Chris Pizzello/AP
Chris Pizzello/AP

Livro com letras e nova edição de 'Tarântula', de Bob Dylan, chegam ao Brasil

Irmãos Caetano e Rogério Galindo traduziram as obras, disponíveis às vésperas de o artista finalmente receber o Prêmio Nobel de Literatura

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

31 Março 2017 | 05h00

CURITIBA - Ao mesmo tempo em que Bob Dylan se diverte fazendo versões de clássicos da canção americana e se esquivando da Academia Sueca, sua obra - em escrito - ganha edições ao redor do mundo, com o luxo por parte das editoras de estampar na capa o selinho: Prêmio Nobel de Literatura. No Brasil, dois livros seus agora se acrescentam ao Crônicas - Volume Um, que a Planeta reimprimiu ano passado. Tarântula (Tusquets) - o romance experimental que ele lançou no início dos anos 1970, seu único livro de ficção publicado até aqui -, e Letras (1961-1974) (Companhia das Letras) - a reunião de textos que, afinal, lhe rendeu a distinção máxima da literatura mundial. 

Os livros, coincidentemente, são traduzidos por uma dupla de irmãos de Curitiba, cujo sobrenome se tornou uma referência na tradução do inglês nos últimos anos: Rogério e Caetano Galindo. Os dois receberam o Estado num simpático café em Curitiba na tarde de quinta-feira, 29.

Rogério - o irmão mais novo - topou o desafio de traduzir Tarântula: um livro esquisito, cuja única edição brasileira era da Brasiliense, dos anos 1980, feita na época por Paulo Henriques Britto. “É um livro esquisito mais do que é difícil”, diz Rogério, que além de tradutor é jornalista na capital paranaense. “Mas quando o leitor percebe que não precisa entender, tirar um sentido único daquilo, aí se sente mais à vontade e lê mais tranquilamente.” No prefácio à edição brasileira, Valter Hugo Mãe classifica a obra de “urgente exercício de vanguarda” e “exercício melódico de recuperação de algum esplendor ao jeito de Rimbaud”. Segundo Galindo, a tinta esotérica de Tarântula permite interpretações diversas, não rígidas.

Caetano - o irmão mais velho, doutor em linguística e professor da UFPR - traduziu as letras do período mais brilhante do compositor - o segundo volume está previsto para o ano que vem (ambos são bilíngue). “Tirando casos bem pontuais, as letras se traduzem muito bem para hoje. Não foi uma questão pensar que essas letras eram velhas, datadas. A gente vive o mesmo tipo de modernidade hoje em dia, Dylan está vivo”, diz. Depois de um período imerso nas canções, ele afirma entender perfeitamente como as gerações mais novas criaram uma relação profunda com as músicas, escritas há 50 anos.

Embora menos aclamado, Tarântula ajuda a compreender os porquês da devoção, na opinião de Rogério: “Apesar de ter essa coisa beatnik, ele tem uma marca própria e essa capacidade de sobrevivência, também”. Para ele, a nova tradução pode fazer o leitor do século 21 se aproximar mais da obra - “com todo o respeito e a bênção de Paulo Henriques Britto”. Terceiro tradutor do Ulysses de James Joyce no Brasil, Caetano concorda e explica: há uma temporalidade diferente entre originais e traduções. “As traduções em geral envelhecem mais rápido, com exceções.” Retraduzir o livro, portanto, não seria refazer o trabalho, mas oferecer uma nova opção.

“Bob Dylan não é Chico Buarque, no qual você consegue ver perfeitamente a métrica da letra, rimas complexas, ferramentas da poesia”, compara Caetano, comentando a opção por traduzir as letras priorizando o sentido semântico, e não necessariamente a forma - “o que não quer dizer mais ou menos qualidade”. As letras de Dylan tendem a ser mais narrativas, aspecto que foi preservado na tradução. “Queríamos que as letras dissessem o que tinham pra dizer.”

E o que exatamente é isso? Dylan deu raras entrevistas na carreira comentando as próprias músicas - em uma entrevista, chegou a ironizar que elas eram “about 4 or 5 minutes”. “São mais ‘tipos’ de canções”, diz Caetano. “Anedotas e crônicas; a canção surreal humorística, meio alucinada; as coisas mais evocativas. Mas o espectro dele é bem mais amplo do que as canções pop de amor comuns.”

A vida urbana americana, porém, com forte teor autobiográfico, é um ponto de contato entre vários dos escritos de Dylan no período. “No caso do Tarântula, o narrador parece um cara doidão de ácido vendo Nova York e tentando relatar o que está passando”, diz Rogério. “Quase tudo gira em torno dessa ideia maluca que é viver amontoado com milhões de pessoas num espaço limitado.” A política - tema caríssimo ao período mais vigoroso da composição de Dylan - aparece de relance no romance, com a devoção que o compositor nutre pela música negra americana. Aretha é a primeira palavra de Tarântula - Leadbelly é outro artista referenciado o tempo todo. “A segregação racial aparece várias vezes.”

