C. Hélie/Editions Gallimard
C. Hélie/Editions Gallimard

Leïla Slimani fala sobre a trágica história de 'Canção de Ninar', seu best-seller premiado

Escritora marroquina, que vive na França desde os 17 anos, conta suas motivações para escrever sobre uma babá que mata as crianças de quem cuidava tão bem e diz que virá ao Brasil em julho para a Flip; leia trecho

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

06 Março 2018 | 06h00

Leïla Slimani tinha um problema com o livro que estava escrevendo: ele estava ficando chato. A rotina doméstica de um casal com seus filhos, da babá com as crianças, só costuma interessar aos envolvidos. Mas eis que a realidade vem dura, brutal e trágica nas páginas do jornal e o romance ganha um novo começo – ou um novo final. 

Isso porque Canção de Ninar, obra vencedora do Prêmio Goncourt de 2016, o mais prestigioso da França, e que chega agora ao País pelo selo Tusquets, da Planeta, começa pelo fim. A mãe volta mais cedo do trabalho para fazer uma surpresa para os filhos. Encontra vizinhos histéricos, ambulâncias, a polícia. Adam está morto. Mila não vai resistir. Não é spoiler, está na orelha do livro. E as duas páginas e meia que se seguem a esse resumo e abrem o livro provavelmente são as mais chocantes que você lerá nos recentes lançamentos literários.

Depois disso, acompanhamos a dinâmica dessa família de classe média francesa. Pai, mãe, uma menina e um menino. É aquela história clássica. A mulher abre mão da carreira profissional na chegada do primeiro filho, passa a se dedicar à casa, nasce um segundo filho e a crise bate. Ela os ama, mas essa rotina a enlouquece. Ela então decide voltar a trabalhar – mesmo que seu salário sirva apenas para pagar o da babá. E Louise, a babá dos sonhos, que não só cuida das crianças, mas de cada detalhe daquele claustrofóbico apartamento parisiense, surge como um anjo na vida de Myriam e Paul. Sem terem que se preocupar com as crianças, eles progridem na profissão e vivem, enfim, uma paz burguesa.

Nascida em Rabat em 1981, a escritora marroquina radicada na França desde os 17 conta que queria fazer um livro sobre babás porque acha que elas são personagens interessantes e porque acredita que, assim, poderia explorar a relação entre as diferentes classes sociais.

“Elas alimentam as crianças, ensinam como ser, mas essas crianças não são delas. Há intimidade, os patrões dizem que são da família. Moram na casa, sabem tudo sobre a família e as crianças, mas elas não pertencem àquela casa, àquela família”, diz nesta entrevista por telefone ao Estado na tarde de ontem, 5, em que ela revela que estará no Brasil em julho, como convidada da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

Leïla, que cresceu com babá em casa e confia seus dois filhos a uma profissional, ficou chocada com a história da dominicana Yoselyn Ortega que matou as duas crianças de que cuidava em Nova York, em 2012. Leo tinha 2 anos e Lucia, 6. Ela tentou se matar em seguida, sobreviveu e, neste momento, está sendo julgada. A decisão, que deve sair em algumas semanas, é sobre onde ela cumprirá sua pena: na cadeia ou em um hospital psiquiátrico. 

A autora diz que não leu mais do que um parágrafo sobre essa história macabra, não foi a fundo em seus detalhes ou na personalidade de Yoselyn. Mas o que acontece com o pequeno Adam e com Mila, filhos de sua família fictícia, foi inspirado nessa tragédia americana.

Louise é reservada, frágil, obsessiva, perfeita. Sua história pessoal é contada pelo narrador, nunca por ela a seus empregadores. Com capítulos curtos que alternam esses cenários, vamos lendo pistas de seu mundo secreto. Para justificar a tragédia? Para culpá-la? Não, para mostrar as contradições humanas e a linha tênue que separa a sanidade e a loucura – algo que está sendo debatido num tribunal de Nova York agora e está nas páginas de Canção de Ninar

“O mais difícil foi evitar o clichê do personagem, de sua loucura. Odeio filmes e romances que mostram a loucura de forma caricatural. Todas as vezes em que ela bancava a perfeita, eu queria que as pessoas se perguntassem: ela é louca? Há algo errado? Eu sempre quis que houvesse a dúvida”, conta a autora. 

