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Ken Follett, 150 milhões de livros vendidos, encerra trilogia sobre século 20

Maria Fernanda Rodrigues - O Estado de S. Paulo

28 Agosto 2014 | 19h 28

Ele está no País para participar da Bienal do Livro, mas 'Eternidade Por um Fio' terá lançamento mundial apenas no dia 16

O sucesso sempre esteve nos planos de Ken Follett, 65 anos e 150 milhões de exemplares vendidos. “Eu nunca quis só escrever um romance; eu queria fazer um best-seller. A maioria dos escritores diz que escreve para o próprio prazer, mas desde o começo eu quis agradar aos leitores e fazer algo que eles achassem muito bom. Nasci assim: eu queria ser uma estrela”, diz o britânico em sua segunda passagem pelo Brasil - há mais de 20 anos, ele veio para o carnaval. Agora, o motivo é profissional. No sábado, na Bienal do Livro, ele fala sobre a trilogia O Século. O visitante, porém, terá de esperar até o dia 16 para comprar o derradeiro volume - de nada menos do que 1.070 páginas: Eternidade Por Um Fim. É a data em que livrarias do mundo todo receberão a obra.

Márcio Fernandes/Estadão
Com 150 milhões de exemplares vendidos, Ken Follett é destaque na Bienal do Livro

Iniciada com Queda de Gigantes (2010) e Inverno do Mundo (2012), a trilogia acompanha a história do século 20 por intermédio da trajetória de cinco famílias (dos Estados Unidos, Inglaterra, País de Gales, Rússia e Alemanha). O livro que sai agora vai dos anos 1960 até a posse do presidente Obama, em 2008, e percorre momentos como a guerra fria e a luta pelos direitos civis - a parte que mais o emocionou.

Para se preparar para o livro, o autor fez uma viagem ao sul dos EUA. “Achei que soubesse tudo sobre aquele período, mas a viagem foi muito emocionante. Pensar em como aquelas pessoas foram heroicas, em como muitos apanharam, outros foram mortos. Achei isso terrivelmente tocante”, comenta. Ele concorda que nem todos os problemas foram resolvidos, e o recente assassinato de Michael Brown Jr. em Ferguson é prova disso, mas é otimista. “Os afro-americanos podem votar hoje e isso faz a diferença. Além disso, há muitos policiais afro-americanos no Sul dos Estados Unidos. Nos anos 1960, não havia nenhum. Essa é uma mudança muito grande.” A luta é contada por Follett a partir da história de George Jakes, um dos 104 personagens da obra, filho de mãe negra e pai branco, que se engaja no movimento.

Mais de mil páginas, mais de 100 personagens. Esta parece ser a fórmula do sucesso de Ken Follett. Mas isso ele só descobriu no 11.º título que escreveu - O Buraco da Agulha, de 1978. O que aconteceu de diferente? “Foi o primeiro que eu planejei e pesquisei. O enredo se passava na Segunda Guerra Mundial, então tive que pesquisar tudo - como era a vida, quanto custavam as coisas, como a comida era racionada. Tive que conhecer todos esses detalhes - o que tornou o livro mais interessante”, explica, acrescentando que a terceira mudança foi o ritmo dos livros. 

Os títulos anteriores, mais curtos, são herança do jornalismo, que exerceu por cinco anos. Por causa dele, tornou-se fluente na escrita e aprendeu a encarar o papel em branco com naturalidade. Dos tempos em que foi editor de livros, aprendeu a pensar num projeto editorial que agradasse também aos livreiros. 

Outro marco em sua carreira foi quando deixou os policiais que vinha escrevendo de lado para se dedicar à história da construção de uma catedral da Idade Média. Os Pilares da Terra, de 1989, editado pela Rocco, é um de seus maiores sucessos até hoje. Uma obra extensa, mas ainda pequena diante de seu projeto mais ambicioso até agora: a trilogia O Século.

“Essa história é sobre o lugar de onde viemos, mostra por que o mundo é como ele é hoje. Achei que interessaria às pessoas porque elas estariam aprendendo sobre si”, explica. Ela é contada com base na vida inteira dos personagens, o que, para o autor, é uma das razões de seu sucesso. “Normalmente os conhecemos quando ainda são crianças, os vemos crescer, se apaixonarem, terem filhos, ficarem velhos.”

Para evitar algum deslize, contratou historiadores para revisar seu trabalho. Seu desafio, diz, é tocar o leitor. “É tão fácil escrever livros ruins, autoindulgentes, e é muito difícil cativar o leitor. Acordo de manhã e é isso o que quero fazer. É emocionante fazer isso e ser bom nisso”, gaba-se.

Porque gosta (de Stephen King e Lee Child) e porque quer saber o que faz sucesso (J. K. Rowling e Suzanna Collins), lê autores best-seller como ele. E clássicos. Ir ao teatro é um passatempo, assim como tocar baixo às segundas - sua banda se apresenta cerca de cinco vezes ao ano e o próximo show será na festa de lançamento de Eternidade Por Um Fio em Frankfurt, durante a Feira do Livro. 

Ele sabe que encontrar leitores faz parte do trabalho do escritor e gosta disso (mas não de viajar). Aos que irão à Bienal, uma dica: Follett acha esquisito um estranho querer beijá-lo. 

Na volta para casa, vai se dedicar aos três livros que pretende lançar (pela Arqueiro) nos próximos nove anos - um deles sobre espiões europeus no século 16.

Ken Follett em números

Segundo a editora Arqueiro, foram vendidos 150 mil exemplares de Queda de Gigantes e 50 mil exemplares de Inverno do Mundo. A primeira tiragem de Eternidade Por Um Fio está saindo com 50 mil exemplares. A obra já está em pré-venda, e 3 mil exemplares da versão impressa e 2 mil da digital já foram encomendados.

Trechos de Eternidade Por um Fio

"Rebecca Hoffmann foi convocada pela polícia secreta em uma segunda-feira chuvosa de 1961.

A manhã começou como outra qualquer. O marido a levou ao trabalho de carro, um Trabant 500 bege. As antigas e graciosas ruas do centro de Berlim ainda exibiam buracos causados pelos bombardeios da guerra, exceto nos pontos em que os novos edifícios de concreto se erguiam como dentes falsos que não combinavam com os outros.

(...)

Rebecca vinha de uma família de políticos. O avô fora membro social-democratado Parlamento alemão, o Reichstag, até Hitler subir ao poder. A mãe, também social-democrata, tinha integrado o conselho municipal durante o breve interlúdio democrático de Berlim Oriental após a guerra. Mas a Alemanha Oriental agora era uma tirania comunista."

(...)

"Para o café da manhã, a mãe de George Jakes lhe preparou panquecas de mirtilo e bacon acompanhadas por mingau de fubá grosso.

- Se eu comer tudo isso vou ter de começar a lutar na categoria peso pesado - comentou ele.

George tinha 77 quilos e era o astro dos pesos meio-pesados do time de luta livre de Harvard.

(...)

A expressão preocupada era resultado de ter criado o filho sozinha nos primeiros 10 anos, trabalhando como garçonete, morando em uma casinha minúscula atrás da Union Station e instilando o menino a importância do trabalho duro, da educação e da respeitabilidade.

- Eu te amo, mãe, mas mesmo assim vou participar da Viagem da Liberdade - disse o rapaz.

Jacky contraiu os lábios em reprovação."