Sesi-SP Editora
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Livro de Fritz Reck, crítico e vítima do nazismo, apresenta um herói improvável

Obra traduzida no Brasil por André Caramuru Aubert reúne as impressões do escritor prussiano a respeito do nazismo na Alemanha. Trata-se de um herói improvável.

Marcos Guterman, O Estado de S.Paulo

24 Agosto 2017 | 06h01

O Diário de um Desesperado não é uma obra qualquer. É a prova de que é possível preservar o senso crítico e a inteligência mesmo em momentos nos quais a sociedade parece inteiramente entregue ao pensamento totalitário.

Escrito entre 1936 e 1944, o livro, traduzido no Brasil por André Caramuru Aubert como parte de sua dissertação de mestrado em História na USP, reúne as impressões do escritor prussiano Friedrich Percival Reck-Malleczewen, ou simplesmente Fritz Reck, a respeito do nazismo na Alemanha. Trata-se de um herói improvável.

Fritz Reck não era um amante da democracia a denunciar a tragédia autoritária que se abatia sobre seu país; ao contrário, o aristocrático autor menosprezava profundamente a ideologia burguesa que louvava as liberdades individuais e as maravilhas do mundo moderno. Nesse sentido, Fritz Reck era prisioneiro da nostalgia comum das classes altas a respeito de um passado idealizado, atropelado pela maquinaria, pelo progresso e pelos maus modos da ralé que ganhava poder.

A despeito disso, Fritz Reck teve a capacidade de perceber que o nazismo era muito mais do que desqualificados no comando. Era a destruição da civilização, pela qual tanto os aristocratas como ele quanto os democratas que ele desprezava tinham de lutar. Dono de um humor implacável, o autor, em poucas e precisas palavras, coloca o nazismo em seu devido lugar – e isso num momento em que a Alemanha experimentava imenso júbilo pela suposta genialidade de Hitler, ao vergar a Europa a seus pés depois das humilhações da Primeira Guerra.

O regime nazista, escreveu Fritz Reck, “simplesmente descartou a decência como se fosse excesso de bagagem”. Numa entrada de 1936, ao comentar as iniciativas do governo para envolver a sociedade no Estado totalitário, o autor diz que “temos (...) todas as possibilidades de perder o pouco que resta de nossa liberdade de movimento e de nos tornar, então, completamente prisioneiros dessa horda de macacos depravados que há três anos tomaram de nós o poder”.

Como fica claro, Fritz Reck se queixa de que o poder lhes foi tirado por bandoleiros, mas permanece fiel ao pensamento segundo o qual a Alemanha precisava de um líder forte contra a “confusão” instaurada pela República de Weimar, que substituíra a monarquia em 1918. Esse comandante não podia ser Hitler, “aquele tipo de cigano de franja ao qual foi dada a tarefa de nos liderar na hora da necessidade”.

O sarcasmo permeia toda o relato. Ao se referir à Noite das Longas Facas, o grande expurgo nazista de 1934, Fritz Reck ironizou a campanha nazista para convencer a opinião pública de que o assassinato brutal era um mal necessário. Citando uma das vítimas inocentes, o crítico de música Willi Schmid, o autor diz que ele foi “vítima de uma desafortunada confusão de identidade”: “Parece que os nazistas, procurando pelo Schmid deles na lista telefônica, mataram toda uma coluna de Schmids até chegarem àquele que procuravam. Isso é conhecido como ‘é melhor prevenir do que remediar’”. 

Ao comentar que Hitler em pessoa participou do massacre, capricha na zombaria: “Um adorável começo para nosso novo regime, no melhor estilo hamletiano, prometendo nos trazer todos os tipos de emoção!”.

Mas as críticas de Fritz Reck não se limitam a Hitler e seus sequazes. Os alemães, em geral, são vistos pelo escritor como “massas” que estavam “drogadas” por “festivais populares, construções inúteis, toda e qualquer coisa para manter o homem da rua sem um momento sequer para refletir”. 

E então ele faz a mais incômoda das perguntas que um alemão daquela época – bem como qualquer um de nós nos dias atuais, depois da experiência do nazismo – deveria se fazer: “O quanto realmente sabemos sobre os subterrâneos e cavernas que se ocultam sob as estruturas de uma grande nação, sobre essas catacumbas psíquicas nas quais todos os nossos desejos ocultos, nossos sonhos pavorosos e espíritos malignos, nossos vícios, nossos pecados esquecidos e nunca expiados foram, por gerações, enterrados?”. Como é que o regime de Hitler, desde seu primeiro dia, sem que os homens de bem oferecessem qualquer resistência, “inverteu conceitos como meu e teu, certo e errado, virtude e vício, Deus e Demônio?”.

Há muitos outros exemplos da perplexidade – e do desespero – desse homem incomum, que morreu em 1945 no campo de concentração de Dachau. São raríssimos, na literatura produzida pelos contemporâneos do nazismo, relatos como esse, repleto de brutal clareza sobre a natureza do que ali estava sendo realizado: o homem absolutamente comum revelando-se um entusiasmado genocida. 

Para Fritz Reck, os historiadores que se dedicassem a escrever a história do Terceiro Reich deveriam resumir tudo em um só tema: “A revolta dos carteiros e dos professores primários”.

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