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ENTREVISTA: Berta Waldman

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Dalton Trevisan

Livro de ensaios sobre Dalton Trevisan ganha edição ampliada

Berta Waldman faz uma análise do percurso da escrita do escritor conhecido como o Vampiro de Curitiba

Ubiratan Brasil

11 Abril 2015 | 03h00

Em 1982, a professora e crítica Berta Waldman lançou Do Vampiro ao Cafajeste, conjunto de ensaios que parecia definitivo sobre a obra de Dalton Trevisan. Fruto de sua tese de doutorado na USP sob orientação de Antonio Candido, o livro defende teses sólidas, como o valor da repetição no texto de Trevisan: trata-se de um escritor programático e obsessivo, que instrumentaliza a repetição, utilizando-a como matéria literária. 

Passados 33 anos, Berta reuniu mais 17 artigos publicados desde então para encorpar a obra e formar Ensaios Sobre a Obra de Dalton Trevisan (Editora Unicamp), que será lançado quinta-feira, dia 16, na Livraria da Vila da Rua Fradique Coutinho. A sofisticação do autor se encontra com o apuro da crítica, como observa Vilma Arêas, na orelha do livro.

Um dos maiores escritores brasileiros, o recluso Dalton Trevisan criou personagens e situações de significado universal, em que as tramas psicológicas e costumes são recriados por meio de uma linguagem concisa e popular. Sobre o assunto, Berta respondeu, por e-mail, às seguintes questões. 

A nova edição de seu livro ganhou 17 artigos. Qual foi essencialmente o acréscimo crítico?

Nesta nova edição, a parte inédita ultrapassa em algumas páginas o livro, conforme ele foi publicado há décadas, pela primeira vez. Era o meu doutoramento. A questão é que continuei interessada na obra de Trevisan e fui escrevendo sobre ela durante todos esses anos. Juntar o conjunto facilita a leitura para quem estiver interessado na obra do autor. Como meu interesse se mantém, acho natural que continue a estudar a obra. É uma questão de escolha e aí levo vantagem: eu posso escolher o autor, com cuja obra trabalhar, enquanto ele escreve para quantos quiserem lê-lo.

Quais características da obra de Dalton Trevisan a tornam ainda atual, apesar de longeva?

A obra de Dalton Trevisan tem uma marca. O leitor a reconhece pelo estilo econômico, pela matéria tratada, pela forma como o autor conduz seu objeto. A obra como um todo tem na mira o mundo e as pessoas que o habitam, vistas, porém, a partir de um microcosmo que é Curitiba. Apesar das mudanças que ocorrem no transcurso da criação da obra, há um fulcro central que permanece: o desencanto.

É possível dizer que os textos de Trevisan se organizam como um jogo de espelhos, criando e desmontando paralelismos? 

Os textos de Trevisan captam a repetição do cotidiano vivido por personagens. O movimento progride, mas a busca patina; as histórias retornam, as personagens se repetem numa multidão de oprimidos e fracassados enquanto as imagens apontam para a representação de um mundo que é o nosso, mas que nosso desejo rejeita. Assim, acho que você tem razão. Os contos são especulares, ainda que diferentes uns dos outros.

Ao mesmo tempo, como a senhora já observou em suas análises, os textos de Trevisan têm como uma das marcas a ausência de mudanças, que se manifesta na repetição de situações e personagens. É o bom uso, digamos, desse sistema que o torna tão original?

Se é verdade que os contos de Trevisan são movidos pela repetição, também é evidente que eles são diferentes uns dos outros. De uma neutralidade similar à neutralidade em que se inserem e que as cria, as personagens carregam a máscara irremovível de sua atuação no cenário do cotidiano. São elas e suas histórias sempre repetidas que nos explicam e comunicam o cotidiano que é delas e que é nosso também. Formalmente, há um projeto implícito na escrita de Trevisan que aponta para a redução do texto, em que a meta é o silêncio.

A obra de Trevisan já foi comparada, em alguns aspectos, à de Valêncio Xavier, especialmente por conta dessa repetição e também da montagem como problematização da autoria. O que a senhora pensa sobre isso?

O que vejo em comum em Valêncio Xavier (falecido em 2008) e Dalton Trevisan é que ambos são escritores muito instigantes e particulares. Mas cada um a seu modo. Valêncio Xavier, além de escritor, foi jornalista, consultor de imagem em cinema, roteirista, diretor de TV. Foi muito premiado como cineasta. Em seus textos, o trato com a imagem transparece. Ele, com certeza, tem o perfil que explica sua proximidade com Dalton Trevisan. Consta que foram amigos. Mas, no nível da expressão literária, propriamente, eles são diferentes.

É possível notar a obsessão dele pela concisão e, por isso, tende a escrever cada vez mais curto. Qual seria sua intenção?

O exercício da concisão é praticado por Trevisan desde seus primeiros escritos. Tanto que em meu doutoramento o argumento que tentei sustentar apontava para o enxugamento da linguagem como a tendência forte da obra do autor, o que se comprova em suas ‘ministórias’, seus haikais. Qual não foi a minha surpresa quando o autor publicou A Polaquinha, uma novela, logo em seguida?! Fiquei bem sem graça, parecia que tinha me enganado cabalmente, mas percebi que a novela não era obstáculo para o enxugamento estrutural da linguagem de Trevisan, o que se comprova até hoje.

Na possibilidade de conversar com Trevisan, sobre quais temas gostaria de falar?

A única possibilidade de “falar” com Trevisan é essa que venho praticando desde que comecei a ler seus livros e a escrever sobre eles. Imaginei encontrá-lo quando li sua obra pela primeira vez, mas logo entendi que o caminho não era esse.

Por que Dalton Trevisan é conhecido como “O Vampiro de Curitiba”? 

Cito um trecho que circula na internet, assinado por Duílio Gomes, que assim descreve o autor: “Seu nome: Dalton Trevisan. Seu instrumento de trabalho: o conto. Sua vítima: o leitor incauto. Sua meta: amedrontar, deliciando. Sua cara: pouco veiculada. Seu endereço: desconhecido. Seu diálogo com o público: um monólogo interior. Sua foto mais conhecida: a tirada por um repórter com teleobjetiva atrás de uma árvore em uma tarde de outono. Seu número de telefone: nem mesmo sua família sabe”.

ENSAIOS SOBRE A OBRA DE DALTON TREVISAN

Autora: Berta Waldman

Editora: Unicamp (288 págs; R$ 58)

Lançamento: Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho, 915). Dia 16, 18h30

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