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'Imageria' recupera as origens dos quadrinhos

- Atualizado: 06 Fevereiro 2016 | 05h 30

Livro de Rogério de Campos volta 500 anos no tempo para explorar as primeiras HQs e preencher uma lacuna

Seria como se Dom Quixote nunca tivesse sido publicado por aqui: é assim que o editor e autor Rogério de Campos define a ausência que existe na difusão de obras fundadoras dos quadrinhos. Sua contribuição para a posteridade é Imageria: O Nascimento das Histórias em Quadrinhos, publicado pela Veneta e já nas livrarias, em edição de luxo.

“Os quadrinhos viveram sempre muito o presente e o futuro, não é uma linguagem que se vangloria do passado”, diz Campos, na sede da editora, da qual é o proprietário, no centro de São Paulo. “Pelo menos até agora.”

Editor, Rogério de Campos publicou alguns dos principais quadrinistas no País
Editor, Rogério de Campos publicou alguns dos principais quadrinistas no País

Ele relaciona as HQs também com o cinema, e o papel fundamental – e praticamente deixado de lado – que os quadrinhos tiveram na própria criação da sétima arte. L’Arrouseur Arrosé, o filme de 45 segundos, envolvendo um regador e uma mangueira, que Louis Lumière produziu em 1895, foi inspirada em HQs publicadas desde 10 anos antes. “É incrível como os historiadores não trouxeram isso à tona”, relata. Este é considerado o primeiro filme de ficção do cinema.

O livro também recupera, por exemplo, Histoire de M. Jabot, uma série de desenhos impressos e publicados na década de 1830 em Genebra pelo suíço Rodolphe Töpffer. “Não são histórias para arqueólogos. Leia as histórias do Töpffer, são muito engraçadas”, relata. “Certamente ele é um dos grandes quadrinistas da história até hoje. Por que ele não é publicado? Isso me deixa perplexo.”

Campos apresenta também a discussão sobre qual seria de fato a primeira HQ publicada na história – segundo os americanos, é Yellow Kid, de 1896, de Richard F. Outcault.

Mas o fato é que o livro de capa dura traz mais de 350 páginas, entre textos do autor e histórias em quadrinhos produzidas e veiculadas desde a segunda metade do século 15, há 500 anos, até o início do século 20, momento em que Campos identifica uma interrupção da “revolução”. Nessa época, segundo o pesquisador Brian Walker (citado no livro), “o mercado dos quadrinhos adotou um rígido código de autocensura”.

Apesar de ser um entusiasta da atual produção dos quadrinhos brasileiros e acreditar que vivemos um momento de “libertação”, Campos acredita que a indústria ainda não se recuperou desse choque, ou seja, ainda evita riscos maiores e ousadias. “Não estou reclamando do politicamente correto, mas a indústria não quer chocar ninguém, e isso passa para toda a criação artística”, afirma, relacionando o movimento a certo obscurantismo religioso presente no mundo todo. Recentemente, quadrinhos eróticos de Paulo Leminski e Alice Ruiz, republicados pela Veneta, enfrentaram dificuldades no mercado por conta de distribuidoras e livrarias. A censura da “grana”, diz, é mais efetiva do que a censura oficial.

De todo jeito, ele está realmente entusiasmado com a produção nacional. “Não é nenhum favor publicar os quadrinhos brasileiros hoje em dia.”

IMAGERIA: O NASCIMENTO DAS HISTÓRIAS EM QUADRINHOS

Autor: Rogério de Campos

Editora: Veneta (360 págs., R$ 149,90)

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