo suficiente para que a sociedade alemã aceitasse o processo que resultou no desaparecimento de vizinhos e conhecidos judeus, de uma hora para outra.

Ao fazer o relato da Solução Final propriamente dita, Hilberg deixa sua marca de grande historiador. Ele descreve o genocídio com a frieza dos números documentados, sobre os quais não há dúvidas, pois foram produzidos pela zelosa contabilidade nazista. Hilberg não se sentiu obrigado a dramatizar o que já era profundamente chocante: o extermínio em larga escala dos judeus no Leste da Europa foi realizado com método e com extrema clareza de objetivos.

Hilberg dá destaque especial para as deportações dos judeus. Era um esforço para o qual os nazistas dependiam do auxílio dos cidadãos e dos governos dos países que ocuparam durante a guerra. E então aparecem os heróis, como muitos dinamarqueses que resolveram proteger os judeus, e os indiferentes, que até se incomodaram no início com a perseguição, mas logo deixaram de se importar – caso dos holandeses, por exemplo. Há detalhes também sobre a atitude ambígua dos italianos, sobre a colaboração quase completa dos romenos, sobre a indiferença da Igreja Católica na Hungria, sobre a participação ativa dos sérvios, e assim por diante. O Holocausto, como mostra o mosaico de Hilberg, foi um empreendimento europeu, e não apenas alemão.

Hilberg se esforça para deixar claro que o genocídio dos judeus da Europa, que em suas contas cobrou 5,1 milhões de vidas, não teria sido possível sem extensa cooperação de muitos países e das próprias lideranças judaicas que colaboraram com os nazistas – tese que Hilberg sustentou até o fim de sua vida, assim como fez, de forma polêmica, a pensadora alemã Hannah Arendt. Hilberg, aliás, defendeu Arendt em várias ocasiões, quando ela estava sendo duramente atacada por defender que o colapso moral atingiu igualmente nazistas e suas vítimas. 

Mas o aspecto central da obra de Hilberg supera eventuais controvérsias teóricas: seu trabalho permitiu o entendimento minucioso da engenharia da morte, demonstrando que o genocídio não foi resultado de um surto coletivo de loucura deflagrado por um celerado cabo austríaco, mas de bem planejadas ações de homens absolutamente normais, muitos deles respeitáveis senhores de uma sociedade orgulhosamente civilizada.

A DESTRUIÇÃO DOS JUDEUS EUROPEUS

Autor: Raul Hilberg

Tradução: Carolina Barcellos e outros

Editora: Amarilys (2 vols., 1.664 págs., R$ 340)

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