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Leia trecho do novo romance de Clara Averbuck, 'Toureando o Diabo'

O Estado de S. Paulo

17 Junho 2014 | 02h 00

Romance vai ser publicado de forma independente e a partir de financiamento coletivo em agosto

A escritora gaúcha Clara Averbuck idealizou e foi bem sucedida em um projeto de financiamento coletivo (crowdfunding) para realizar seu sétimo livro, Toureando o Diabo. O livro - que conta a história de Camila, escritora "que procrastina e tenta escrever" - está previsto para agosto deste ano, e abaixo o Estado publica um trecho do romance:

"As pistas indicavam que eu fritara muitos ovos nua de salto na noite anterior. Uma ressaca monstruosa nesta primeira manhã de volta à cidade grande. O que mais eu poderia fazer? Beber. Depois de duas semanas com as cigarras, a chuva e a insônia, eu só poderia mesmo sair e encher a cara de margaritas no bar do outro lado da praça. Um perigo, beber margaritas. Apaguei antes da meia-noite. Não lembro como cheguei, sei que as roupas estavam jogadas no banheiro – calcinha incluída, enrolada nas pernas do jeans – e havia um par de sapatos de salto azul ao lado de minha cama, além das cascas de seis ovos jogadas sobre a pia da cozinha. Nenhum prato foi usado. Imagino que tenha ficado com preguiça de abrir a mala para pegar meus chinelos e resolvi cozinhar com meu salto mais alto e também que tenha querido evitar de sujar pratos, mas isso é tudo que consigo explicar. Eu devia chamar a perícia.

Afora a cozinha e os sapatos azuis, a casa e a mala estavam intocadas em suas respectivas zonas. Minha casa era uma maçaroca de memórias. Eu guardava as garrafas dos dias bons com as memórias dentro, guardava as chaves de todos os lugares onde morei, guardava caixas e mais caixas de toda a sorte de papel. Isso pode virar doença, né, e a pessoa pode morrer afogada em apego e passado. Ai, minha casinha cheia de coisas que acumulo há anos e anos. Muito livro. Muito disco. Muito sapato. Se tentassem assaltar minha casa, só conseguiriam vender itens em brechós e sebos por uma mixaria. Aliás, eu mesma deveria fazer isso. Uma hora dessas. Uma hora dessas eu devia abrir as janelas para o sol entrar, as caixas para a poeira sair e me livrar de tudo aquilo em meio de uma inevitável crise de rinite.

Tomar um banho e escrever, então, que foi pra isso que voltei pra essa cidade. Nenhuma saudade das cigarras, mas esse ar aqui do centrão não ajuda ninguém. Já sinto minha pele murchando. Essa água de cano velho também não ajuda em nada, saudade da água pura do meu chuveiro do chalé. Saudade alguma de estar isolada. Nem me importo com o som insuportável das crianças na escola pública ao lado burlando as leis do estado laico e rezando o pai-nosso antes das nove. Mentira, me importo sim, que coisa infernal. E eles não podem fazer isso, podem? Quer dizer, não as crianças, as freiras. A escola é pública, o Estado é laico e isso não deveria acontecer, as freiras não deveriam fazer isso. Mas é menos pior do que a Igreja Evangélica com seus pastores assassinos da língua portuguesa que ficava nas costas de meu outro prédio, o grande motivo que me fez largar a Vila Mariana e vir para o Centro. Quem consegue escrever com pregação? Eu não. Mas agora vai. Agora vamos.

I.

O fato é que eu estava farta daquilo tudo. Farta. Naqueles quatro anos de casamento, eu havia passado de escritora a gerente de boteco, de mulher a mulher de alguém. Mulher dele. Incapaz de admitir que estava apaixonado por uma lá, ele quicava no jogo da outra e eu assistia, com dor e tédio. Ele não ia se dar conta mesmo? Não, não ia.

A coisa toda aconteceu da pior maneira, como sempre. Ela ligou, eu atendi e uma sombra tomou conta do ambiente inteiro. Passei o telefone pra ele, tirei meu aventalzinho customizado, joguei por cima dos limões e me fui para nunca mais voltar. Sem escândalo, sem porra nenhuma. Apenas chega. Chega. Chega de migalha, chega de fazer conta, chega de gerenciar bar e a vida dos outros. Sem palhaçada. Sem gritaria, sem facada, sem incêndio e sem loucura. Eu sou uma dama. Posso até cuspir, mas sou uma dama. E já estava mais do que na hora da dama vazar daquela situação.

De mulher de alguém

a mulher de ninguém.

Assim é bem melhor.

É. Foi. O começo foi. O problema ali é que está parecido demais com a minha vida. Não foi bem assim, mas foi meio que isso. Eu nem sei mais mesmo como foi; depois que escrevi, nem consigo lembrar da verdade. Eu vivo de fazer versões da vida que não são verdade, mas todo mundo acha que é diário, que é confessional. Quero ver chamar literatura de homem de confessional. Jamais aconteceu, né? Só mulheres têm pecado pra confessar.

Preciso mudar umas coisas. A profissão dela. Pintora, não escritora. Já dá uma disfarçada. Artistinha. Aí ela que pintou as paredes do bar e ainda olha pra trás ao partir, abandonando o relacionamento e a obra para o passado. Bem dramático. Vou mudar. E também não sei sobre isso de não fazer escândalo. Talvez a situação merecesse um escândalo. Uns copos quebrados, não? Derrubar todos os copos do balcão como um jogador de xadrez derruba tudo após uma derrota? Sei lá se jogadores de xadrez fazem isso também. Mas o meu fez, aqui dentro da minha cabeça.

Vou reescrever isso aí. Mas foi. Um parágrafo foi. É melhor apagar e começar de novo, ficar remendando não presta, nunca presta. Tinha um começo bom em um caderno, eu acho, naquele caderninho rosa. Vou procurar.

Não sei onde está. Não sei onde está nada nessa casa, é esse caos isso aqui sempre. Eu amo essa casa, mas realmente devia me livrar de algumas dessas coisas. Desses livros ali, daqueles sapatos, daquelas roupas. Dessas gavetas entulhadas de papéis que eu nem sei de onde vieram. Tenho uma gaveta só de guardanapos escritos em bar, é um negócio ridículo. Mas bonitinho. Tem uns poeminhas. E eu lembro dos dias e de quem estava comigo. Talvez seja tudo inventado, não sei mais. Mas sei que preciso dar um jeito nessa zona. Com certeza vou inclusive escrever melhor com a casa renovada. Energia estagnada não pode fazer bem. Não faz. Preciso me livrar dessas tralhas. Esses livros, eles estão todos fora de ordem, vou tirar tudo da estante, organizar por influência e semelhança e me livrar da metade. Mais da metade. De tudo que eu não leio mais. Mas e se eu precisar? É sempre assim. É tipo doar um sapato e na outra semana comprar um vestido que seria perfeito pra ele. A vida, essa sem timing, sempre sacaneia. Desapega, desapega, vamos lá. Vamos fazer isso e vamos começar empilhando tudo na mesa. Vai dar uma trabalheira. Eu tinha que achar o caderninho com aquele começo, mas depois eu mexo nas gavetas. Jogar um monte de tralha fora. É isso, vou renovar essa casa. Depois tudo flui. Certeza que flui."

*Clara Averbuck é escritora e editora do portal Lugar de Mulher.