“Esse é um tema bem recorrente na produção dele”, diz Caetano sobre a questão racial. “É muito louco: um judeu vindo da cena folk tão preocupado com isso. Em algum momento, ele parece quase obcecado. Como não poderia deixar de se esperar de uma pessoa inteligente nos EUA naquela época.”

Caetano confessa que nunca foi um grande fã de Dylan, então o trabalho de tradução das letras foi também uma aproximação, que lhe permitiu perceber pérolas talvez negligenciadas ao longo do tempo. “Fiquei chocado com a variabilidade, em quanto ele nitidamente muda de projeto de um disco para o outro.” Duas ficaram marcadas: Eternal Circle (“Através de um disparo de luz / O rosto dela refletia / As palavras que logo sumiam / Ao correrem da minha língua / Com um olhar telescópico / Seus olhos estavam em chamas / Mas a canção era longa / E ainda havia o que cantar”); e Visions of Johanna (“Não é a cara da noite vir com truques quando você está tentando fazer tanto silêncio? / Estamos ali naufragados, apesar de fazer o melhor pra negar”).

Essa é a terceira vez que os dois irmãos trabalham “juntos”: páginas de Beckett e Saul Bellow já passaram pelas suas mãos em conjunto. Dessa vez, foi coincidência. “O tradutor é um tipo bem específico de nerd”, diz Caetano - sua filha, Beatriz, de 19 anos, também já entrou no ramo. “A tradução literária é um lugar em que há uso para toda a cultura inútil que você acumulou durante a vida.” Rogério complementa, com um sorriso: “e os caras ainda pagam”.

LETRAS (1961-1974)

Autor: Bob Dylan

Tradução: Caetano 

Waldrigues Galindo

Editora: Companhia das Letras (640 págs.,R$ 89,90)

TARÂNTULA

Autor: Bob Dylan

Tradutor: Rogério Waldrigues Galindo

Editora: Tusquets (136 págs.,R$ 36,90)

LETRAS (1961-1974)

"Tudo bem, mãe (Eu só estou sangrando)

As trevas no raiar do meio-dia

Escurecem até o berço de ouro

A lâmina feita a mão, a criança com o balão

Cobre tanto o sol quanto a lua

Pra entender que você sabe desde sempre

Que não adianta tentar

Ameaças violentas são blefes por desprezo

Comentários suicidas são rasgados

Da boca dourada do tolo o corne oco

Toca palavras perdidas, prova-se aviso

De que quem não se ocupa em nascer se ocupa em morrer

A página da tentação voa porta afora

Você vai atrás, se vê em guerra

Assiste rugirem cataratas de pena

Você quer gemer, mas não como antes

Descobre que seria só mais uma

Pessoa chorando

Então não tema se ouvir

Um som estranho ao seu ouvido

Está tudo bem, mãe, eu só estou suspirando

Enquanto alguns avisam da vitória, outros da queda

Motivos privados, pequenos ou grandes

Podem ser vistos nos olhos daqueles que chamam

Pra fazer rastejarem os que seriam mortos

Enquanto outros dizem não tenha ódio de nada

A não ser do ódio

Palavras desiludidas como balas ladram

Enquanto deuses humanos miram o alvo

Fazem tudo, de armas de brinquedo com fagulhas

A Cristos cor de carne que rebrilham no escuro

É fácil enxergar sem olhar muito longe

Que não muita coisa é mesmo sagrada

Enquanto padres pregam e falam de fados maus

Professores ensinam que o saber está à espera

Pode levar a pratos caríssimos (...)"

TARÂNTULA

"aretha/ rainha da jukebox de cristal de hinos & homens difusa em ébria transfusão ferida daria atenção a doce e aleijada onda sonora & saudaria gritando o oh grande eldorado particular em rolo & seu combalido deus pessoal mas ela não pode ela a líder de quem vós seguis, ela não pode ela não tem apoio ela não pode... (...) cães de notívagos zés, crescem como arcos, ossos & destroços dos que já se foram enquanto gemidos mais firmes e fortes & brasões do senhor dos funerais com um beijo apaixonado ensaiam desde o alvorecer & escalando os arbustos com algum inimigo de preleção rasgando selos postais & carteiros loucos & dando adeus a todas as patentes & ambição familiar mais do que em si mesmo, é necessário para saber que a mãe não é só uma lady... aretha sem metas, solitário sempiterna & a um leve passo do paraíso/ fique claro que essa melodia lhe pertence bem como seus diplomatas emocionais & sua terra & seus segredos musicais”

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