Acervo Família Marçal
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Lira Neto vai ao início do século 20 para biografar o samba em 'Uma História do Samba'

A gênese do gênero é tema do primeiro livro de uma trilogia escrita pelo jornalista

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

18 Fevereiro 2017 | 05h00

Eles eram muitos Ismaéis, Sinhôs, Cartolas, Ciatas, Dongas, Pixinguinhas e Noéis. Viviam por dias pestilentos e noites venéreas de um Rio de Janeiro em transformação, descendentes próximos de escravos driblando meganhas que os prendiam por vadiagem e porte de violão enquanto tentavam criar para suas existências um papel que nunca esteve no script. Eram pedreiros, carteiros, pintores, larápios, batedores de carteira e cafetões prontos a se esquivarem da navalha de um marido traído ou a sacarem do bolso caneta e papel que, um dia, os salvariam da invisibilidade. Eles eram sambistas.

O samba não tem criador nem nasceu por decreto. Não há pedra em residência que o batize nem pai que o reconheça em cartório. Veio por ventos soprados da África em linha reta ou rebatidos dos recôncavos baianos, entrelaçados sobre o Rio e respirados por uma gente que acabava de atingir tal condição. Rio de Janeiro, década de 1910, Teatro Rio Branco: “É um fedelho!”, disse um dos donos da casa, Cristóvão Auler, ao ver o menino de calças curtas tremendo de pânico, segurando sua flauta à espera de um teste de admissão. O fedelho era Pixinguinha. “Eu tinha gonorreia, cancro duro, cancro mole, mula, cavalo, o diabo; gemia o dia inteiro naquela cama”, lembrava Cartola anos depois de vagar pelas ruas sem destino, subindo e descendo morro e dormindo em vagão de trem depois de ver a mãe morrer e ser expulso de casa pelo pai.

Antes mesmo que o samba fosse samba, já era assim. Criado no ambiente pós-Abolição de 1888 e pré-modernização da Capital, fazendo a única ponte possível entre a miséria dos barracos que começavam a ser empilhados, a classe média e as elites que ouviam a Rádio Nacional de Francisco Alves e Mário Reis, o samba, paradoxalmente ao cenário indigesto de suas origens, não poderia surgir em momento melhor. “Era a música certa no lugar certo”, diz ao Estado o jornalista e pesquisador Lira Neto em seu apartamento em Perdizes, São Paulo. A saga que ele conta está nas linhas e nas entrelinhas de Uma História do Samba - As Origens, o primeiro livro de uma trilogia, lançado agora pela Companhia das Letras, que dimensiona o gênero ao contar histórias de seus principais personagens e, com elas, provocar a leitura paralela de uma era.

Ir atrás das verdades do samba pelas recorrências históricas seria tão confiável quanto acreditar em um livro de memórias de Carlos Imperial. Elas diriam a Lira Neto que Pelo Telefone foi o primeiro samba gravado e que seu autor inconteste é Donga. Não iriam muito além do que se sabe sobre os Oito Batutas, grupo de Donga, Pixinguinha, seu irmão China e, mais tarde, João Pernambuco. E certamente trariam o tom glorificador da genialidade de Sinhô sem especificar os sambas que ele surrupiou sem dó nem piedade de Heitor dos Prazeres. “O problema é que os jornais da época não cobriam os fatos enquanto eles aconteciam. Era uma história invisível”, diz Lira. “Eu corria o risco então de chover no molhado e aceitar a lacuna documental.” Sua saída foi um golpe de mestre inspirado pelo faro jornalístico. Sem muitos jornais a recorrer, sem testemunhas vivas e sem imagens da época, Lira percebeu que o mundo do samba tinha como habitantes homens em constante estado de suspeitos, réus e condenados por brigas, roubos, desavenças e, principalmente, andar pelas ruas em situação de desocupados. A mesma polícia que os prendeu salvou suas memórias. “Eu fui buscar as ocorrências nos arquivos das pretorias do Rio, que estão sob a guarda do Arquivo Nacional. Conseguia lá dados pessoais como nomes e filiação, além do fato que os levaram a ser fichados.”

É então uma história contada também pelo viés policial, mas que precisa ser lida com discernimento crítico. Os sambistas não eram arruaceiros incorrigíveis, mas frutos da primeira geração que sentia na pele e nas perseguições o limbo no qual a população negra se encontrou nas décadas seguintes à libertação oficial dos escravos. A vida não se tornaria imediatamente um sonho assim que as correntes fossem retiradas. Os estratos estavam organizados de forma que não incluía a ascensão racial. “A lei da vadiagem é contemporânea à Abolição da Escravatura. Como fazer para que a população alforriada tivesse uma ocupação e fosse absorvida pelas classes trabalhadoras?”, diz Lira. O choque jogava alguns em situação de criminalidade, outros em situação de sambistas e, muitos, nas duas situações.

O racismo também é irrefreável nas páginas dos jornais. O que escrevem alguns críticos sobre os shows que Os Oito Batutas fazem pela Argentina em 1922 é estarrecedor. O jornal Última Hora disse o seguinte diante do grupo do pequeno Pixinguinha: “O novo número contratado pelo empresário Cairo é um número de luto. Seus componentes são negros. E os que não o são, são morenos carregados”. Ele compara os instrumentos musicais a “buzina de automóvel e ralador de queijo”, e termina assim: “Aos que gostam de coisas estranhas, recomendamos ir ao Empire. Nós, francamente, teríamos preferido que houvesse menos negros, menos ruídos, mais bailado e mais saias. Porque a vida já tem negruras demais”.

A passagem dos batutas pela Argentina seria inglória por outras razões. Quebra de contrato com o empresário e mais gastos do que o previsível levaram o grupo à beira do desespero, fazendo com que um de seus integrantes, o violonista Josué de Barros, fosse para o tudo ou nada na pequena Río Cuarto em busca de verba para voltar ao Brasil. Não se sabe que inspiração o levou a anunciar que seria enterrado vivo no cemitério da região, cobrando uma taxa de quem quisesse vê-lo como defunto, alojado sob muitos palmos abaixo da terra sem comer e sem beber por 15 dias. Muito antes do prazo, a plateia perdeu o interesse e, antes que o cadáver de mentira se tornasse real, Josué ressuscitou.

Sinhô não teve a mesma sorte. Ao morrer, aos 41 anos, estava degenerado pela tuberculose e miserável pela injustiça. O homem chamado de “o rei do samba” foi também, para o biógrafo, o primeiro a fazer marketing com a própria imagem, massificando sua produção e controlando suas obras para evitar as apropriações indevidas que ele mesmo cometia com a obra alheia. Já o samba, ao contrário do que muitos pensaram à beira de seu caixão, hoje em vala desconhecida, só estava dando seus primeiros passos.

UMA HISTÓRIA DO SAMBA - AS ORIGENS

Autor: Lira Neto

Editora: Companhia das Letras (368 págs., R$ 64,90)

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