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Cultura

Portugal

Leia o poema 'Rimance das Donas de Portugal', de Cecília Meireles, descoberto agora

Poema foi escrito há 84 anos e sua leitura ficou restrita à comunidade portuguesa que vivia no Rio no início dos anos 1930

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Redação,
O Estado de S.Paulo

08 Março 2016 | 06h00

Em 1931, Cecília Meireles foi convidada a participar da Festa do Centro do Minho, realizada no Rio de Janeiro, e escreveu um poema para a ocasião. Rimance das Donas de Portugal foi publicado logo após o evento na revista Lusitania, que circulou entre a comunidade portuguesa, e só agora, mais de oito décadas depois, foi descoberto. O professor Ulisses Infante, da Unesp de São José do Rio Preto, procurava informações sobre a primeira viagem da poeta à Portugal quando se deparou com o texto, inédito em livro.

Leia ‘Rimances das Donas de Portugal’ na íntegra (a ortografia da época foi mantida)

Este é o singelo rimance

Por onde ha-de ir, bem ou mal,

Uma palavra que alcance,

Ainda que de relance,

As Donas de Portugal.

Do Portugal Pequenino,

Mapa ainda em formação,

Entre os dedos do destino

Que o tirou como a um menino

De dentro do coração...

... Tempo de antanho indeciso,

Quando o tropel das pelejas

Mata ou exalta de improviso...

Paira sôbre êle o sorriso

Das Urracas e Tarejas.

Enquanto Portugal cresce,

Enquanto a conquista escalda,

Detrás da luta aparece

O vulto, que se esmorece,

De alguma Aldonça ou Mafalda...

Figuras mansas, de escassos

Perfis, sem côres nem brilhos.

Postas nos salões dos paços

Entre harpas de timbres lassos

E encantos de remedilhos

Graça dos tempos distantes.

Dos amigos alongados,

Em que se contam instantes

Da ausência dos inconstantes

Falando aos pinos calados.

Tempos de trovas discretas...

Sanchas, Brancas, Leanores...

Quando havia reis poetas

Que, com falas incompletas,

Iam trovando de amores...

E, entre místicas infantas,

De figuras nebulosas,

Assim, ó tempo, levantas,

Rostos de rainhas-santas

Que mudavam pães em rosas...

Outros rostos vêm à tona...

Vêm nas águas do Mondego...

Uma Dona e outra Dona...

E é o fado que as abandona,

Perdidas no seu socêgo...

“Eu era moça e menina,

Por nome, D. Inês...”

Era uma vez uma sina...

Mais uma espada assassina...

E um príncipe... Era uma vez...

Ó coração que sempre amas!

Ó amor, que à desgraça impéles...

Como um sol de estranhas flamas,

Entre as suas nobres damas,

Aparece Leonor Teles.

D. Filipa descerra,

Do alto, a nova dinastia,

Que, após os feitos de guerra,

Há de sonhar algum dia

Com a forma oculta da terra...

E este cantar se abandona

Ao gôsto de recordar

A primeira triste Dona

De olhos postos sôbre o mar

Que os navios aprisiona...

Cada noiva real, preciosa...

E cada infanta suave, e cada

Princesa, mais que uma rosa

Sensível e delicada...

E Joana, “desesperada,

Mui triste... muito chorosa...”

No tempo de náus e velas...

No paço se encontrarão

Brites e Marias belas

E a luz que se anima entre elas,

de Francisca de Aragão...

Romabisa... Aonia... Sombria

Estrada de Pastoral...

Ai de quem te viu um dia!

(“A ela chamavam Maria

E ao pastor Crisjal...”)

Serranas vão para os montes.

Poetas vão para naufrágios,

Bem além dos horizontes...

E o amor faz de olhos fontes

Com água de velhos presságios...

Anda vagando pelo ar

Natércia, desconhecida...

Lereno oferece a vida

A alguém que lhe queira dar

Uma esperança perdida...

Pastorinhas encantadas...

Passam rebanhos, sanfonas...

Amadas e desamadas.

Misteriosas, tristes Donas...

E as Donas belas ou feias

Que não teve o Sonhador

Que ao seu sonho as fez alheias,

Namorado das areias

Onde, emfim, morreu de amor...

Madalena de Vilhena

Rompe os espaços, demente,

E o ar se enche da estrenha cêna

Em que o fantasma lhe acena

Com gestos de antigamente...

Mas a tréva é iluminada

E o grande horror se dissipa

Quando, empunhando uma espada,

Arma os filhos, clama e brada,

A, de Vilhena, Filipa.

O rimance encontra agora,

Como um pássaro no dia,

Poetisas-freiras de outróra:

Donas em que o sonho mora

Vestido de nostalgia...

Velhos nomes de convento:

Violante do Céo... Leonarda...

E aquela em que o sentimento

Faz da desgraça alimento.

– Mariana, a que Deus não guarda...

E as musas passam veladas...

Sono de mágua e desengano...

Mortas figuras caladas...

Grandes paixões torturadas

Unindo Garret a Elmano...

Donas tôdas silenciosas,

Que valeram o universo,

Que nunca foram ditosas,

E morreram como rosas

Dando perfume a algum verso...

Donas mórbidas, vestindo

Seus trajos de cemitério,

E pôndo um sorriso lindo

– Para o fazer mais infindo –

Sobre seu grande mistério...

Donas de pálido rosto,

De violáceas olheiras,

Contemplando, no sol posto,

Tecer-se o véu do desgôsto

Pelas nuvens – fiandeiras...

E as donas que não tiveram

Sua morada nos paços...

Que entre monte e val nasceram,

E em val e monte viveram,

Namoradas dos espaços...

Que encheram da côr dos astros

A anfora clara do olhar,

E sonharam náus e mastros,

E choraram sóbre os rastros

Dos filhos dados ao mar...

Donas simples, Donas fortes,

Donas mortas, Donas vivas,

Donas de diversas sortes,

Donas humildes e altivas,

Descuidadas, pensativas,

– Este rimance foi feito,

Donas! para vos saudar.

Em cada verso imperfeito

O coração toma o geito

De uma vela a navegar...

Sóis tôdas aqui presentes,

Donas de atanho r de agora,

Da estirpe daquelas gentes

De largos sonhos ardentes

Partidos por mar afóra.

Gentes de perpétua lenda,

Que se fizeram assim

Como que se aprenda

Que a sua vida é uma senda

Para rimances sem fim...

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