Andrew Testa/The New York Times
Andrew Testa/The New York Times

Kazuo Ishiguro volta ao romance com ‘O Gigante Enterrado’

Obra do escritor japonês aborda o dever de se lembrar e a importância da memória coletiva para combater a barbárie

Entrevista com

Kazuo Ishiguro

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

18 Agosto 2015 | 07h00

Fazia dez anos que Kazuo Ishiguro, um dos principais escritores da atualidade, não publicava um romance, até surgir O Gigante Enterrado, lançado agora pela Companhia das Letras. O lançamento surpreendeu os leitores, pois o autor de best-sellers como Os Resíduos do Dia e Não Me Abandone Jamais enveredava agora por uma arruinada Inglaterra medieval, onde a população desnorteada sofre com diversas ameaças, de invasão de ogros a uma misteriosa névoa que estimula o esquecimento.

Engana-se quem acredita que Ishiguro, japonês de 60 anos e que, desde os 5, vive na Inglaterra, segue a mesma trilha de sucesso de produtos como Game of Thrones – seu universo de fantasia é o ponto de partida para Ishiguro discutir temas como morte e guerra. Mais que isso: mostrar como preservar a memória pode tanto trazer benefícios como malefícios a partir da história do casal de idosos Axl e Beatrice que, ao decidir partir em busca do filho, não se lembra de suas feições tampouco de seu paradeiro. Sobre o assunto, Ishiguro, admirador da Bossa Nova (“Adoro João Gilberto e Roberto Menescal”), conversou por telefone com o Estado

'O Gigante Enterrado' surpreendeu seus leitores, interessados no processo de trabalho e fontes de influência.

Há cerca de dez anos, comecei a escrever uma história que não estava localizada no tempo e no espaço. O ponto de partida era uma sociedade onde as pessoas sofriam de algum tipo de amnésia coletiva, mas estranhamente seletiva. Lá, um casal teme que, sem compartilhar a memória, seu amor iria desaparecer. Escrevi cerca de 50 páginas e mostrei para minha mulher, Lorna. Ela leu as primeiras anotações e foi taxativa: “melhor você começar do zero novamente, pois nada disso vai interessar alguém”. Foi o que fiz: abandonei o projeto por seis anos, escrevi alguns contos até que o tema da memória, que sempre me interessou, me fez voltar ao projeto. E, como de hábito, li muito e fiz uma grande pesquisa antes de voltar a escrever.

De alguma forma, obras como 'Game of Thrones' e similares auxiliaram seu trabalho?'

Na verdade, não. Evito ser influenciado pelas leituras que faço, pois o grande desafio quando se escreve é manter seu mundo ficcional intacto, sem nenhuma influência externa. Não assisti a nenhum episódio de Game of Thrones, pois temia influenciar a forma como visualizaria as cenas do meu romance. Nessa fase do trabalho, prefiro ler obras de não ficção que são mais valiosas como fonte de pesquisa.

E quando decidiu que o romance se passaria em uma Inglaterra medieval?

Normalmente, a escolha da localização da história é minha última decisão no processo. Preciso ter a trama decidida para então escolher o lugar, sem me preocupar que isso poderia definir o gênero do romance. Minha primeira intenção era ambientar em algum lugar contemporâneo. Cheguei a pensar na Bósnia da década de 1990, assim como também cogitei Ruanda, mas logo desisti pois não me sinto qualificado para escrever sobre a África. Eu me sentia mais próximo da desintegração da Iugoslávia pelo fato de viver na Europa e de acompanhar de perto aqueles massacres. Minha ideia era ter um ambiente onde antes dois grupos étnicos distintos conviviam pacificamente até que algo despertasse uma memória tribal ou mesmo social e provocasse um conflito sangrento. Mas logo senti que essa proximidade temporal me obrigaria a usar uma exatidão jornalística, o que não me interessava – minha força como escritor de ficção é essa capacidade de dar um passo atrás. Prefiro criar uma história mais metafórica, que as pessoas possam aplicar a uma variedade de situações, pessoais e políticas.

Foi quando escolheu a Inglaterra povoada de seres míticos?

Sim, porque esse mundo mágico me permite fazer isso. Veja, toda sociedade tem algo enterrado na memória graças à ação de uma força bruta. Em meu romance, questiono se essas lembranças não estão de fato enterradas e se elas, ao ressurgirem, não podem provocar um novo ciclo de violência. Isso leva a um novo dilema, pois não sabemos se é melhor provocar mesmo um conflito para então recomeçar ou se seria melhor manter essa memória enterrada e esquecida.

Chegamos, portanto, à importância da memória em sua obra, elemento cuja função mudou ao longo dos livros.

Com certeza. Escrever é minha única forma de preservar a memória – não de uma forma científica, mas de como o homem consegue preservar sua dignidade ao longo dos tempos. É o que me faz voltar ao conflito central do romance: é melhor preservar alguma lembrança que ponha em risco aquela sociedade ou seria mais prudente esquecê-la para preservar a paz? Neste romance, decidi falar sobre a memória social e o que faz uma nação se lembrar e se esquecer. Assim, para seguir nesse caminho, tive de abandonar a narração em primeira pessoa (confesso que foi penoso) e adotar a impessoalidade que me garantiria uma posição mais neutra a fim de tentar obter um sentimento de toda a nação e a comunidade. Isso tudo focado no casal formado por Axl e Beatrice e o que eles querem lembrar e esquecer, como um casal. 

Veja o trailer de 'Vestígios do Dia' e de 'Não me Abandone Jamais', baseados em romances de Kazuo Ishiguro

 

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