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Cultura

Dalton Trumbo

Livro e filme detalham carreira de Dalton Trumbo, que enfrentou o macarthismo

Biografia de Bruce Cook revê as contradições e convicções do roteirista

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Luiz Carlos Merten,
O Estado de S.Paulo

30 Janeiro 2016 | 05h00

Nos anos 1950, Dalton Trumbo era o roteirista mais bem pago de Hollywood. Tinha prestígio, dinheiro. Mas então ocorreu o triste episódio da caça às bruxas do macarthismo. Trumbo integrou um grupo chamado Hollywood Ten, Os Dez de Hollywood, que invocou a quarta emenda da Constituição dos EUA, que garante o direito de expressão, recusando-se a depor no Congresso, na comissão que investigava atividades antiamericanas, mas foi incriminado e entrou para a lista negra, sendo impedido de assinar roteiros em Hollywood. Fim da história? Não. Trumbo seguiu escrevendo, usando testas de ferro ou pseudônimos.

Em 1957, o vencedor do Oscar foi Richard Rich, por The Brave One, que não apareceu para receber o prêmio pelo simples motivo de que era Trumbo. Descoberta a identidade e desmontada a farsa de que o roteirista não poderia mais trabalhar na indústria, o produtor (e diretor) Otto Preminger contratou Trumbo para escrever o roteiro de Exodus - e lhe deu o crédito. O ator e produtor Kirk Douglas fez o mesmo e contratou Trumbo para seu épico Spartacus.

Tudo isso é história real, mas vale a pena lembrar agora que está saindo no Brasil Trumbo, a biografia de Dalton Trumbo que escrita por Bruce Cook. Chega às livrarias simultaneamente com a cinebiografia, dele adaptada e que foi realizada por Jay Roch. Bryan Cranston, de Breaking Bad, é quem faz o papel. Está indicado para o Oscar, mas não deve ganhar porque este ano os indicadores favorecem o astro Leonardo DiCaprio por O Regresso, de Alejandro González Iñárritu, que estreia na quinta, 4/2.

O filme tem recebido boas críticas. O diretor concentra-se na fase adulta e no episódio da caça às bruxas. O livro é mais abrangente. Recria a vida do jovem Dalton em Grand Junction, Colorado, onde seu pai foi xerife, e não muito bem-sucedido. Isso provocou uma reação em Trumbo (filho). Ele não queria repetir a experiência de vida do pai. Queria ser bem-sucedido. Viveu a contradição. Um comunista rico, um roteirista milionário. Depois da lista negra, a situação mudou e teve dificuldades financeiras até o fim da vida.

Bruce Cook chegou a entrevistar Trumbo, que morreu em 1976, aos 71 anos, mas admitia - ele também morreu - que se baseou em testemunhos e escritos do autor. Em 1947, o jornal The Hollywood Reporter publicou uma lista de profissionais de Hollywood supostamente envolvidos com o comunismo. Trumbo era um deles. Foi o estopim para que, no Congresso, o reacionário senador Joseph McCarthy mobilizasse colegas de direita para criar a Comissão de Atividades Antiamericanas, que deflagrou a caça aos comunistas. Cook conta que ficou embaraçado demais para fazer a Trumbo a pergunta que não queria calar - afinal, ele era mesmo comunista? O próprio Dalton contou-lhe que se uniu ao Partido Comunista, casualmente, em 1943. Desligou-se em 1948, voltou ao partido brevemente nos anos 1950, até para mostrar que não se intimidara.

Trumbo diz a Cook que a passagem pelo partido não o marcou mais que algum resfriado que tenha tido. A radicalização de sua natureza contestadora ocorreu quando trabalhou na Davis Perfection Bakery. Organizou e participou de greves, mas já estava mais preocupado com a própria carreira. Uma das entrevistadas, Karen Horney, acredita que sua busca pelo sucesso era uma espécie de vingança pelo pai. Embora libertário, Trumbo nunca se posicionou contra o stalinismo, nem acreditava que tivesse havido. Escreveu outros grandes roteiros: Sua Última Façanha, de David Miller; O Homem de Kiev, de John Frankenheimer, adaptado do livro de Bernard Malamud. Dirigiu Johnny Vai à Guerra, baseado em seu livro Johnny Got His Gun, que muita gente considerava impossível de adaptar. Cook nos leva a compartilhar a admiração por um intelectual que pode ter tido suas contradições, mas foi guerreiro.

TRUMBO - A VIDA DO ROTEIRISTA GANHADOR DO OSCAR QUE DERRUBOU A LISTA NEGRA DE HOLLYWOOD

Autor: Bruce Cook

Trad.: Catharina Pinheiro

Edit.: Intrínseca (368 págs.,R$ 31,52)

 

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