FABIO MOTTA|ESTADÃO
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Livro de Pedro Doria reconstrói a história dos movimentos tenentistas da década de 1920

'Tenentes – A Guerra Civil Brasileira' é uma narrativa trepidante, à maneira de um filme, composta de planos curtos que, às vezes, lembram uma biografia coletiva

Elias Thomé Saliba, Especial para O Estado de S. Paulo

23 Julho 2016 | 04h00

Há 92 anos, precisamente em julho de 1924, a cidade de São Paulo foi bombardeada. Pouco conhecido e rotulado de “Revolução de 1924” nos manuais escolares, o espantoso episódio resultou num absurdo bombardeio que durou 29 dias e tinha como objetivo desalojar as tropas rebeldes dos tenentistas que haviam ocupado a cidade – mas acabou atingindo residências, indústrias, escolas, hospitais e igrejas –, deixando um saldo trágico de mais de 500 mortos, 4 mil feridos e quase dois mil imóveis destruídos. Entre muitos outros, este é um dos eventos detalhadamente reconstituídos por Pedro Doria em Tenentes – A Guerra Civil Brasileira.

Em história os fatos não mudam, o que muda é o enredo, a trama, que funciona como uma rede que entrelaça os acontecimentos. Como bom historiador ou competente repórter, Doria sabe disso, e reconstrói a história dos movimentos tenentistas da década de 1920 com uma narrativa trepidante, à maneira de um filme, composta de planos curtos que, às vezes, lembram uma biografia coletiva, com a diferença que a descrição dos principais personagens se faz por um rápido esboço, suficientemente capaz de segurar o leitor para este não perder o fio da trama.

Mas o livro passa longe da narrativa tradicional, introduzindo episódios menores, dramáticos, concentrados de significado, em que os minutos valem séculos e a história se mistura com o contingente e o imponderável. Aí, aparecem pessoas comuns, arrancadas da sua rotina cotidiana – como Deodoro da Fonseca, um menino de 7 anos que levava o nome do Marechal, mas que quase morreu na ressaca carioca de 1921; ou Boaventura Fernandes, uma empregada doméstica moradora na Penha que, em pleno bombardeio de São Paulo, após servir café para um policial bêbado das forças legalistas, viu o marido ser assassinado pelo mesmo soldado. Figurantes mudos que nunca mereceram nenhuma linha na História, mas se revelam em pequenas notícias, nas entrelinhas das grandes manchetes dos jornais.

Os personagens principais também estão presentes, em retratos e diálogos rápidos e precisos, sobretudo Prestes, Juarez Távora e Eduardo Gomes, colegas na Academia Militar, em Realengo – jovens que não perdiam nenhuma das missas domingueiras do Padre Miguel, sendo conhecidos na intimidade da escola como a “tríade dos vicentinos”. Ou o incrível Siqueira Campos, definido por Juracy Magalhães como “um samurai perdido no Brasil” e cuja morte precoce num acidente aéreo afetou profundamente os lideres tenentistas. Com menos de 30 anos e bem antes de amadureceram para as mais variadas ideologias, os jovens tenentes – tanto no heroico episódio dos 18 do Forte quanto na guerra de São Paulo em 1924 – criaram uma mística que, bem ou mal, permeou futuras gerações de militares brasileiros.

A envolvente narrativa articulada por Doria mostra como esta iconoclastia dos jovens tenentes não apenas catalisou as crises brasileiras daquela época como esbarrou no paredão granítico das elites políticas, conciliadoras e camaleônicas, incapazes de controlar sedições e revoltas. Aqui, aparecem personagens menos brilhantes, algo histriônicos, que inauguram uma política fundada essencialmente na parelha amigo-inimigo, alheia a toda consideração ética. Arthur Bernardes chegou a declarar que “como presidente da República foi apenas um chefe de polícia”. Infelizmente, um chefe de polícia responsável por ferir vários artigos da Convenção de Haia, ao ordenar o bombardeio indiscriminado de edifícios e jogar bombas sobre a população civil dentro do próprio território do País. Ou Carlos de Campos, presidente de São Paulo em 1924, o qual, no momento em que os tenentes já tinham resolvido evacuar a capital, iniciou uma afoita retirada dos Campos Elísios, deixando o governo acéfalo e entregando a cidade e a população aos rebeldes. Em cenas dignas de um pastelão, por sugestão de um suposto espia, Campos tinha se retirado para outro prédio – da Secretaria da Segurança – exatamente o local onde a primeira bomba acabou caindo. “Foi a primeira vez na história militar que, em vez da bala procurar o alvo, foi o alvo que procurou a bala”, ironizou Oswald de Andrade. Como sempre, na história brasileira, seria cômico não fosse trágico.

Doria sugere que o Brasil mudou muito desde 1922, mas a ideia de que seria legítimo apear governantes do poder ainda perdurou no Exército nacional e, para mudar, foram necessárias duas ditaduras, a civil de 1937 e a militar de 1964 – que deixaram um rastro de sangue em seus porões. Mas o leitor não necessariamente precisa aceitar tal conclusão. Pois a vantagem desse tipo de enredo, bem construído e documentado, entremeado por biografias das vidas passadas –, é que visualizamos todas as alternativas apresentadas aos personagens daquela época que viveram, como nós, um futuro do passado: uma vida cheia de alternativas possíveis, esperanças e temores. Afinal, a história não nos fornece lições, indica apenas novas perspectivas.

TENENTES – A GUERRA CIVIL BRASILEIRA

Autor: Pedro Doria

Editora: Record (252 págs.; R$ 42,90)

ELIAS THOMÉ SALIBA É PROFESSOR TITULAR DA USP E AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE RAÍZES DO RISO

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