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Sérgio Castro|Estadão

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Leia poemas de Thiago de Mello, que comemora 90 anos

Nascido em 30 de março de 1926, poeta será homenageado em São Paulo

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Redação,
O Estado de S. Paulo

15 Março 2016 | 06h00

Confira três poemas de Thiago de Mello, autor de 'Faz Escuro Mas eu Canto', entre tantas outras obras que marcaram sua geração.

Os Estatutos do Homem

(Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony

Artigo I 

Fica decretado que agora vale a verdade, 

que agora vale a vida, 

e de mãos dadas, 

marcharemos todos pela vida verdadeira. 

 

Artigo II 

Fica decretado que todos os dias da semana, 

inclusive as terças-feiras mais cinzentas, 

têm direito a converter-se em manhãs de domingo. 

Artigo III  

Fica decretado que, a partir deste instante, 

haverá girassóis em todas as janelas, 

que os girassóis terão direito 

a abrir-se dentro da sombra; 

e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, 

abertas para o verde onde cresce a esperança. 

Artigo IV   

Fica decretado que o homem 

não precisará nunca mais 

duvidar do homem. 

Que o homem confiará no homem 

como a palmeira confia no vento, 

como o vento confia no ar, 

como o ar confia no campo azul do céu. 

Parágrafo único:  

O homem, confiará no homem 

como um menino confia em outro menino. 

Artigo V  

Fica decretado que os homens 

estão livres do jugo da mentira. 

Nunca mais será preciso usar 

a couraça do silêncio 

nem a armadura de palavras. 

O homem se sentará à mesa 

com seu olhar limpo 

porque a verdade passará a ser servida 

antes da sobremesa. 

Artigo VI  

Fica estabelecida, durante dez séculos, 

a prática sonhada pelo profeta Isaías, 

e o lobo e o cordeiro pastarão juntos 

e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora. 

Artigo VII  

Por decreto irrevogável fica estabelecido  

o reinado permanente da justiça e da claridade,  

e a alegria será uma bandeira generosa  

para sempre desfraldada na alma do povo. 

Artigo VIII   

Fica decretado que a maior dor 

sempre foi e será sempre 

não poder dar-se amor a quem se ama 

e saber que é a água 

que dá à planta o milagre da flor. 

Artigo IX   

Fica permitido que o pão de cada dia 

tenha no homem o sinal de seu suor.   

Mas que sobretudo tenha  sempre

o quente sabor da ternura. 

Artigo X  

Fica permitido a qualquer  pessoa, 

qualquer hora da vida, 

uso do traje branco. 

Artigo XI   

Fica decretado, por definição, 

que o homem é um animal que ama  

e que por isso é belo, 

muito mais belo que a estrela da manhã. 

Artigo XII   

Decreta-se que nada será obrigado nem proibido, 

tudo será permitido,  

inclusive brincar com os rinocerontes  

e caminhar pelas tardes  

com uma imensa begônia na lapela. 

Parágrafo único:  

Só uma coisa fica proibida: 

amar sem amor. 

Artigo XIII   

Fica decretado que o dinheiro 

não poderá nunca mais comprar 

o sol das manhãs vindouras. 

Expulso do grande baú do medo, 

o dinheiro se transformará em uma espada fraternal 

para defender o direito de cantar 

e a festa do dia que chegou. 

Artigo Final.   

Fica proibido o uso da palavra liberdade,  

a qual será suprimida dos dicionários  

e do pântano enganoso das bocas. 

A partir deste instante 

a liberdade será algo vivo e transparente 

como um fogo ou um rio, 

e a sua morada será sempre  

o coração do homem.

(Santiago do Chile, abril de 1964)

 

Leia também: Autor de ‘Faz Escuro Mas Eu Canto’, Thiago de Mello comemora 90 anos em São Paulo

 

Mão do Lixo

Para as crianças brasileiras que estão nascendo

A mão com que eu cato o lixo

Não e a mão com que eu devia ter.

A minha mão o que quer

na mesa da minha casa

o bom pão de cada dia.

Como não tenho, então venho

catar no lixo o que os outros

não quiseram, virou lixo.

Não fa mal se ficou sujo,

se os urubus beliscaram,

se ratos roera pedaços.

Do que ia matar minha fome

mesmo estragado serve,

porque fome não tem luxo.

A mão com que cato o lixo

não é a com que nasci,

foi feita pela nação.

Quando como coisa podre,

depois me torço de dor,

fico pensando tomara

que essa dor um dia doa

nos que têm tanto, mas tanto,

que fazem pão virar lixo.

Com meus dedos no monturo,

me sinto um lixo de infância.

Não pareço, mas sou criança.

Por isso enquanto procuro

restos de vida no chão,

uma fome diferente,

quem sabe é o pão da esperança,

esquenta meu coração.

Que um dia criança alguma

do meu país e do mundo

seja mão virando lixo.

(Escrito a pedido da Unesco) - 'Em Acerto de Contas' (2015)

 

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