Louise não surgiu do nada. Tinha uma história profissional, as melhores referências dos pais das crianças de quem cuidou ao longo de sua vida, que vai degringolando. “Louise é solitária, pobre, triste. Ela quer pertencer a alguém, a algum lugar. Quer ficar com essa família para sempre. Mas ela enlouquece, perde o senso de realidade”, comenta Leïla.

Para a autora, esta também é uma história sobre o quanto sabemos sobre o outro, se conhecemos, de fato, quem está ao nosso lado, e sobre a impossibilidade de ser bom ou mau o tempo todo. “Ao mesmo tempo em que a babá quer fazer todos felizes, ela pode matá-los”, diz. “As pessoas estão tentando fazer o seu melhor, ser boas, ser boas babás. Mas um dia elas podem enlouquecer”, completa.

É, ainda, uma história sobre a culpa materna. Myriam quer ver os filhos crescer, quer estar ao lado deles, mas quer retomar o sonho dos tempos de faculdade de Direito e se realizar profissionalmente também. “O que é injusto é que nunca perguntamos aos homens se eles conseguem dar conta de tudo porque se eles precisam sair para trabalhar eles vão sair para trabalhar”, diz. 

E a culpa vem de dentro e de fora, diz. “Se elas trabalham demais, dizem que outros têm que tomar conta de seus filhos. Se não trabalham fora, dizem que não têm ambição. O sentimento é que nunca se pode ter tudo. O negócio é saber que não se pode ser perfeita nem como mãe e nem como profissional. Eu tento ser uma boa mãe e uma boa escritora. Não vou ser perfeita”, completa. 

Leïla estreou na literatura em 2014, com Le Jardin de l’Ogre, que também será publicado aqui. Àquela época, já tinha um menino. Venceu o Goncourt com seu romance seguinte, este Canção de Ninar, e as coisas ganharam uma nova dimensão. Os direitos da obra foram vendidos para pelo menos 36 países, mais de 600 mil exemplares foram comercializados na França e ele vai virar filme. Não para por aí.

Na Feira do Livro de Frankfurt no ano passado, quando a França foi o país homenageado, ela era um dos principais nomes da delegação. Na volta para casa, foi convidada pelo presidente Emmanuel Macron para ser uma espécie de ministra das relações francófonas. Uma mulher, escritora sucesso de crítica e de público, jovem, de origem árabe. Uma escolha estratégica num momento de relações internacionais delicadas. Também em 2017 nasceu sua filha.

“Às vezes, durante o dia, fico muito feliz com essa repercussão toda. Mas às vezes junta tudo, filhos, marido, trabalho, e fico mais ansiosa sem saber se sou uma boa mãe, uma boa mulher, uma boa escritora. Depende do dia”, brinca a escritora que já leu Jorge Amado e é fã de Clarice Lispector, a quem define como “melancólica, inquieta, uma alma frágil”.

Trecho

"O bebê está morto. Bastaram alguns segundos. O médico assegurou que ele não tinha sofrido. Estenderam-no em uma capa cinza e fecharam o zíper sobre o corpo desarticulado que boiava em meio aos brinquedos. A menina, por sua vez, ainda estava viva quando o socorro chegou. Resistiu como uma fera. Encontraram marcas de luta, pedaços de pele sob as unhas molinhas. Na ambulância que a transportava ao hospital ela estava agitada, tomada por convulsões. Com os olhos esbugalhados parecia procurar o ar. Sua garganta estava cheia de sangue. Os pulmões estavam perfurados e a cabeça tinha batido com violência contra a cômoda azul. Fotografaram a cena do crime." 

CANÇÃO DE NINAR

Autora: Leïla Slimani

Tradução: Sandra M. Stroparo

Editora: Planeta (192 págs.; R$ 41,90)

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