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Livro analisa a relação de grandes escritores, como Hemingway, com a bebida

Obra mostra motivos que levaram seis autores americanos a beber e quais consequências tal vício teve sobre a carreira literária de cada um

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Ubiratan Brasil,
O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2016 | 05h00

A jornalista e pesquisadora inglesa Olivia Laing tem preferência pela solidão como assunto de trabalho. Um de seus recentes livros se intitula The Lonely City: Adventures in the Art of Being Alone (A Cidade Solitária: Aventuras na Arte de Estar Sozinho). Outro bom exemplo chega agora ao Brasil, Viagem ao Redor da Garrafa, que traz como subtítulo Um Ensaio Sobre Escritores e a Bebida.

Trata-se de um misto de reportagem, biografia e crítica literária sobre o comportamento conturbado exibido por seis escritores americanos que foram viciados em álcool. Todos gênios: F. Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, Tennessee Williams, John Berryman, John Cheever e Raymond Carver. A lista podia ser maior, mas Olivia, que cresceu em um lar regado a bebida, preferiu aqueles cuja trajetória se assemelhasse – na vitória e na tragédia.

O vício parece condição inerente ao sucesso, como observa o pesquisador Lewis Hyde – em seu ensaio Álcool e Poesia, ele observa: “Quatro dos seis americanos que venceram o Nobel de Literatura eram alcoólatras. Cerca de metade de nossos escritores alcoólatras acabou por dar fim à própria vida”.

Por que preferiu concentrar o foco no estado de isolamento que todos indivíduos experimentam, como solidão e alcoolismo?

Eu estou interessada nos estados traumáticos e problemáticos, e em utilizar o trabalho e a vida de artistas como um instrumento para investigá-los. Não sei qual será a atração, só sei que é muito forte.

Muitos escritores eram alcoólatras. Por que escolheu focalizar naqueles seis? Há ligação entre eles, além do alcoolismo?

Eu queria analisar a relação entre a escrita, a bebida e a masculinidade, típica da narrativa do século 20, infelizmente muito americana. Por isso, escolhi pessoas cuja existência refletiu isso de diferentes maneiras, porque assimilaram o mito do escritor beberrão ou porque lutaram com a masculinidade de maneiras diferentes. Entre eles, enquanto grupo também, existiu todo tipo de elementos comuns. Hemingway e Fitzgerald eram amigos, embora a amizade tenha desandado à medida que a dedicação ao álcool foi avançando. Cheever e Carver lecionaram juntos. Williams e Hemingway se conheciam. Cheever era obcecado por Fitzgerald, Berryman ficou perturbado por causa de Hemingway. E paralelos interessantes também podem ser observados em suas vidas. Muitos tiveram mães muito dominadoras e pais fracos; quase todos lutaram com sua sexualidade e todos sofriam com sua ansiedade e depressão.

Por que o mito do autor alcoólatra é aparentemente uma história particularmente americana?

Acho que existe uma vertente americana, que me interessava muito, e que tem a ver com um determinado tipo de masculinidade rude. Mas há vários tipos de escritores alcoólatras. Eu poderia ter escrito um livro muito diferente sobre os escritores britânicos, ou sobre as mulheres, um livro que, aliás, espero sinceramente que alguém escreva – sobre Jean Rhys, Marguerite Duras, Patricia Highsmith, estas mulheres maravilhosas e complexas.

Grande parte deste livro trata dos escritores, mas fala também de uma jornada pessoal, de escritora, sobre o fato de pertencer a uma família de alcoólatras. Qual é a melhor maneira de abordar este tema?

Sim. Isso foi em parte o que me levou a escrever o livro, e o motivo pelo qual eu estava tão ansiosa por compreender o alcoolismo e procurar entender o problema. Achava também que era importante, uma vez que eu revelava a enorme dificuldade na vida destas pessoas em assumir os riscos correspondentes, e consequentemente me expor.

Hemingway dizia que “todos os escritores são mentirosos”. Então, todo texto escrito por um alcoólatra é, na realidade, um complexo processo como leitor ou crítico?

Acho que sim. Existe uma complexa relação entre a ficção e a falsidade em todo o material que consultei, desde os romances e contos publicados, que afinal são supostamente obras de ficção, até os diários e a correspondência, supostamente considerados “autênticos”. Existe uma tendência muito forte para a autojustificativa, para a criação de um mito a respeito de si próprio, para o escapismo, e a simples mentira do alcoolismo. Portanto, foi particularmente complicado desenredar tudo isto. No final, acho que havia uma forte relação na vida destas pessoas entre um grau básico de infelicidade, principalmente quando crianças, um desejo poderoso de escapismo, dirigido tanto para a arte da ficção, quanto à compulsão pelo álcool. Assim, a mesma situação fundamental produziu uma arte maravilhosa e, ao mesmo tempo, uma extrema infelicidade.

A dependência do álcool pode provocar uma espécie de dupla personalidade nas suas vítimas? Estou me referindo particularmente a Tennessee Williams.

Acredito que isso pode ser constatado em todos eles. Aliás, Tennessee Williams o afirma muito claramente – o indivíduo que gosta de beber é sempre duas pessoas, uma que tenta parar e a outra que nunca se sente saciada. E tal tensão pode ser vista em inúmeras existências como essas, entre um aspecto saudável do eu que quer permanecer sóbrio, parar de criar desastres, e o dependente, que sempre quer mais, mais e mais, quaisquer que sejam as consequências.

No seu livro, você fala muito em sexualidade – Cheever, Williams, mas também Hemingway e Fitzgerald. Parece que a bebida esteve relacionada à necessidade de provar a própria masculinidade, estou certo?

Sim, e também ao desejo de esquecer o difícil sentimento a respeito da sexualidade. Williams, que era o único gay declarado do grupo, ao que tudo indica, não tinha problemas quanto à sua sexualidade, e foi muito corajoso em sua honestidade nesse sentido, principalmente se considerarmos aquela época. Cheever, por outro lado, sentia um profundo constrangimento por desejar homens, e em grande parte o fato de ele beber era motivado pela vergonha – quase uma necessidade de afogar algo dentro de si mesmo. Afogar a dor: uma metáfora poderosa.

TRECHO

"Não surpreende que aquilo que os escritores costumam oferecer como teoria se aproxime mais do simbólico que do sociológico ou do científico. Examinando Poe, Baudelaire certa feita observou que o álcool se tornara arma ‘para matar algo dentro dele mesmo, um verme que não queria morrer’. Em sua introdução a Recuperação, romance póstumo do poeta John Berryman, Saul Bellow comentou: ‘A inspiração continua uma ameaça de morte. Ao escrever as coisas pelas quais esperara e rezara, ele sucumbia’."

VIAGEM AO REDOR DA GARRAFA

Autora: Olivia Laing

Tradução: Hugo Langone

Editora: Rocco (320 págs., R$ 44,50 em papel, R$ 29 e-book)

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