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Livro faz elogio ao inútil e à livre busca de saberes

Ensaios falam do perigo de nos fixarmos só no lado prático da vida

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Dirce Waltrick do Amarante,
ESPECIAL PARA O ESTADO

18 Março 2016 | 20h26

A Utilidade do Inútil: Um Manifesto (Zahar, 2016) é uma coletânea de ensaios breves do pensador italiano Nuccio Ordine que lança luz e instiga a discussão sobre o papel dos saberes considerados inúteis, por não visarem ao lucro, “no cultivo do espírito e no crescimento civil e cultural da humanidade”.

O livro de Ordine, diria, é, acima de tudo, um elogio à literatura, à cultura e à educação, que, para ele, “constituem o líquido amniótico ideal no qual podem se desenvolver vigorosamente as ideias de democracia, liberdade, justiça, laicidade, igualdade, direito à crítica, tolerância, solidariedade e bem comum”.

Para discutir o tema da “utilidade do inútil”, Ordine se vale de citações de diferentes escritores e filósofos, entre eles, Vargas Llosa, Oscar Wilde, Eugène Ionesco, Aristóteles, Platão, Kant. O absurdista Ionesco, que ganha destaque nas suas considerações, chama a atenção para o perigo de nos voltarmos apenas para o lado prático da vida e, em razão disso, nos transformarmos num autômato (num rinoceronte) e numa presa fácil de um “fanatismo delirante”, de cunho religioso, político, seja ele de direito ou de esquerda, etc.

Ordine incita-nos a fazer dos luxos inúteis, como a arte, a literatura e a poesia, um instrumento útil de oposição à barbárie, “num imenso celeiro para preservar a memória e os eventos injustamente destinados ao esquecimento”.

Ainda assim, como afirma Heidegger, também citado pelo autor, parece que, “para o ‘homem atual’, é realmente cada vez mais complicado mostrar interesse por algo que não implique um uso prático e imediato com ‘objetivos técnicos’”.

Quantos, hoje em dia, fariam como Sócrates, que antes de morrer se exercitava na flauta para aprender uma nova ária?

Os ensaios de Ordine defendem a tese de que uma nação em crise não pode virar as costas à cultura e à educação; ao contrário, é fundamental que ela duplique “recursos destinados ao saber e à formação dos jovens, para evitar que a sociedade caia no abismo da ignorância”, pois, segundo ele, a ignorância é sempre mais perigosa do que a miséria.

No entanto, o que vemos acontecer é, exatamente, o oposto. Em momentos de crise econômica, corta-se o supérfluo, o luxo e as inutilidades. A cultura, vista como frivolidade, é a primeira a ser eliminada.

Acrescentaria à lista de escritores citados por Ordine o poeta Manoel de Barros, que tratava dos temas “inúteis” e considerava o artista “um fazedor de inutensílios” necessários ao aprimoramento do homem.

Por imposição do mercado, lembra Ordine, até mesmo as livrarias se desfiguraram e perderam uma importante característica: a de ser um lugar onde textos fundamentais podiam ser encontrados. Hoje, diz o pensador italiano, as livrarias não passam de um ponto de vendas de “obras da moda” e “a liberdade de escolha dos livreiros é cada vez mais limitada pelos interesses dos grandes distribuidores, que impõem suas publicações de acordo com critérios puramente comerciais”.

As universidades, chamadas por Ordine de “empresas”, e os professores, chamados de “burocratas”, também são alvo de crítica mordaz. A respeito dos professores, o escritor afirma que eles estão cada vez mais ocupados e preocupados em “preencher formulários, fazer cálculos, produzir relatórios (às vezes inúteis) para estatísticas[...]. Assim, o ano corre veloz ao ritmo de uma incansável métrica burocrática [...]e de intermináveis reuniões de assembleias e colegiados”.

Um ensaio do pedagogo norte-americano Abraham Flexner, que acompanha o volume, corrobora as teses de Ordine.

Flexner relata a sua experiência como professor na Universidade Princeton, onde ele defendia, com outros colegas, a liberdade de espírito em detrimento da palavra “utilidade”. Segundo o pedagogo, “as instituições de ensino deveriam dedicar-se ao cultivo da curiosidade, ao estudo por si mesmo. E conclui, “sem nos prometer nada, alimentamos a esperança de que a busca livre e desinteressada do conhecimento inútil poderá trazer resultados práticos no futuro, como trouxe no passado”.

A utilidade do inútil talvez seja a de “fazer entrar a luz no espírito humano”, como disse Victor Hugo, também citado por Ordine.

* DIRCE WALTRICK DO AMARANTE É AUTORA DE, ENTRE OUTROS, DE JAMES JOYCE E SEUS TRADUTORES (ILUMINURAS) E ASCENSÃO (CULTURA E BARBÁRIE)

A UTILIDADE DO INÚTIL - UM MANIFESTO

Autor: Nuccio Ordine

Trad.: Luiz Carlos Bombassaro

Editora: Zahar (224 págs.;R$ 39,90; R$ 24,90 o e-book)

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