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Literatura

Legado de Lucia Miguel Pereira é ampliado com 'O Século de Camus'

Livro traz inéditos da eterna dama da crítica

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Rodrigo Petronio,
ESPECIAL PARA O ESTADO

09 Janeiro 2016 | 04h00

O objetivo da crítica literária não é apenas julgar obras. Deve também situá-las dentro de determinadas tradições. Ao fazê-lo, a literatura como um todo amplia seus limites, redimensionando obras e autores em um horizonte temporal e espacial mais amplo. 

Não por acaso, alguns dos grandes pensadores e escritores brasileiros, como José Guilherme Merquior, Antonio Candido, Otto Maria Carpeaux e Machado de Assis, entre outros, dedicaram-se de modo sistemático ao exercício da crítica literária. 

Nesse cenário, deve-se louvar o excelente projeto de reedição da obra de um dos maiores nomes da crítica literária brasileira: Lucia Miguel Pereira. O projeto é coordenado pela especialista Luciana Viégas e levado a cabo pela editora Graphia. Dois volumes haviam sido publicados, recobrindo períodos expressivos da atividade de Lucia como crítica: A Leitora e Seus Personagens e Escritos de Maturidade. 

Um terceiro volume, abrangendo artigos publicados de 1947 a 1955, acaba de vir à luz pela mesma editora: O Século de Camus. Como explica Viégas, estes últimos artigos foram descobertos em álbuns no espólio da autora. Trata-se de uma série de recortes dos periódicos impressos. Ou seja: é a primeira vez que esse rico material torna-se acessível aos leitores. 

Esses três volumes podem dar um panorama das mais de duas décadas de trabalho e de centenas de artigos, nos quais Lucia realizou uma meticulosa análise de obras, autores e vertentes, nacionais e estrangeiras. Os artigos foram publicados em sua grande maioria no Correio da Manhã e em O Estado de S. Paulo, dos quais a autora foi colaboradora regular.

Lucia tornou-se desde cedo uma figura mítica no mundo das letras, chegando a fazer sombra a seu marido, o historiador Octavio Tarquínio de Souza, cuja importante legado por sinal também aguarda uma reedição. O estudo de Lucia sobre Machado de Assis, saído do prelo em 1936, foi saudado com entusiasmo por Alceu Amoroso Lima, Manuel Bandeira, Monteiro Lobato, Álvaro Lins e Augusto Frederico Schmidt. Mesmo depois dos estudos excelentes assinados por Jean-Michel Massa, Roberto Schwarz, Alfredo Bosi, Raymundo Faoro e, recentemente, por João Cezar de Castro Rocha, a vida e a obra do bruxo do Cosme Velho narradas por Lucia continuam sendo uma referência indispensável de pesquisa.

Embora o título demonstre a paixão de Lucia pela literatura francesa, O Século de Camus trata de temas, obras e autores diversos, organizados em núcleos temáticos, como os outros dois volumes. Abrange literatura brasileira, autores ingleses e norte-americanos, o gênero romance e os romancistas, a arte da tradução. Trata de diários, biografias, correspondências e aspectos da cultura do pós-guerra. E, como era de se esperar, também reflete sobre o próprio ofício da teoria e da crítica literária. 

Um aspecto que norteia os artigos é a abrangência das linhagens, línguas e autores analisados, que perpassam Kafka, Eliot, Gide, Dickens, Dostoiévski, Julien Greene, além do próprio Camus, confrontado com Sartre. Entretanto essa amplitude não compromete a minúcia da análise formal de cada obra. 

Um dos pontos centrais do método crítico de Lucia é o que chamo de leitura dialógica. O que seria isso? Uma maneira de compreender uma obra a partir de elementos estranhos inseridos nessa mesma obra e que, no entanto, são essenciais para que a obra se realizasse como se realizou. Um exemplo disso é sua análise da fase inicial de Marcel Proust, quando este ainda não era o autor de sua obra-prima ficcional, mas um cronista, crítico e tradutor. 

O ensaio de Proust sobre o crítico Saint-Beuve fora imaginado primeiro em forma de diálogo. Mesmo tendo sido publicado como ensaio, a gênese da ficção proustiana, com suas centenas de páginas sobre arte e literatura diluídas na voz do narrador e dos personagens, encontrar-se-ia nessa tensão inicial entre o ensaio e a ficção. 

Nesse sentido, Lucia pode ser vista como uma precursora da atual crítica genética, baseada na investigação de processos criativos. 

Lucia também coteja as obras e suas respectivas recepções críticas, dirimindo equívocos de leitura. É o que também ocorre nas excelentes análises de Proust, um de seus autores de devoção e da qual foi tradutora. Além disso, trata de algumas obras que acabavam de ser publicadas em inglês e francês, o que demonstra o esforço de sintonizar o Brasil com os debates que corriam em outros países.

Outro aspecto importante é sua reflexão sobre a crítica literária, em especial sobre a tradição brasileira. Nesse sentido, a autora vincula-se à vertente de Silvio Romero, Capistrano de Abreu e ao próprio Machado de Assis, ou seja, àqueles que contribuíram para desvencilhar a crítica nacional de sua origem impressionista. 

Lucia costumava repudiar a imagem cristalizada do juízo e do rigor críticos como atributos masculinos. 

“Pensar ainda é a melhor forma de viver”, sentenciou, ecoando Pessoa e Valéry. Contra o preconceito e o sexismo, o legado de Lucia Miguel Pereira é valioso e ainda está para ser explorado pelas novas gerações de escritores e leitores. 

* RODRIGO PETRONIO É ESCRITOR, PROFESSOR DA FAAP E DOUTOR EM LITERATURA COMPARADA; AUTOR DE DIVERSOS LIVROS, MINISTRA OFICINAS DE ESCRITA E CURSOS LIVRES DE FILOSOFIA NA CASA CONTEMPORÂNEA, EM SÃO PAULO. 

O SÉCULO DE CAMUS

Autora: Lucia Miguel Pereira

Org.: Luciana Viégas

Editora: Graphia (328 págs., R$ 65)

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